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Goiás perde liderança no Ideb, enquanto Goiânia alcança 2º lugar entre as capitais

Estado registra os melhores resultados de sua série histórica, mas deixa o topo do ranking nacional. Especialista alerta para foco excessivo nos indicadores pode ocultar desigualdades, problemas de aprendizagem e exclusão escolar


Redação Tribuna do Planalto Por Redação Tribuna do Planalto em 08/08/2026 - 16:02

Goiás perde liderança no Ideb, enquanto Goiânia alcança 2º lugar entre as capitais
Ideb mede a qualidade da educação básica ao combinar o desempenho dos estudantes no Saeb com as taxas de aprovação escolar. (Foto: SET )

Depois de ocupar a liderança nacional nas últimas edições do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), Goiás perdeu a primeira colocação no ranking de 2025, diferente de Goiânia, que avançou. A mudança de posição, no entanto, ocorreu em um cenário de crescimento dos próprios indicadores. O estado alcançou seus melhores resultados desde a criação do índice, em 2005, com avanço nos anos iniciais e finais do ensino fundamental e estabilidade no ensino médio, mantendo desempenho acima da média nacional.

Entre 2023 e 2025, a nota dos anos iniciais passou de 6,3 para 6,5; nos anos finais, de 5,5 para 5,7; enquanto o ensino médio permaneceu em 4,8. Na rede pública estadual, os índices evoluíram de 6,1 para 6,4 nos anos iniciais, de 5,4 para 5,6 nos anos finais e de 4,8 para 4,9 no ensino médio, consolidando a melhor série histórica do estado.

Para a Secretaria de Estado da Educação (Seduc), os resultados refletem uma política contínua de investimentos em infraestrutura, formação docente, permanência escolar e recomposição das aprendizagens. Entre as ações destacadas, estão os programas Revisa Goiás, Bolsa Estudo, Ouvir e Acolher, distribuição de kits escolares, uniformes, Chromebooks e reformas das unidades escolares.

Ao mesmo tempo, Goiânia também apresentou avanço. A rede municipal atingiu nota 6,6 nos anos iniciais do ensino fundamental, o maior resultado desde a criação do indicador e suficiente para colocar a capital na segunda posição entre as capitais brasileiras. A Prefeitura atribui o desempenho ao aumento dos investimentos em infraestrutura, tecnologia educacional, formação de professores e valorização dos profissionais da educação.

Ranking não resume a qualidade da educação

Embora reconheça o avanço dos indicadores, a professora Catarina de Almeida Santos, do Departamento de Planejamento e Administração da Universidade de Brasília (UnB), avalia que o debate não deve se restringir às posições ocupadas pelos estados no ranking.

Segundo ela, o Ideb é um instrumento importante para medir resultados, mas não consegue traduzir, sozinho, a qualidade da educação ofertada.

“Precisamos romper com a ideia de que qualidade é sinônimo de índice. O índice é um resultado. Hoje, organizamos a escola em torno de provas de português e matemática, quando deveríamos organizar todo o sistema em torno da aprendizagem. O resultado deveria ser consequência desse processo, mas acabou se tornando o objetivo central das políticas educacionais”, afirma a pesquisadora.

Na avaliação da especialista, quando os indicadores passam a orientar todas as decisões, existe o risco de invisibilizar problemas estruturais que permanecem presentes na educação brasileira.

“Quando o foco passa a ser exclusivamente o índice, deixamos de olhar para o currículo, para a formação integral dos estudantes e para as condições reais de aprendizagem. A escola passa a responder a uma prova, e não necessariamente às necessidades dos alunos”, diz Catarina.

Gargalo continua no ensino médio

Mesmo com evolução dos indicadores, o ensino médio permanece como a etapa com menor desempenho em todo o país. Para Catarina, isso ocorre porque essa fase concentra os problemas acumulados ao longo de toda a trajetória escolar.

“O ensino médio é a etapa final da educação básica. Tudo aquilo que deixou de ser construído desde a educação infantil e durante o ensino fundamental chega até ele. O estudante acumula dificuldades de aprendizagem, distorção idade-série e, muitas vezes, perde o vínculo com a escola antes mesmo de concluir os estudos”, explica a pesquisadora.

Ela ressalta que melhorar os resultados do ensino médio depende, sobretudo, do fortalecimento das etapas anteriores.

