De volta à Câmara dos Deputados a partir de fevereiro, o ex-deputado federal Fábio Sousa chega ao novo mandato com experiência parlamentar e uma agenda de desafios para o PL em Goiás e no Congresso Nacional. Bispo da Igreja Fonte da Vida, ele fala sobre a crise interna do partido, a disputa por espaço entre o senador Wilder Morais e o deputado Gustavo Gayer, a atuação da oposição ao governo Lula e os planos da legenda para as eleições de 2028. Na entrevista à Tribuna do Planalto, também defende que o PL retribua o apoio recebido de Daniel Vilela durante a campanha presidencial e participe da base de sustentação do governo estadual.
TRIBUNA DO PLANALTO
Qual a expectativa do senhor em relação a esse retorno à Câmara dos Deputados a partir de fevereiro do ano que vem?
FÁBIO DE SOUSA
Não foi uma eleição fácil, foi uma eleição, no meu caso, extremamente difícil. A prova é eu ter sido eleito na última colocação. Disputar eleição com pessoas com muita condição financeira ou muita estrutura, não é fácil, ainda mais alguém que está ressurgindo, politicamente falando. Mas graças a Deus e às pessoas que acreditaram, a gente volta. Eu não sou neófito, não comecei agora. Eu já tenho experiência de ter sido vereador, de ter sido duas vezes deputado estadual, de já ter sido deputado federal. Desta vez eu chego com uma bagagem, com uma experiência não só de vida, por estar um pouco mais velho, mas também experiência parlamentar. E é essa experiência que eu vou colocar à disposição do meu Estado, da ala que me elegeu, que é a direita brasileira.
Durante a campanha, o senhor disse que a legenda não honrou com o compromisso de cobrir as despesas. Foi um fator que prejudicou e contribuiu para essa posição do senhor no final das contas?
Dizer que não é necessário recurso na campanha é conversa. Você precisa de dinheiro, não tem jeito. O que aconteceu? O partido nacional tinha conversado comigo, o pessoal me conhece, tenho bons amigos lá, que eu seria tratado como um deputado federal pelo fato de ser ex-deputado federal. Eu teria aquilo que os deputados federais tiveram. Fiz a programação baseada nisso, e quando fiquei sabendo que eu não teria esse recurso, eu tive que saltar. A necessidade faz o sapo pular. Eu gravei um vídeo na qual eu justificava aos meus amigos que iam receber esse vídeo, o motivo de estar pedindo contribuição para campanha. Porque a pessoa vai ouvir eu pedindo contribuição, a primeira coisa que ele vai pensar é o seguinte: “Não, o PL tem tanto dinheiro.” Eu tinha que justificar para esse meu amigo que ia receber a minha ligação: “Na verdade, o partido não está ajudando naquilo que prometeu, então eu preciso da sua ajuda”. Eu não esperava, e falo com toda a minha sinceridade, a repercussão que teve, porque era para ser um vídeo interno entre amigos. Alguém deve ter mandado para frente e pronto. No frigir dos ovos, depois da eleição, óbvio, vendo que eu ganhei as eleições, o partido me procurou. Eu estava cheio de compromissos dentro da legislação, dentro do que a lei permite, e me ajudou um pouco. Não foi o tanto que ajudou o Victor Hugo, o Fred (Rodrigues), está longe de ser o tanto que ajudou a Magda Mofatto, que foi a única que recebeu teto aqui em Goiás. Mas foi uma ajuda, entrou o que eu precisava para fechar minhas contas.
O senhor se sentiu desprestigiado diante da distribuição?
Como eu conheço como funciona o jogo, não posso dizer isso. É ruim quando você assume o compromisso e não cumpre, ninguém é obrigado a assumir compromisso. Mas eu sei como é que funciona, partido sempre foi assim, tem gente mais beneficiada que outros. Para mim é um fato superado, bola para frente, agora é fazer um bom mandato. Eu não tenho problema com isso mais.
O PL elegeu uma forte bancada tanto na Câmara dos Deputados como no Senado Federal, mas não levou à Presidência da República. Como a oposição será construída diante desse novo cenário?
