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Canetas emagrecedoras completam um ano no Brasil com riscos para músculos e saúde mental

Medicamentos transformaram o combate à obesidade, mas perda de massa muscular, deficiências nutricionais e alterações na relação com a comida exigem acompanhamento especializado


Redação Tribuna do Planalto Por Redação Tribuna do Planalto em 29/08/2026 - 07:48

Mounjaro Canetas emagrecedoras completam um ano no Brasil com riscos para músculos e saúde mental
(Foto: Reprodução)

Pouco mais de um ano após a aprovação da tirzepatida para o controle crônico do peso e do diabetes no Brasil, as chamadas “canetas emagrecedoras” consolidaram uma transformação no tratamento da obesidade. Embora os resultados na balança sejam expressivos, a experiência acumulada reforça que emagrecer rapidamente não é suficiente. Também é necessário avaliar os efeitos sobre a massa muscular, o estado nutricional e a saúde emocional do paciente.

Vendida com o nome comercial de Mounjaro, a tirzepatida recebeu da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em junho de 2025, autorização para ser utilizada na perda e na manutenção do peso. O medicamento age sobre os receptores de GIP e GLP-1, promovendo maior saciedade e diminuindo a quantidade de alimentos consumida. No estudo SURMOUNT-1, pacientes que utilizaram a dose mais elevada perderam, em média, 20,9% do peso corporal ao longo de 72 semanas.

Na avaliação do médico nutrólogo Dr. José Israel Sanchez Robles, a chegada desses medicamentos representou um avanço relevante contra a obesidade. O especialista ressalta, porém, que o tratamento não pode depender exclusivamente das injeções nem ter como único parâmetro a redução indicada pela balança.

“As canetas mudaram significativamente o tratamento porque possibilitaram resultados que eram mais difíceis de alcançar com as opções disponíveis anteriormente. Mas o sucesso terapêutico não pode ser avaliado apenas pelo número de quilos perdidos. É preciso observar a redução da adiposidade, especialmente a visceral, a preservação da massa muscular, a melhora da saúde cardiometabólica, da capacidade funcional e da qualidade de vida”, afirma.

Os cuidados necessários durante o uso desses medicamentos foram reforçados por um consenso divulgado em julho de 2026 pela Associação Europeia para o Estudo da Obesidade, pela Federação Europeia dos Nutricionistas e pela Coalizão Europeia de Pessoas com Obesidade. O documento reúne orientações relacionadas à alimentação, à capacidade funcional e aos aspectos psicológicos de adultos submetidos a tratamentos com medicamentos à base de incretinas.

A redução do apetite pode fazer com que o paciente passe a ingerir quantidades insuficientes de proteínas, fibras, vitaminas, minerais e água. Como consequência, uma parcela dos quilos eliminados pode corresponder à massa muscular, e não somente à gordura corporal. O risco merece atenção especial entre idosos e pessoas que já apresentam deficiências nutricionais antes do início do tratamento.

“Uma perda de peso expressiva pode ser um excelente resultado, mas o número na balança, isoladamente, não traduz saúde. É preciso avaliar a composição corporal e garantir a preservação da massa muscular, da força e de um adequado estado nutricional. Quando há uma redução importante da ingestão alimentar, como pode ocorrer durante o tratamento, cada escolha nutricional ganha ainda mais relevância: não basta comer menos, é preciso comer melhor”, alerta o Dr. José Israel.

Entre as recomendações apresentadas pelo consenso estão o consumo adequado de proteínas e fibras, a hidratação e o monitoramento de possíveis deficiências de ferro, vitamina B12, vitamina D, ácido fólico e zinco. Efeitos adversos como náuseas, vômitos, refluxo, diarreia e prisão de ventre também devem ser observados durante o tratamento.

Conforme as necessidades de cada paciente, o controle desses sintomas pode exigir adaptações na alimentação ou uma progressão mais lenta da dose do medicamento. Qualquer mudança, entretanto, precisa ser realizada com orientação profissional.

Outro aspecto destacado é a saúde mental. As canetas podem diminuir episódios de compulsão, fome emocional e o chamado “ruído alimentar”, termo utilizado para definir pensamentos constantes e insistentes relacionados à comida. Embora essa redução possa trazer benefícios, ela também pode expor dificuldades emocionais que anteriormente eram amenizadas ou encobertas pelo ato de comer.

“A alimentação não atende apenas a uma necessidade biológica. Ela também está relacionada ao prazer, às memórias, à convivência social e familiar e, para algumas pessoas, pode funcionar como uma forma de lidar com ansiedade, estresse e outras emoções. Quando essa relação com a comida se modifica de maneira significativa durante o tratamento, podem surgir mudanças na forma como o paciente reconhece e administra essas emoções. Por isso, o cuidado com a saúde mental e com o comportamento alimentar também deve fazer parte de uma abordagem integral do emagrecimento”, explica o nutrólogo.

O alerta não significa que o uso das canetas provoque obrigatoriamente depressão, ansiedade ou sensação de vazio. A orientação é para que os profissionais investiguem como era a relação do paciente com a alimentação antes do tratamento e acompanhem possíveis mudanças comportamentais ao longo do processo. Quem possui histórico de compulsão, transtornos alimentares, ansiedade ou depressão pode necessitar de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico.

“Tratar a obesidade não significa fazer o paciente comer o mínimo possível. O objetivo é reduzir os riscos associados ao excesso de adiposidade, melhorar a saúde e construir estratégias que possam ser mantidas no longo prazo. A medicação pode ser uma ferramenta muito eficaz nesse processo, mas deve estar inserida em um cuidado mais amplo, que contemple alimentação adequada, atividade física, sono, preservação da massa muscular e atenção à saúde emocional e ao comportamento alimentar”, reforça o médico.

A Anvisa também estabelece que a tirzepatida seja associada a uma dieta adequada e à prática de atividades físicas. Desde junho de 2025, medicamentos como Mounjaro, Ozempic e Wegovy somente podem ser adquiridos com retenção da receita médica. A exigência foi adotada diante do crescimento das ocorrências adversas relacionadas ao uso sem indicação ou acompanhamento adequado.

Após pouco mais de um ano dessa nova fase do tratamento da obesidade, José Israel avalia que uma das principais lições é a necessidade de conciliar a eficácia dos medicamentos com um acompanhamento clínico rigoroso.

“Hoje, o desafio não é apenas alcançar uma perda de peso significativa, mas garantir a qualidade desse emagrecimento: reduzir o excesso de gordura, preservar ao máximo a massa muscular e a capacidade funcional, manter um estado nutricional adequado e cuidar também da saúde emocional. O número na balança é apenas uma parte do resultado”, afirma.

Redação Tribuna do Planalto

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