Skip to content

Os votos do interior que podem decidir as cadeiras de Goiás

Disputa por 58 vagas legislativas combina força partidária, quociente eleitoral e batalhas municipais capazes de definir quem chegará à Alego e à Câmara Federal


Por Carlos Nathan Sampaio em 29/08/2026 - 08:26

Os votos do interior que podem decidir as cadeiras de Goiás
Do lado esquerdo o plenário da Câmara Federal e, do direito, o plenário da Alego. (Fotos: Divulgação/Câmara Federal e Alego)

A eleição proporcional de 2026 colocará Goiás diante de uma disputa numerosa e menos simples do que a comparação direta entre candidatos. Os pedidos de registro divulgados, ainda sujeitos a julgamentos e substituições, reúnem 590 nomes para 41 cadeiras na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) e 260 concorrentes às 17 vagas do estado na Câmara dos Deputados. A relação é de 14 candidatos por posto estadual e 15 por cadeira federal. Nesse cenário, municípios pequenos, nos quais algumas centenas de votos parecem pouco diante do eleitorado estadual, podem decidir a diferença entre eleição, suplência e derrota.

Não existe, porém, um número individual fixo que assegure mandato. Como referência histórica, a votação dos eleitos por Goiás em 2022 indica média aproximada de 103,6 mil votos para deputado federal. O resultado variou de 254.653, obtidos por Silvye Alves (União Brasil), a 51.346, recebidos por Lêda Borges (Republicanos). Entre os deputados estaduais, a média ficou perto de 32,9 mil votos; as votações dos eleitos oscilaram de 73.692, de Bruno Peixoto (União Brasil), a 17.484, de Cristóvão Tormin (PRD). Os números resultam de cálculo feito sobre as listas de eleitos divulgadas na apuração de 2022 (federais e estaduais).

Deste modo, uma cidade pequena consegue, sim, eleger um deputado estadual, mas sozinha dificilmente eleger um federal. Essas médias ajudam a dimensionar a campanha, mas não funcionam como nota de corte. Um candidato com 90 mil votos pode ficar fora, enquanto outro com votação menor pode entrar, porque deputados são escolhidos pelo sistema proporcional. Primeiro, contam-se os votos nominais e os votos de legenda recebidos por cada partido ou federação; depois, define-se quantas cadeiras cada grupo conquistou. Somente então as vagas são preenchidas pelos candidatos mais votados dentro de cada lista, observadas as exigências legais.

O quociente eleitoral é a peça central dessa conta. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, ele corresponde à divisão dos votos válidos dados ao cargo pelo número de vagas em disputa. Em uma referência aproximada baseada no volume de votos de 2022, cada cadeira federal exigiu do partido ou federação algo em torno de 202 mil votos; para a Alego, o patamar ficou na casa de 84 mil. Não se trata da quantidade que cada candidato precisa alcançar, mas da força coletiva necessária para a legenda obter representação pela divisão inicial.

Candidatos deputados goiás

O quociente partidário, por sua vez, divide a votação do partido ou federação pelo quociente eleitoral e aponta o número inicial de vagas conquistadas. Há ainda a distribuição das sobras, feita por médias conforme as regras vigentes. Para ocupar diretamente uma cadeira obtida pelo quociente partidário, o candidato também precisa atingir votação nominal mínima equivalente a 10% do quociente eleitoral. Em valores apenas ilustrativos com base em 2022, seriam cerca de 20 mil votos para federal e 8 mil para estadual. Porém, alcançar esse mínimo, sozinho, não garante eleição.

É justamente por isso que os pequenos municípios adquirem peso estratégico. A eleição ocorre em todo o estado, e votos colhidos em cidades diferentes entram na mesma soma. Se uma candidatura obtiver 300 votos em 20 municípios, acrescentará 6 mil ao resultado; 500 votos em 30 cidades representam 15 mil. Para a disputa estadual, esses volumes podem separar um eleito de um suplente. Para a federal, podem melhorar a posição interna do candidato e ajudar seu partido a conquistar ou preservar uma cadeira.

Os votos também podem alterar a última casa decimal das médias usadas na distribuição das sobras. Assim, uma cidade pequena dificilmente elegerá sozinha um deputado, mas um conjunto de bases locais pode decidir o destino de uma chapa. Prefeitos, vereadores, ex-prefeitos, lideranças comunitárias e representantes de setores econômicos tornam-se importantes para transformar relações municipais em votação. Essa capilaridade costuma favorecer quem já possui mandato, estrutura política e presença acumulada em diferentes regiões.

A vantagem dos atuais deputados aparece no tamanho do bloco que tentará permanecer no Legislativo. Dos 41 integrantes da Alego, ao menos 28 pretendem disputar a reeleição, o equivalente a 68% da Casa. Outros cinco — Bruno Peixoto, Lucas do Vale, Lucas Calil, Dra. Zeli e Ricardo Quirino — planejam concorrer à Câmara Federal. Ao todo, 33 parlamentares estaduais devem voltar às urnas em busca de mandato legislativo. Eles partem com visibilidade, atuação parlamentar, equipes e redes de apoio que os novatos ainda precisam construir.

A palavra “novato”, contudo, exige ressalva. Parte dos candidatos que tenta trocar a composição da Alego já ocupou prefeituras, secretarias, câmaras municipais ou até mandato estadual. Em Aparecida de Goiânia, Isaac Martins, Willian Panda, Vanilson Bueno, Felipe Mabel e Danilo Rios disputam espaço em um eleitorado grande, mas fragmentado. Isaac, por exemplo, obteve 13.726 votos para deputado estadual em 2022 e ficou na suplência. A multiplicação de candidaturas identificadas com a cidade pode impedir a concentração necessária e beneficiar nomes de fora com votação estadualizada.

Em Rio Verde, Paulo do Vale tenta converter a experiência de dois mandatos como prefeito em uma cadeira estadual, enquanto o filho, Lucas do Vale, busca uma vaga federal. Lissauer Vieira, ex-presidente da Alego, tenta retornar à Casa, e a vereadora Nayara Barcelos se apresenta como opção de renovação. No Entorno do Distrito Federal, Ramos Somar, vice-prefeito de Formosa, e Pábio Mossoró, ex-prefeito de Valparaíso, apostam na demanda por maior representação regional.

O embate, portanto, não será simplesmente entre experiência e novidade. Será uma disputa entre redes já espalhadas pelo estado e candidaturas que procuram transformar identidade municipal em voto concentrado. Aparecida, Anápolis, Rio Verde e o Entorno oferecem grandes reservas eleitorais, mas cidades menores podem fornecer os votos marginais que completam a conta. A seleção dos partidos também será decisiva: entrar em uma chapa forte aumenta a possibilidade de vagas, mas coloca o candidato diante de concorrentes internos mais competitivos.

O quociente definitivo de 2026 só será conhecido após a apuração dos votos válidos, pois depende da participação do eleitorado e da exclusão de votos brancos e nulos. Até lá, médias passadas servem como parâmetro, não promessa. Na urna, o voto é dado a um nome ou legenda; na totalização, ele participa de uma engenharia coletiva. É nessa combinação que poucos milhares — e às vezes poucas centenas — podem mudar quem representará Goiás em Goiânia e Brasília.

Pesquisa