Nós vamos ter uma oposição extremamente aguerrida, fortalecida e com estrutura. Segundo o regimento interno, pela quantidade de deputados que o PL elegeu, ele tem direito até às três primeiras escolhas de comissões, independente de quem for o presidente da Câmara. Então o PL tem condição de escolher a CCJ e a Comissão de Fiscalização, sem dever isso para ninguém. São as duas comissões mais importantes da Casa. Tudo, tudo do governo passa lá. E o PL pode indicar o relator ou o presidente da Comissão do Orçamento. É impossível desprezar a força do PL no Congresso Nacional nos próximos quatro anos. Eu não sou ingênuo, sei que tem gente que foi eleito falando que era de direita e no final das contas não é. E eu sei também que o governo Lula hoje governa com o STF, ele não governa com o Congresso, não usa o que a Constituição manda, que é usar os deputados e senadores para aprovar leis, para andar o processo. Ele vai atrás do STF, onde tem parceiros. Mas mesmo assim me dá esperança, a gente tem que se apegar à esperança. Tem um versículo da Bíblia que fala que a gente tem que trazer à memória aquilo que nos traz esperança, e o que dá esperança é o seguinte: se três, quatro deputadas do PT fazem um barulhão e imagina os 120 do PL, uns 50 que acho que vamos ter mais aguerridos. O PL será extremamente importante no sentido de impedir aquilo que veio para destruir a sociedade brasileira.
Há espaço para a convergência em um assunto ou outro ou uma oposição tão fortalecida impede a governabilidade?
Eu sou contra a oposição irresponsável. A oposição tem que ser produtiva, proativa, e se houver alguma coisa boa, é lógico que temos que analisar e votar favorável. É difícil acreditar que esse governo traga alguma coisa boa. Não trouxe nos últimos quatro anos, não vai ser agora que vai trazer. Pelo contrário, os últimos quatro anos foram horrorosos economicamente falando, no sentido de empobrecer a população, de enfraquecer a nossa economia, de enfraquecer a própria República e a própria democracia brasileira.
Partidos do Centrão já estariam começando a dialogar com o governo federal, que busca anular a oposição do PL. O Centrão pode anular a oposição do Partido Liberal?
O mantra do Centrão é: “É governo, sou a favor”. Não interessa quem fosse o presidente, o Centrão estaria do lado, eles querem ter participação desse governo. O que me dá esperança é que o centrão diminuiu. Ainda é a maior força no Congresso, mas diminuiu. Damares Alves é do Republicanos, um partido do Centrão, do Hugo Motta. Mas é uma senadora à direita, que não vai fazer aliança com esse governo. Temos outros casos de deputados eleitos no União Brasil, PP, Republicanos, MDB que são de direita de verdade, que têm um nome ou que perderam a vergonha. Porque antigamente era vergonhoso ser de direita. Perderam a vergonha de ser de direita. É isso que traz esperança para gente hoje.
A bancada evangélica diminuiu na última eleição e uma das explicações seria que pastores e bispos que não aderiram ao bolsonarismo foram deixados de lado. Como o senhor vê a redução da bancada evangélica?
Eu nunca participei ativamente da bancada evangélica, seja em qualquer Casa Legislativa em que eu participei. Eu não sou contra, acho que elas devem existir como qualquer outra frente parlamentar, mas eu mesmo nunca fui um participante ativo, porque quando eu estou no Congresso Nacional, eu não sou deputado de nicho, eu sou deputado do meu estado. E como deputado do meu estado, eu tenho que representar evangélicos e não evangélicos. Essa é minha intenção. Dito isso, eu acho que houve um fenômeno nessa eleição, em poucos casos, de migração de voto de quem tinha bandeira evangélica exclusiva, para conservador. O próprio evangélico se vê representado no conservadorismo, em quem defende a bandeira da direita. Por outro lado, tem alguns candidatos que por mais que sejam representantes do segmento evangélico, não abraçaram de uma forma firme, pelo menos na visão do eleitor, aquelas bandeiras que eles gostariam que fossem defendidos. Talvez tenha sido isso que trouxe a migração dos votos. Mas eu repito, não foi do jeito que estão dizendo. Eu aposto que deve ter em torno de uns 100 deputados evangélicos ou mais, e pelo fato deles estarem em vários partidos, acaba que você não consegue identificá-los.
