Presidente da Associação Comercial e Industrial de Goiás (Acieg), Rubens Fileti avalia que a transição para o novo sistema tributário e o encerramento dos incentivos fiscais criarão um ambiente de forte instabilidade para as empresas, sobretudo as micro e pequenas. Em entrevista à Tribuna do Planalto, ele fala sobre os desafios da reforma tributária, o impacto do chamado “Custo Brasil”, a falta de mão de obra qualificada, o papel da inteligência artificial e as perspectivas econômicas e políticas para 2026. Fileti também comenta a pré-candidatura de Ronaldo Caiado à Presidência e o peso político de Jair Bolsonaro nas próximas eleições.
Andréia Bahia
Lucas de Godoi
TRIBUNA DO PLANALTO
A implementação da reforma tributária terá início a partir de 2026 e será regulamentada totalmente a partir de 2033. Durante esse período, haverá aquela transição para a unificação dos tributos e nasce o IVA, o CBS e o IBS. As empresas estão preparadas para conviver com dois sistemas tributários até 2032?
RUBENS FILETI
Quando se fala das empresas, temos que dividir as empresas de pequeno porte – micro e pequeno porte -, as de médio e grande. Principalmente as microempresas não têm condição nenhuma de ter dois sistemas simultâneos trabalhando nessa complexidade, e as empresas de médio e grande, apesar de ter mais robustez e estrutura, é uma outra variável que vai complicar o dia a dia dos empresários, principalmente a área tributária interna e externa, porque tem hoje sistemas, que são os softwares GRP, que são os sistemas integrados dentro das empresas, que já fazem o cálculo desses tributos. E com essa nova tributação, isso com certeza vai elevar o custo para as empresas e, consequentemente, vai ter um outro grande problema: quem que vai fazer a manutenção de tudo isso? As microempresas vão ter um problema ainda maior. E tem outra variável: será que isso vai ser compensatório de acordo com o Simples Nacional? O Simples vai ficar simples ou vai ter algum tipo de incidência que ainda não foi calculada? São muitos pontos de
Como as entidades têm atuado para responder essas perguntas e mitigar esses problemas?
No nosso caso, da associação comercial, estamos pegando alguns segmentos específicos – tivemos na semana passada o segmento da área de saúde e educação – e fizemos um seminário aberto para os nossos associados e os empresários em geral, para que eles possam entender um pouco mais do que está por vir. Estamos vindo com muita comunicação e muito esclarecimento em cima daquilo que já se tem. Esse é um dos pontos que estamos levando para os nossos associados. E o outro são as interlocuções que estamos fazendo com a nossa bancada federal para que não entre nenhum texto que seja prejudicial ao dia a dia dos empresários. Uma parte é de muita articulação com Brasília e a outra parte é de esclarecimento e apoio para os micros e pequenos empresários, principalmente.
As empresas goianas já estão se preparando para o fim dos incentivos fiscais em 2032?
Hoje temos esse grande problema, que é o final dos incentivos fiscais, que foram tão importantes para o nosso estado, que criaram uma ferramenta de competitividade, fazendo com que pudéssemos entrar no jogo comercial com outros estados, porque era uma diferença brutal na relação comercial de compra e venda. Para os próximos anos, temos um grande problema, que é essa transição e essa reposição que o governo fala que vai ter ao longo do fim de cada programa de incentivo, mas as empresas vêm se preparando, criando alternativas e vendo o que vai acontecer. Temos um cenário de incerteza muito grande ainda pela frente com o fim desses incentivos fiscais.
O chamado Custo-Brasil, que inclui burocracia complexa, carga tributária excessiva, infraestrutura precária, energia cara e insegurança jurídica, impõe às empresas um ônus estimado em R$ 1,7 trilhão por ano e torna o produto nacional mais caro e com menos condições de disputar espaço nos mercados internacionais. Passam-se governos e anos e nunca se conseguiu reduzir esse custo. Por quê?
Vai piorar, né? Com essa complexidade tributária. Eu costumo falar que isso vai potencializar ainda o manicômio tributário no Brasil e isso vai chegar num ponto que (a empresa) vai ter que fazer uma contratação de empresas especializadas, tanto por parte do setor privado, quanto do setor público. E a complexidade e a burocracia que vai se ter até que efetivamente o IVA esteja funcionando, a tributação de um imposto único esteja sendo aplicada para as empresas, esse custo Brasil vai ser muito elevado. Nós temos hoje muitas burocracias que acontecem tanto nos municípios, nos estados e no governo federal, que isso vem em cadeia. Aqui tem, por exemplo, a Junta Comercial do Estado, que veio desmistificar e simplificar todos os processos para a abertura das empresas. Nesse ponto, para se ter uma ideia, a integração entre o estado, o município e os órgãos de regulação já está funcionando quase na sua totalidade de todos os municípios. Imagine no Brasil inteiro um município que não tem essa integração com os estados e nem com os entes federais. Isso causa uma complexidade, principalmente na abertura de empresas: uma pessoa solicita um número oficial e a prefeitura não consegue mandar automaticamente pelo site; a pessoa tem que ir até um órgão, mas o órgão depende do corpo de bombeiro, que não está integrado com o sistema. Todas essas tramitações acabam tendo uma complexidade muito grande e elevando ainda mais nosso custo Brasil. Eu acredito que ainda deva ter um problema nesse nosso pesado custo Brasil pelos próximos cinco anos de uma forma muito mais exponencial.
