Antes de começar o filme, em uma avaliação prévia, todos os espectadores da adaptação de Christopher Nolan pareciam tomar fôlego para as três horas de filme. Após o mergulho exigido neste universo milenar e após as três horas de filme, a sensação, pelo menos a minha particular sensação, é de que ainda havia fôlego sobrando.
A Odisseia, novo filme de Christopher Nolan, diretor que mais vezes ganhou carta branca de Hollywood nos últimos anos, é grandiosa não somente na complexidade ao se filmar pela primeira vez um longa metragem de grande repercussão inteiramente em IMAX, como também ao escolher um elenco recheado de atores e atrizes que vivem seu auge.
A história, para aqueles que não sabem, gira em torno de Odisseu, o Rei de Ítaca, uma ilha grega no mar Jônico (trecho de águas oceânicas entre Itália e Grécia). Sua maior tarefa de vida começa quando ele decide deixar seu reino para derrubar Tróia, se utilizando, inclusive, do famoso Cavalo de Tróia para adentrar a murada da cidade.
Neste contexto, acompanhamos sua jornada de ida, passando pelo ataque à Tróia, as consequências do banho de sangue e sua tentativa de voltar para casa. Em paralelo, acompanhamos sua esposa Penélope (Anne Hathaway) que conduz o reino sob muita tensão, politicagem e expectativa do retorno do marido, assim como posteriormente vemos seu filho, Telêmaco, que busca respostas sobre o paradeiro do pai.
Montagem ainda é assinatura marcante
Parece muita coisa para um filme, certo? Pois é. Três horas é uma extensão muito bem medida para o tanto de história e personagens a serem apresentados e desenvolvidos.
Todas essas linhas temporais e diferentes pontos de vista, claro, não são apresentadas de forma linear no filme. Como já característico de Nolan, o diretor opta por exercitar sua capacidade de mexer e experimentar diferentes formas de trabalhar a não linearidade em seus filmes (haja visto, Amnésia, Dunkirk e o até mais recente Oppenheimer) são boas vítimas de suas invenções na mesa de montagem.

Vício de escrita de Nolan prejudica seus personagens e filmes
Entretanto, apesar de se beneficiar de algumas qualidades inatas a sua própria obra, Nolan também não parece disposto a corrigir um vício de escrita, se assim posso chamar, que parece piorar a cada ano que passa. Falo especificamente sobre a sua incapacidade de explicar a trama ou plano de um personagem sem optar a todo momento para um dialogo expositivo – aquele tipo de fala do personagem que só existe para explicar o que está acontecendo no momento.
Esse detalhe inoportuno de quase todos os seus filmes é o verdadeiro responsável por, muitas das vezes, tirar a audiência do envolvimento narrativo e fazê-la se concentrar unicamente no que o roteirista precisa que ela entenda, urgentemente. É como se o roteiro fosse incapaz de aplicar a regra mais básica de qualquer manual de roteiro já escrito: Show, don’t tell. Ou seja, mostre algo para sua audiência, não necessariamente gaste nosso tempo explicando todo o manequeismo do personagens com vários minutos e saliva insuportáveis.
É claro que abordo isso tudo para dizer que Odisseia também sofre disso, mas é o menos afetado dos últimos anos e acredito que seja porque o texto do qual o filme é baseado já é muito auto expositivo também. Em parcial desconhecimento da obra original de Homero, posso dizer apenas que pelos trechos que li Odisseu e seus pares expõem frequentemente sentimentos e intenções de forma que, traduzidas para tela, há de imaginar que configurariam como um diálogo expositivo. Então, neste quesito, há de se fazer vista grossa e entender.

Filme recheado de cenas épicas e marcantes
É impossível passar por uma avaliação sem dar destaque a momentos como o encontro com Cyclope e a ancoragem na ilha da bruxa Circe. Em ambos trechos, Nolan se comporta como um diretor de filme de terror e, com ajuda de um time técnico magistral na fotografia e mixagem de som, cria sequências extremamente tensas.
Estes trechos, inclusive, não apenas adicionam mais camadas a história, como de alguma forma servem de hiato a tensão política e falatórios filosóficos que poderiam deixar o longa moroso.