Como é que o senhor viu a saída do senador Flávio Bolsonaro do país em direção aos Estados Unidos?
Essa eleição teve muita coisa inédita, coisas que são até difíceis de explicar. Mas se eu for tentar explicar, eu vou dizer que houve a maior compra de votos legalizada da história por parte do Lula. Ele usou e abusou de programas sociais, de promessas, inclusive de distribuição de dinheiro, que começaram no exercício do mandato, ferindo legislações vigentes, a legislação eleitoral e que ninguém deu a mínima para isso. Por mais que o PL e outros partidos entraram com ações, a Justiça não deu muita moral para isso, não. Teve desde aumento de Bolsa Família, pagamento de Bolsa Família antes da hora, promessas chegando no Whatsapp dizendo que o MEI vai receber R$ 5 mil, um verdadeiro estelionato eleitoral, pelo simples fato do Brasil estar quebrado. Nós temos uma dívida de R$ 11 trilhões, ou seja, são inexequíveis essas promessas. Soma-se que logo depois do findar das eleições, essa surpresa não foi apontada por nenhum instituto de pesquisa no Brasil, o ministro da Suprema Corte, que até ontem era advogado pessoal do Lula e do partido que venceu as eleições, tomou a decisão de estender as eleições. E ainda, o advogado que assinou a petição é ex-sócio dele. Só por isso ele já devia ter se declarado a sua suspeição.
Somou-se tudo isso, sete minutos depois do resultado eleitoral, o juiz que é conhecido por ser um verdadeiro carrasco da família (Bolsonaro) determina a apreensão do passaporte do candidato que teve quase 60 milhões de votos. É compreensível ele querer ir para os Estados Unidos, é compreensível os Estados Unidos ajudarem nessa saída dele do Brasil. O pai foi preso por esse, que é um inimigo declarado. O que passou na cabeça do Flávio, penso eu: “Meu pai que enfrentou um julgamento totalmente injusto pegou 27 anos de cadeia, meu irmão foi embora para não passar por isso. Vou embora, porque lá eu dou conta de de ter fala, ter voz. Meu pai está há um ano sem poder mandar uma carta.” É um absurdo isso, todo preso pode escrever uma carta. Ele está incomunicável. Acho que isso tudo pesou. Eu não gostei da carta que Flávio escreveu. Eu achei desnecessária, mas o resto é totalmente compreensível.
Por que não gostou da carta?
O eleito foi Lula. Ele tem que denunciar que não houve equiparação de armas no processo, que houve ilegalidades nas ações do Lula como candidato, que tem um juiz que tem muito poder, um dos homem mais poderoso do Brasil, que manda prender quem ele não gosta. É isso que ele tem que falar lá fora, Ele tem que usar os quase 60 milhões de votos. O que aconteceu com ele 7, o juiz mandou apreender o passaporte dele. O Lula, no debate, ameaçou ele de prisão. Lula disse: “Você vai perder eleição e vai responder processo.” Ai ele recebe informações do governo americano, porque o governo americano que ajudou ele a sair daqui, e pesa sobre a cabeça dele o fato de que ele já começa o julgamento condenado. Não tem uma pessoa no Brasil que, ao começar o julgamento do Jair Bolsonaro, não tinha certeza absoluta que ele ia ser condenado. Para mim é absurdo você ir para o julgamento sabendo que o juiz vai te condenar.
Diante desse cenário que o senhor desenhou,o país vai passar os próximos quatro anos à deriva?
Nós vamos ter que ter responsabilidade, isso é uma coisa que eu proponho ao PL. Somos oposição ferrenha, mas responsável, porque o Brasil está quebrado. O TCU soltou uma nota, dizendo que não tem dinheiro para pagar aposentadoria. Estamos falando de juro galopante, de recorde de endividamento das famílias brasileiras, a situação econômica do Brasil degringolou como nunca, estamos à beira de recessão para depressão. Temos que ser responsáveis, porque no meio dessa história, dessa disputa política, tem 211 milhões de brasileiros.
Como é que o senhor vê essa queda de braço envolvendo o deputado federal Gustavo Gayer, senador eleito, e o presidente do partido, senador Wilder Morais, escancarando a crise interna do PL?
