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Torcida organizada ou eleitorado? O desafio de Goiás em superar a polarização em 2026


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 16/09/2025 - 10:40

Foto: Reuters / S. Moraes

A política brasileira há muito deixou de ser um espaço de articulação de ideias, embates programáticos e busca por consensos. Em seu lugar, consolidou-se um ambiente carregado de emoções extremadas, onde a lógica da política institucional cedeu espaço à lógica da paixão cega, tal qual vemos nos estádios de futebol. O fenômeno é conhecido pelos cientistas políticos como polarização afetiva, mas para nós, brasileiros, talvez seja mais apropriado chamá-lo de torcida organizada.

Esse processo tem sido especialmente evidente desde a ascensão de Jair Bolsonaro e da extrema direita, que, ao romper com a tradição programática dos partidos e com os ritos institucionais, impulsionaram um tipo de engajamento político baseado em antagonismos absolutos. Na prática, o que temos hoje é um Brasil dividido entre dois campos rígidos: “nós” contra “eles”, direita contra esquerda, bolsonaristas contra lulistas. O multipartidarismo, embora formalmente existente, virou um ornamento institucional — a realidade política vivida pelos cidadãos brasileiros é a de um bipartidarismo emocional.

Esse cenário remete a tempos sombrios da nossa história. Durante o regime militar, o país também era dividido artificialmente entre dois campos: Arena e MDB. Agora, o padrão se repete com outros nomes e dinâmicas, mas com a mesma função: eliminar a pluralidade e reduzir a política a um campo binário. O centro político, por sua vez, existe mais como uma abstração técnica do que como força social viva. Ainda busca um eleitor que lhe dê sentido.

Mas o que tudo isso tem a ver com Goiás e as eleições de 2026? A resposta: tudo.

Goiás é, indiscutivelmente, um dos estados mais bolsonaristas do Brasil. Em 2022, o então presidente obteve vitórias expressivas, mesmo diante de uma crise institucional e econômica. O voto bolsonarista goiano foi ruidoso, engajado, fervoroso. O lulismo, por sua vez, teve desempenho modesto, mas relevante e silencioso — uma resistência enraizada em setores populares, mas sem grandes lideranças locais.

Essa configuração cria um paradoxo interessante: enquanto a direita populista domina o imaginário eleitoral em Goiás, a esquerda persiste, mesmo sem aparato, sem força partidária estruturada e com forte rejeição nas camadas médias urbanas. Mais ainda: muitos políticos goianos, historicamente neutros ou de centro, aderiram ao bolsonarismo por conveniência eleitoral, numa espécie de mimetismo ideológico que revela mais cálculo do que convicção.

É dentro desse ambiente de extremos que se desenha o desafio para 2026. Dentre os partidos que hoje se preparam para disputar o Governo de Goiás, PT e PL não têm como fugir da polarização — afinal, eles são a própria polarização. Ambos casam seus projetos regionais com as diretrizes nacionais de Lula e Bolsonaro, e em Goiás não é diferente. Já partidos como PSDB e MDB, apesar de suas trajetórias diversas, têm dado sinais de querer jogar outro jogo: mais pragmático, mais focado nas realidades do estado e menos refém da disputa ideológica nacional.

Resta observar se seus gestos, palavras e ações realmente indicarão um caminho alternativo ao duelo binário, ou se cederão, mais uma vez, à tentação de embarcar na retórica fácil da polarização. Caso escolham o caminho estadualista, precisarão tratar o ambiente federal com a institucionalidade que se espera de quem governa — olhando para Brasília com os olhos dos goianos, e não com os olhos de militante de torcida.

Não podemos esquecer que o atual governador, Ronaldo Caiado, foi eleito em 2018 e reeleito em 2022 em pleno ambiente de extrema polarização. E surfou com habilidade a onda da direita. Afinal, Caiado é um dos precursores desse movimento político no país: foi idealizador da União Democrática Ruralista (UDR) e, ainda em 1989, disputou a presidência da República com um discurso incisivo e combativo contra o PT — algo que manteve durante toda sua carreira parlamentar até chegar ao governo estadual. Sua trajetória é emblemática de como a direita goiana tem raízes profundas e de longa data.

No entanto, por mais influente que seja a figura de Caiado, ou as marcas de Lula e Bolsonaro, Goiás precisa fazer uma escolha que vá além de paixões partidárias. O debate meramente ideológico empobrece a política. Quando a campanha se limita a palavras de ordem, batalhas conspiratórias e alucinações coletivas, perde-se a chance de discutir o que realmente importa: saúde, educação, segurança pública, infraestrutura, sustentabilidade, orçamento, geração de empregos.

A pergunta que se impõe, portanto, é se as eleições de 2026 em Goiás repetirão o script de 2018 e 2022 — com os eleitores escolhendo candidatos por seu alinhamento a Lula ou Bolsonaro — ou se haverá espaço para uma discussão racional, programática e técnica.

Política é feita de adversários, não de inimigos. O que nos trouxe até aqui foi a degradação da política como campo de construção coletiva. A substituição do debate técnico pelo slogan ideológico. A troca do diálogo pela guerra de narrativas. O Brasil — e Goiás — não aguenta mais quatro anos de política feita com fígado e raiva.

O eleitor goiano precisa se fazer algumas perguntas fundamentais:
O candidato que apoio tem um plano viável para meu estado? Está preparado para governar ou apenas para lacrar nas redes sociais? Qual sua proposta para os problemas reais da população?

Não se trata de abandonar convicções ideológicas, mas de reconhecer que a vida real não cabe em hashtags. Que o goiano quer, antes de tudo, um estado eficiente, justo, com oportunidades e serviços públicos de qualidade — e isso não se alcança com gritos de guerra, mas com gestão, diálogo e responsabilidade.

Depois de anos de turbulência política, escândalos, instabilidade institucional e deterioração do debate público, Goiás tem a chance de dar um exemplo ao Brasil. Não se trata de renegar a polarização — ela existe, está aí e não vai desaparecer de uma hora para outra. Mas é possível enfrentá-la com serenidade, compromisso com a verdade e foco no que realmente importa: a vida das pessoas.

A eleição de 2026 pode ser um novo capítulo — ou apenas o replay de um filme ruim que já vimos demais. A escolha é coletiva.

Que a torcida dê lugar ao eleitorado. E que Goiás não perca mais uma oportunidade de fazer política com grandeza.

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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