O calcanhar de Aquiles de Nolan
Porém, para ficar me ater ao tema principal, o calcanhar de Aquiles de Nolan ainda são as personagens femininas. Com um elenco recheado de estrelas femininas – Anne Hathaway, Zendaya, Charlize Theron, Lupita nyong’o e, entre outras, Samantha Morton – a história ainda sofre por oportunizar desfechos as personagens femininas apenas através de ações dos protagonistas masculinos.
Quem foge mais a essa regra é Circe, magistralmente interpretada por Samantha Morton (The Walking Dead), mas pelos motivos errados. Entretanto, o filme apresenta uma Circe assustada, reagindo à presença dos homens como alguém acuada, essa dinâmica praticamente desaparece. A personagem deixa de ser uma ameaça que Ulisses precisa superar para se tornar uma vítima da situação; com isso, uma das figuras femininas mais poderosas da jornada perde justamente aquilo que a torna tão fascinante: controle, perigo e autonomia. Este trecho da história se torna unicamente interessante pela forma como Nolan opta por criar uma sequência de cenas aterrorizantes e pelo brilho próprio da atriz.
Zendaya, mesmo interpretando a famosa deusa Atena, se resume a uma personagem com poucas linhas de fala. Sua presença é mais física, reduzida a um reflexo de arrependimento de Odisseu.
Penélope, um dos principais nomes da história, brilha sob a luz do estrelismo de Hathaway principalmente. Mas a personagem não tem o brilhantismo característico da obra original – isso por quê? Escolha criativa ou dificuldade de trabalhar personagens femininas.
O sudário, o concurso do arco e até o teste da cama de oliveira, supostamente deveriam mostrar uma mulher que não permanece vinte anos simplesmente esperando pelo marido. Ela manipula o tempo, engana os pretendentes e cria as condições para descobrir se aquele homem que retorna realmente é Ulisses. O concurso, especialmente, não significa oferecer a si mesma como prêmio, mas estabelecer uma prova que exige uma habilidade que ela sabe ser praticamente exclusiva do marido. O filme preserva alguns desses acontecimentos e até lhe oferece frases de efeito, mas esvazia a inteligência por trás deles. Seus movimentos parecem tentativas desesperadas de ganhar tempo, quando deveriam revelar que Penélope é uma das poucas personagens da epopeia capazes de jogar o mesmo jogo de astúcia de Ulisses.
Curiosamente, o filme faz algo semelhante com o próprio protagonista. Ulisses, muito bem representado por Matt Damon por sinal, deveria deixar Troia convencido demais da própria inteligência, e sua arrogância é justamente aquilo que transforma uma viagem de volta para casa em uma sucessão de desastres. Ele provoca forças que deveria respeitar, toma decisões ruins e participa ativamente da construção da própria tragédia. Ao substituir esse orgulho pela culpa de ter violado as leis de hospitalidade de Zeus, a adaptação muda a natureza do personagem: a culpa permite que Ulisses seja apresentado como alguém sofrendo pelas consequências, enquanto a arrogância deixa claro que ele também é responsável por produzi-las.
Com isso em mente, cabe a audiência e a quem leu a obra, concluir se gosta desse tipo de visão do Nolan. Eu, particularmente, considero reduzida. Para aqueles que pouco sabem sobre mitologia grega ou sobre a Odisseia em si, problemas como estes citados ainda podem se fazer presentes, mas com certeza as reviravoltas da trajetória de Odisseu causarão alvoroço positivo.
Saldo final e comparação com a obra de Nolan
Para aqueles que gostam de comparações, posto ao lado de seus outros filmes, Nolan não parece ter evoluído tanto aqui, parece estar em processo de.
De qualquer forma, A Odisseia merece audiência e suas três horas de investimento. Apesar dos pontos considerados, o filme é o maior épico de cinema da última década. Não há como discutir. E isso diz muito sobre o que Hollywood vem produzindo. Além disso, importante dizer que não aproveitar o filme na maior e melhor sala de cinema possível é perder uma oportunidade que talvez demore a se apresentar no futuro recente.