Outro problema que se tornou crônico no Brasil é a falta de mão de obra. Como resolver esse gargalo? A automação é um caminho?
Não só a automação, temos que cada vez mais investir na educação. Acho que não tem outro caminho a não ser o investimento em educação. Acho que é o principal pilar – não é a curto prazo que vamos ver os resultados – mas a educação é um dos principais pilares para que realmente tenhamos essa demanda atendida por todos. Antigamente, falava-se que havia um problema de posicionamento ou de reposicionamento do quadro de colaboradores das empresas, porque não havia mão de obra especializada. Hoje, não tem nenhum colaborador que queira trabalhar das 8h às 18h, independentemente de ele ter qualificação ou não. Hoje nós estamos procurando pessoas que estão interessadas e as empresas cada vez mais investindo em qualificação do seu próprio bolso para que seus empregados fiquem nessas empresas. Todas as entidades contribuem muito para isso, fazendo cursos de especialização, cursos de curta e de longa duração, como a Fieg, a Fecomércio e várias outras entidades vêm fazendo e distribuindo para a população de uma forma muito bacana nesse ponto de qualificação de mão de obra; o governo, por meio dos Cotecs, faz a sua parte também, mas é uma gota perto do oceano que todo mundo tem que fazer nesse momento. Mas se não começar na base, na educação, mostrar que realmente temos um sistema diferenciado na nossa educação, juntando a inteligência artificial e a automação dos processos, porque a nossa base tecnológica ainda é muito crua no Brasil em geral. Goiás vem se despontando em alguns aspectos, como a inteligência artificial, virando referência, mas se pegar o Brasil como um todo, estamos muito atrás de muitos países de terceiro mundo, em várias regiões. Isso acaba criando um desequilíbrio e uma migração de mão de obra de outros estados para aqueles que realmente precisam de uma mão de obra mais qualificada, como por exemplo, Goiás, que vem importando muita mão de obra de fora.
A utilização de inteligência artificial (IA) seria uma solução? Seria mais fácil treinar mão de obra com essa ferramenta?
Acho que ela vem complementar, a inteligência artificial não vem resolver todos os problemas. Na verdade, ela vem acelerar alguns posicionamentos e nós achamos que a IA é a solução para tudo. Ainda temos que acreditar na humanização dos processos, da relação entre os clientes, fazer um processo que tenha o fator humano como principal e aliado à inteligência artificial. E é lógico que a inteligência artificial bem adotada, bem planejada, bem programada, bem desenvolvida vem fazendo um papel de diferenciação na competitividade entre as empresas.
A inadimplência voltou a crescer no Brasil e atingiu, em setembro de 2025, o maior patamar da série histórica: 30,5% das famílias brasileiras tinham contas em atraso no mês de setembro, o maior índice desde o início da série, em 2010. Na avaliação da Acieg, qual a causa da inadimplência e qual o impacto disso para a economia?
Um dos motivos que estamos avaliando aqui na associação é esse desastroso plano econômico desenvolvido pelo governo federal. Hoje nós temos aqui uma incerteza, tanto jurídica quanto econômica, de tudo aquilo que é lançado a nível federal. E quando falo a nível federal, não estou falando mal de partido A ou partido B, mas, sim, das ações que vêm sendo feitas através dos planos econômicos que são lançados com fracasso; levam a uma medida provisória; essa medida provisória é derrubada; depois leva a uma outra ideia; essa ideia é derrubada. Isso cria um movimento no cenário econômico de instabilidade. Quando empresas de grande porte que acreditam num país como o Brasil e veem tudo isso acontecer, elas acabam levando o seu dinheiro do Brasil para outros mercados, criando essa instabilidade econômica. Nós temos um cenário muito difícil que encarece o crédito; o crédito não chega nas empresas; cada vez mais os grandes bancos e as instituições financeiras pedem garantias reais para ter a conta nas empresas e as empresas não têm essa garantia para dar, o que acaba encarecendo os juros e, consequentemente, os valores liberados para as empresas. Isso vira uma engrenagem do desastre, gerando um problema muito grande para as empresas. As empresas muitas das vezes não têm outra alternativa e precisam pegar esse dinheiro, o que aumenta o custo das empresas com o juro tão caro dessa forma para manter a sobrevivência e os empregos. O cenário hoje é muito preocupante, principalmente porque a economia está travada principalmente na questão de novos investimentos.
