Em vez de aprofundar propostas para um eventual novo mandato, Lula e Flávio passaram boa parte do tempo exigindo explicações um do outro. O presidente questionou a atuação do adversário em uma disputa envolvendo uma ilha e o financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro. O senador respondeu com acusações sobre presentes recebidos por Lula, imóveis ligados à família do petista e sigilos de despesas presidenciais.
O tom do confronto ficou evidente quando Lula desafiou Flávio a apresentar documentos bancários à Justiça. “Vamos lá, eu e você abrir as contas, minha e sua, para a gente ver quem é quem”, afirmou. O senador, por sua vez, respondeu cobrando transparência sobre os gastos presidenciais: “Lula, abre o cartão. Mostra quanto é que você gastou com esse cartão nessas viagens”.
Disputa por ilha abre confronto
O embate começou quando Lula mencionou uma denúncia envolvendo uma ilha que, segundo sua declaração, teria sido adquirida por pessoas ligadas ao jogador Richarlison, da seleção brasileira. O presidente afirmou que um advogado próximo a Flávio teria conseguido regularizar a propriedade em poucos dias, enquanto os interessados anteriores aguardavam uma resposta havia mais de um ano.
“Eu queria que me explicasse como é que vocês tomaram a ilha do Richarlison”, questionou Lula, que também cobrou explicações sobre a indicação de um militar para o órgão responsável pela regularização.
Flávio negou envolvimento e afirmou que a disputa já havia sido resolvida judicialmente. “Essa ilha nunca foi do Richarlison”, declarou. O senador também negou ter interferido na decisão administrativa e disse que o advogado mencionado pelo presidente era seu amigo, mas não seu sócio.
Lula insistiu na cobrança e afirmou que o governo poderia analisar o caso novamente. Flávio manteve a negativa e acusou o adversário de apresentar uma versão incorreta dos acontecimentos.
Banco Master e uísque de R$ 500 mil
A discussão passou então ao Banco Master e às relações dos candidatos com Daniel Vorcaro. Flávio questionou Lula sobre uma garrafa de uísque supostamente recebida do banqueiro, avaliada em aproximadamente R$ 500 mil.
Mensagens atribuídas a Vorcaro, divulgadas pela imprensa, indicam que o empresário teria providenciado a compra de uma bebida rara para presentear o presidente. A existência das mensagens não comprova, por si só, qualquer contrapartida ilícita.
“Qual foi a contrapartida que você prestou para quem te deu esse uísque?”, perguntou Flávio. Em outro momento, o senador calculou que cada dose da bebida poderia custar R$ 50 mil, comparando o valor ao benefício recebido por famílias atendidas pelo Bolsa Família.
Lula reagiu associando o adversário ao banqueiro. “Esse cara corrompeu a República. E ele é um deles”, afirmou, em referência a Vorcaro e a Flávio. O presidente também questionou o financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro e cobrou esclarecimentos sobre os valores envolvidos na produção.
Flávio respondeu que o investimento teria sido feito em uma produção privada, sem utilização da Lei Rouanet ou de dinheiro público. Segundo ele, um relatório da Polícia Federal não teria identificado contrapartidas relacionadas ao exercício de seu mandato.
O senador ainda acusou pessoas ligadas a Lula de receber recursos para a produção de um filme sobre o presidente e mencionou suspeitas de investimentos de fundos de pensão no Banco Master. As declarações foram apresentadas durante o debate, sem demonstração documental que permitisse comprovar todas as acusações naquele momento.
Patrimônio, familiares e desafio para abrir contas
Na parte final, o confronto se concentrou nas declarações patrimoniais dos candidatos e de seus familiares.
Flávio mencionou um imóvel em São Paulo supostamente utilizado como endereço por um dos filhos de Lula. O senador associou a propriedade a Jonas Suassuna, nome citado anteriormente nas investigações sobre o sítio de Atibaia, e questionou a origem dos recursos da família presidencial.
Lula respondeu que documentos seus e de familiares haviam sido apresentados à Justiça Eleitoral. O presidente também desafiou Flávio a divulgar informações financeiras e perguntou como o senador teria conseguido adquirir um imóvel avaliado em R$ 10 milhões.
“Eu trabalho como advogado, eu sou empresário há 24 anos”, respondeu Flávio, que negou esconder patrimônio.
O senador voltou a mencionar os processos envolvendo o sítio de Atibaia e o tríplex do Guarujá. As condenações de Lula relacionadas à Operação Lava Jato, entretanto, foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal, não podendo ser tratadas como condenações penais atualmente válidas.
Lula também acusou o adversário de repetir informações falsas. “Ele mente, e mente, e mente, e mente, repete a mentira”, declarou.
Flávio encerrou sua participação insistindo na divulgação de despesas e registros oficiais do governo federal. O candidato cobrou informações sobre o cartão corporativo da Presidência, entradas no Palácio da Alvorada e viagens oficiais.
Antes do início das perguntas de tema livre, Flávio havia utilizado um direito de resposta concedido pela organização para apresentar propostas de proteção a mulheres vítimas de violência. Defendeu o monitoramento eletrônico de agressores e medidas de autonomia financeira para as vítimas. O assunto, porém, não teve continuidade no confronto seguinte.
A escolha dos dois candidatos por concentrar o último bloco em acusações pessoais contrastou com as etapas anteriores do debate, nas quais haviam discutido infraestrutura, economia, políticas sociais, saúde e educação. A dois dias do segundo turno, marcado para domingo (25), o encerramento do confronto foi dedicado principalmente a questionamentos sobre corrupção e transparência, sem que as acusações recíprocas fossem esclarecidas de forma conclusiva durante a transmissão.