Briga de cachorro grande é difícil cachorro pequeno se intrometer. Eu sou favorável a uma renovação partidária, nada contra o Wilder, tenho o maior respeito pelo Wilder, é uma liderança política importante e uma liderança empresarial. Mas ele está na liderança do partido há quatro anos. Acho extremamente salutar haver uma reoxigenação no partido. E tem do outro lado o senador Gayer, que vem com uma força expressiva de votos, que tem uma inserção no PL nacional, que pode fazer essa necessária renovação do partido. O que esperamos é que os dois se acertem, conversem, até porque vão ser colegas de bancada por quatro anos, sentam na mesma fila lá no Senado. Até pelo bem do PL, eles vão ter que conversar. Eu não sou favorável ao caciquismo, sei que o que vinga no Brasil é o caciquismo, o partido tem um cacique e esse cacique se perpetua no poder. Eu acho que renovar a liderança é sempre muito bom, é sempre positivo para o partido
O Gayer seria um bom nome para conduzir o partido nos próximos anos?
O PL tem quatro deputados federais, cinco deputados estaduais, fora os dois senadores, prefeitos importantes como Márcio Correa, de Anápolis, o que não faltam são quadros para ocupar esse cargo. O Gayer, senador mais votado, dá uma credencial maior para ele. E parece-me que o que os filiados querem é isso mesmo. Eles olham para o Gayer como o próximo líder do partido. Querendo ou não, ele é o líder do partido, pode não ser o presidente, mas ele é o líder do partido. Caso ele não queira, eu ainda sou favorável a uma renovação.
O PL deve aderir à base do governador Daniel Vilela?
Essa é uma decisão que cabe muito mais aos deputados estaduais. A minha opinião pessoal é que o PL deveria ajudar o governador Daniel Vilela, porque ele deu uma sinalização para o PL nacional, sendo o primeiro governador a declarar voto, fazendo a primeira reunião para o nosso candidato. Seria interessante nós retribuirmos, fazendo isso. O que depender do Fábio, eu vou ajudar, eu quero essa situação. Eu tenho uma amizade com o Daniel, fui deputado estadual com ele, fui deputado federal com ele, estou à inteira disposição de ajudá-lo naquilo que eu puder.
O PL foi o principal adversário do prefeito de Santo Mabel na eleição para prefeito de Goiânia. Como vê os rumos do partido para 2028?
O PL, como o partido mais forte do Brasil, não pode deixar de ter candidato em nenhuma capital do Brasil. E o que não falta são nomes para serem ofertados. Não pode apresentar um candidato sem um projeto, sem um programa de governo, só para falar de ideologias políticas. É bom, é importante? Claro que é, mas precisa oferecer à população propostas que venham fazer a diferença na cidade. Defendo que o PL ajude o governador Daniel nos próximos quatro anos e que tenha candidato ao final desses quatro anos. E vai ser uma coisa muito tranquila, porque Daniel não é candidato à reeleição. Pelos mesmos motivos que defendo que tenha candidato a prefeito de Goiânia, pela força que o PL tem hoje. Partido do tamanho que é hoje o PL, diria até que irresponsabilidade não oferecer um candidato.
2028 já começou?
Para quem vive política, a eleição de 2028 começou dia 26 de novembro desse ano, mas a população não está atenta a isso, por isso que eu acho que essas discussões são muito iniciantes e precisam ainda de muito amadurecimento.
O PL é visto como um partido muito ideológico, e as pautas relacionadas à gestão parecem ficar em segundo plano. Isso tem que ser revisto dentro do partido?
Acho que é falta de comunicação, porque nós temos quadros muito preparados, não só como possíveis candidatos, mas também para fazer compor um governo. O que falta é passar à população: “Olha, nós somos de direita, somos conservadores, somos pró-família, somos em pró-vida, e por sermos em prol da vida, vamos oferecer uma UPA extremamente aparelhada e com condições de atender os seus familiares. Porque nós somos a favor da família que vamos dar uma educação de qualidade pros seus filhos. É preciso passar para a população que somos o partido da ideologia da direita, mas que até por isso, temos como resolver os problemas que o munícipe precisa.