O senhor mencionou a questão de medidas provisórias e eu antecipo a repercussão com o senhor do engavetamento da MP do IOF. Como o setor econômico avalia a derrubada dessa MP? Houve atuação por parte da Acieg junto à bancada federal para que houvesse esse engavetamento?
Nós sempre trabalhamos com aquilo que não atrapalha a vida do empresário goiano. Essa medida é mais uma posição do governo federal de tentar colocar um novo tipo de tributo para reorganizar as contas públicas. Acho que deveria primeiro ser pensado na reorganização de uma reforma administrativa, dentro de todos os poderes, para depois falar em novos tributos. Se hoje se conseguisse enxugar a máquina – não vamos falar muita coisa não – estamos falando só de 15% a 20% em uma reforma administrativa – tenho certeza que todos esses impostos que estão sendo recriados, criados e etc, como propostas de recriação ou criação seriam cobertos por uma reforma administrativa e consequentemente – voltamos ao tema do Custo Brasil – baixaria um pouco do nosso Custo Brasil. É uma vitória a não tributação de um novo IOF, mas com certeza daqui uns dias chega uma outra medida provisória para que a gente articule novamente e tente não deixar passar para o bolso da população em geral e principalmente do empresário.
Havia uma expectativa de que o Brasil cresceria 1,9% em 2025. O FMI subiu esse índice para 2,4%. Isso seria um sinal de que as tarifas americanas tiveram um impacto menos do que se imaginava ou as medidas tomadas pelos governos minimizaram os efeitos do tarifaço?
É o tarifaço – nós já nos posicionamos anteriormente – a Acieg acredita ser muito mais política do que efetivamente algo que aconteça na cadeia. São alguns setores, alguns segmentos importantes, principalmente aqui para Goiás, que estão sendo impactados, mas que não gera um impacto econômico tão grande. Essas cadeias e esses segmentos que estão sendo impactados, consequentemente, migram de região. Alguns países que tinham contratos firmados com os Estados Unidos estão migrando para a China, estão migrando para a Europa, estão migrando para outros locais onde não estão deixando de ter as suas exportações. O Brasil é um país que, mesmo quando, às vezes, tudo dá errado ele acaba crescendo muito porque temos um agro muito forte. Apesar de o agro estar sofrendo muito, de uma forma que nunca sofreu anteriormente, com barreiras de juros cada vez mais elevados e as instituições bancárias pedindo garantias cada vez mais robustas para o agronegócio, o setor é que realmente sustenta o país, fazendo com que esses números de crescimento e elevação das projeções do final do ano, apesar do impacto do tarifaço, são muito característicos do agronegócio. Quando se fala em agronegócio, há muitos subsegmentos dentro do setor e essa cadeia gera um valor agregado para algumas regiões. No caso de Goiás, temos a proteína animal, a parte de grãos, que é muito forte, de terras raras, que também é muito forte, e isso é muito positivo na balança comercial.
Economistas preveem que a eleição presidencial de 2026 tende a ser uma das mais polarizadas das últimas décadas e pode trazer volatilidade semelhante à vista no pleito de 2014, quando Dilma Rousseff derrotou Aécio Neves por margem apertada. Qual a expectativa da Acieg?
Eu acho que a população está cansada de polarização, já não quer ver a briga do A contra o B. A população quer um país que tenha as propostas de política pública que ajude, a população, os empresários. Eu acho que o próximo ano vai ser um ano de muita análise, tanto do empresariado quanto da população. Apesar de estar bem polarizado, eu acredito que o próximo ano vai ser a eleição com mais análise por parte de cada eleitor para ver o que realmente ele quer. Se ele quer continuar com algumas políticas que não fazem muito aquilo que está esperando para o futuro, tanto para os seus filhos quanto para as próximas gerações, e também para o presente; ou se ele quer manter algo que gere muito problema, muita turbulência, uma economia desajustada. Esse é um ano de informação, de levar cada vez mais informação para o eleitor que está na outra ponta. E mesmo essa análise fazemos aqui na Associação Comercial talvez ela possa estar em uma bolha de eleitores que pode ter um pouco mais de instrução escolar e de conhecimento sobre como funcionam as coisas, mas quando se vai para um interior do Nordeste, que são pessoas muito carentes, que têm uma escolaridade muito baixa, nós estamos falando de um outro tipo de eleitor, aquele eleitor que está passando fome, que não tem estrutura básica, que não tem saneamento básico, que mal vende o dia de hoje para comer a sua jantinha no final do dia. Vai ser uma eleição de muita análise, de muita reflexão por parte de todo leitor, seja em qual classe social ele estiver.
