
Segundo último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2022, Goiânia é a sétima capital com maior proporção de evangélicos no Brasil, com 32,6% da população seguindo essa religião. O estado tem cidades como Anápolis, com 38,7%, e Aparecida de Goiânia, com 38,5% de evangélicos.
Outro estudo, de 2020, do Instituto de Pesquisa e Reputação de Imagem (IPRI), da FSB Holding, analisou as últimas sete eleições municipais e revelou o que crescimento das candidaturas que explicitamente adotam uma identidade religiosa em seus nomes de urna foi 16 vezes maior do que o aumento geral no total de candidaturas nas eleições locais. O levantamento indica que os evangélicos mais do que apoiam candidatos de suas igrejas: eles entendem que é positivo que todas as esferas da vida sejam ocupadas pela fé.
É o que dizem todos os líderes político-evangélicos quando dão entrevistas à imprensa sobre o assunto: o mandamento é estar presente para fazer o trabalho de Deus onde os homens estiverem. Entendendo esse aspecto da psicologia da religião e cruzando os dados das duas pesquisas, podemos enxergar que as eleições de 2026 em Goiás serão especialmente influenciáveis por esse segmento. De certa forma, é uma exceção à regra geral: desde o meio dos anos 2000, a tendência no país é de mais personalismo na política (líderes carismáticos fortes) e menos coletivismo.
Primeiro, é bom fazer o disclaimer: os evangélicos não são um grupo único, homogêneo, monolítico. Há evangélicos de esquerda, liberais, nacionalistas, socialistas, capitalistas, e de intersecção com todos os outros grupos políticos. Entretanto, a maioria do eleitorado no estado está associada ao conservadorismo, tendo escolhido Bolsonaro em peso, tanto em 2018 quanto em 2022. Ainda mais uma pesquisa: levantamento de 2025 do Instituto Goiás Pesquisas mostrou que 43,47% do eleitorado goiano se inclina ao conservadorismo, 23,82% à esquerda, 14,66% de centro, e 18,05% não sabe ou não se identifica.
Posição dos evangélicos em Goiás
No estado, os evangélicos se posicionaram cedo. Desde 2025, o maior grupo evangélico, que é liderado pelo bispo Oídes José do Carmo, presidente da Assembleia de Deus Ministério Madureira – Campo Campinas – está com Daniel Vilela (MDB). Outros pastores também se posicionaram em favor de Daniel Vilela: Cleôncio Satler (presidente do Conselho de Pastores das Igrejas Evangélicas de Goiás), Romeu Ivo (presidente da Assembleia de Deus Esperança), Abgail Filho (vice-presidente da Assembleia de Deus Ministério Fama), entre outros.
O que motiva o apoio são os diversos pontos de contato entre o poder político e o religioso. Por exemplo: o irmão do bispo, o ex-senador Luiz do Carmo, é um dos possíveis vices de Daniel Vilela na chapa destas eleições. Em um estado como Goiás, os políticos no poder precisam dos evangélicos em sua coalizão.
Por parte dos evangélicos, que já entraram no Legislativo, há o desejo se consolidar no Executivo, e o caminho mais fácil é se aliar àqueles que têm a máquina, mesmo que isso signifique preterir Wilder Morais, Flávio Bolsonaro, e demais candidatos do PL a quem estiveram associados nas eleições passadas. Goiás é o único estado do país onde nem Lula da Silva (PT) nem Flávio Bolsonaro (PL) lideram. Ronaldo Caiado (PSD) tem 38% das intenções de votos, segundo a Real Time Big Data.
Wilder Morais teve voto para senador consolidado junto ao segmento ao pautar sua atuação no conservadorismo e na defesa de valores tradicionais, além de ter o ex-candidato a vice e bispo Abigail Almeida (então no PSC) como seu suplente. Entretanto, para governador, o jogo muda. Agora, sua vice é Ana Paula Rezende, que é evangélica, mas não é líder de igreja.
Brasil
Com 7,42 milhões de habitantes, Goiás é um estado pequeno, e seus 2,4 milhões de evangélicos podem não decidir as eleições majoritárias, mas podem criar atritos de relevância nacional. O estado tem líderes de igrejas que estão presentes em todo o país, e é desproporcionalmente relevante para a tomada de decisões na Assembleia de Deus, na Videira e em outras.
Em outras palavras, Caiado pode causar hesitação entre evangélicos que pretendem votar no sobrenome Bolsonaro. Por exemplo: no último mês, Manuel Ferreira e Samuel Ferreira, bispos da cúpula da Assembleia de Deus no Brasil, ligados à Convenção Nacional de Ministros da Igreja Evangélica Assembleia de Deus no Brasil (CONAMAD), declararam apoio a Ronaldo Caiado, e não os Bolsonaro.
Caiado não é o único que tenta provocar essa dúvida. Em 21 de maio, o Estadão publicou que o Setorial Inter-religioso do PT planeja associar Flávio Bolsonaro ao “falso profeta” e “filho do diabo” durante a campanha, reforçando sua associação ao escândalo Master. Desde as últimas eleições, o partido tem privilegiado representantes evangélicos para diminuir os atritos históricos com o segmento. Em Goiás, vale a pena destacar que Lula recebeu a vereadora goianiense evangélica Aava Santiago (PSB) em 2024, com o propósito de ampliar esse diálogo.
O presidente Lula entende a importância do grupo, e desde o começo do governo faz concessões às igrejas, como distribuição de lotes em assentamentos da reforma agrária para a construção de templos e a distribuição de verbas para a realização da “Marcha para Jesus”. Porém, a barreira é alta.
Historicamente, os evangélicos associam a esquerda com a contrariedade de seus princípios conservadores — para eles, o PT seria contra a família tradicional e contra a ordem social. Essas percepções estão em certa medida corretas: durante o desfile de carnaval de 2026, o bloco em homenagem a Lula ironizou a “família em conserva” (sátira válida no âmbito da festa, mas que não ajuda a apaziguar os evangélicos); e o governo federal pouco fez pela ordem no campo da segurança pública.
A direita, por outro lado, está nos templos 24/7, 365 dias por ano, e não apenas durante a campanha. Assim, seria necessário um direitista para fazer os evangélicos abrirem mão de um direitista. Se o caso Master tornar Flávio Bolsonaro tóxico demais, nem mesmo a superevangélica Michelle Bolsonaro pode ser capaz de segurar o eleitorado. O Globo revelou que a notícia da associação entre Flávio e Vorcaro via filme Dark Horse caiu como uma bomba no grupo de WhatsApp que o candidato tem com os líderes evangélicos Silas Malafaia, Robson Rodovalho, Renê Terra Nova e Estevam Hernandes.