Qual o perfil de presidente que a Acieg defende para o país?
A Acieg defende um presidente que trabalhe pelo setor produtivo. É aquele presidente que faça o país crescer sem intrigas que ultrapassem as barreiras, sejam elas estaduais como internacionais. E neste caso, não teria como ser diferente, o atual governo que representa a esquerda no Brasil defende um tipo de política que não representa muito o empresariado, principalmente o goiano.
Na sua opinião, o que prejudica a pré-candidatura de Caiado: o fato de Goiás ser um estado mais periférico politicamente? A falta de apoio explícito de Jair Bolsonaro ou o desconhecimento?
Eu acho que é mais desconhecimento. O governador Ronaldo Caiado vem fazendo um trabalho muito interessante no setor produtivo, na área de segurança pública e em vários outros segmentos que vem sendo disruptivo. E isso acaba gerando um problema político e interferindo também nas relações institucionais, seja dos poderes públicos, quanto das instituições privadas. Não podemos ter um governo: “eu não gosto do verde, então eu vou ser contra o verde’; se eu não gosto do amarelo, vou ser contra o amarelo “. Isso é muito ruim para o nosso dia a dia. O governador Ronaldo Caiado, nessa propositura de pré-candidato à presidência da República, gera um problema com o governo federal, que acaba cerceando alguns projetos para Goiás. Estamos percebendo isso no setor público aqui, o que querendo ou não acaba respingando em todos do estado.
Quais problemas o senhor acredita que foi causado no estado devido a pré-candidatura do governador? O senhor menciona o Fundeinfra ou seriam outras iniciativas?
Fundeinfra aconteceu agora, estou falando de repasses da União que deveriam ter sido colocados no Estado e que sempre encontram dificuldades; tem projetos com a iniciativa privada, que às vezes ficam travados, falam que são processos administrativos, que as coisas acabam tendo uma demora ainda maior, mas no fundo, sabemos que existe um problema político e as coisas não andam por causa desse problema. político. E infelizmente, querendo ou não, estamos no início de uma disputa eleitoral que, na verdade, não vai começar, já começou. O que se discute nos últimos dias é a disputa do próximo ano. Vemos que muitos travamentos da economia e também de repasses de obras, de novos empreendimentos, de repasse para a infraestrutura acontecem porque existe uma disputa política para o próximo ano.
Na avaliação do senhor, qual será o peso de Jair Bolsonaro na eleição do ano que vem?
Está indefinido ainda e é uma situação até complicada de se falar, porque existe um julgamento, um pré-julgamento e posições que atrapalham muito o cenário para o próximo ano. Ninguém sabe se ele vai ter essa força política para o próximo ano. Existe uma linha de eleitores do ex-presidente Jair Bolsonaro muito forte, que acompanham ainda o que ele fez no passado, mas ainda está muito indefinido o que vai acontecer. Existe a divisão de possíveis pré-candidatos, inclusive na Ficomex tivemos a presença do governador Romeu Zema, que é um pré-candidato, junto com o governador Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior, Tarcísio de Freitas e por aí vai, o que acaba dividindo a composição dos votos. Parece-me que foi um acordo entre eles, da direita, ter vários pré-candidatos neste primeiro turno. Isso tem um impacto direto nesse movimento e estamos esperando as definições judiciais, porque tem um impacto muito grande. O problema de saúde do ex-presidente Jair Bolsonaro está em voga também, porque deixa ele bastante debilitado para muitos compromissos. Mas ele tem uma força muito grande no eleitorado, seja goiano ou no brasileiro, principalmente no goiano. O eleitorado goiano tem uma força muito grande e uma influência transmitida pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em Goiás, com qual cenário eleitoral a Acieg trabalha?
A Acieg é uma entidade apartidária, mas o que se ouve falar muito na nossa entidade é que possivelmente o que vai acontecer é a continuidade do governo do Ronaldo Caiado, e que provavelmente deve ser o Daniel que faça essa continuidade. Isso nós ouvimos nos bastidores, principalmente nas nossas reuniões de diretoria, e eu acredito que pode ser que isso se concretize no final do ano que vem. Nós começamos a ver alguns outros movimentos também acontecendo nos bastidores, mas ainda é muito tímido essa avaliação da associação comercial e ela não se posiciona efetivamente antes da lista dos candidatos efetivamente ao governo do Estado.
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