“Se queremos um ensino médio melhor, precisamos investir desde a educação infantil e garantir que o estudante chegue a essa etapa na idade adequada e com aprendizagem consolidada. Não existe solução apenas no fim da trajetória escolar”, afirma.

Desigualdades permanecem fora dos indicadores

Na avaliação da professora da UnB, um dos principais limites do Ideb é que o índice não revela quem ficou pelo caminho.

Ela observa que o sistema educacional ainda convive com processos de exclusão escolar que atingem, principalmente, estudantes em situação de maior vulnerabilidade social.

“Quando olhamos apenas para o índice, deixamos de observar quantos estudantes não concluíram a educação básica, quem abandonou a escola e quais grupos continuam tendo o direito à educação negado. Esses estudantes têm endereço, classe social e território. As desigualdades continuam muito presentes”, afirma a pesquisadora.

Segundo Catarina, parte desses estudantes acaba sendo direcionada para modalidades ofertadas de maneira precária, o que contribui para mascarar parte da realidade educacional.

“O sistema cria mecanismos que afastam estudantes que podem comprometer os indicadores. Em muitos casos, eles são encaminhados para a Educação de Jovens e Adultos, frequentemente ofertada de forma precarizada. O índice melhora, mas isso não significa que o direito à educação tenha sido garantido”, diz.

Mais do que subir posições

Embora Goiás tenha deixado a liderança nacional, Catarina defende que a principal discussão não deveria ser a posição ocupada no ranking.

“A pergunta mais importante não é se Goiás ficou em primeiro ou em segundo lugar. O que precisamos discutir é se a educação oferecida consegue responder às necessidades dos estudantes e reduzir as desigualdades. O ranking, sozinho, não responde a essa pergunta”, avalia a pesquisadora.

Ela acrescenta que a permanência dos jovens na escola também depende da construção de perspectivas de futuro.

“O estudante precisa perceber sentido na escola. Quando ele não enxerga possibilidades concretas para sua vida, o desinteresse cresce. A educação precisa dialogar com os projetos de vida dos jovens e oferecer condições reais para que permaneçam estudando”, conclui Catarina de Almeida Santos.

Goiânia registra maior nota da história e conquista 2º lugar entre as capitais

Enquanto Goiás comemorou seus melhores resultados históricos, Goiânia também alcançou um marco inédito. A rede municipal de ensino obteve nota 6,6 nos anos iniciais do ensino fundamental, a maior desde a criação do Ideb, garantindo à capital goiana o segundo lugar entre as capitais brasileiras.

Segundo a Prefeitura, o resultado é consequência de uma combinação de investimentos em infraestrutura escolar, tecnologia, valorização dos profissionais e fortalecimento das ações pedagógicas.

Entre as iniciativas destacadas estão os repasses do Programa de Autonomia Financeira das Instituições Educacionais (Pafie), que somaram R$ 222 milhões em 2025 e R$ 107,4 milhões no primeiro quadrimestre de 2026, destinados diretamente às escolas para reformas, ampliações e melhorias.

A rede também recebeu 15 mil tablets, aproximadamente 1,5 mil lousas digitais e laboratórios makers, além da manutenção do pagamento do piso nacional dos professores, oferta de formação continuada e premiações para profissionais da educação.

Outro indicador que reforça o avanço foi o Índice Criança Alfabetizada (ICA). O percentual de estudantes alfabetizados na idade certa subiu de 69% para 80% entre 2024 e 2025, atingindo a meta estipulada pelo Ministério da Educação para 2030.

Para dar continuidade aos resultados, a administração municipal lançou o Compromisso Público Educa Mais Goiânia, elaborado em parceria com o Centro Lemann, que estabelece 93 metas até 2028. Entre os objetivos estão ampliar vagas em creches, expandir a educação integral, modernizar a infraestrutura das escolas, fortalecer a inclusão e elevar os indicadores de aprendizagem da rede municipal.

Brasil

  • Anos iniciais do ensino fundamental: 6,3 (era 6,0 em 2023)
  • Anos finais do ensino fundamental: 5,3 (era 5,0)
  • Ensino médio: 4,5 (era 4,3)
  • 442 municípios ainda registram Ideb inferior a 4,9 nos anos iniciais, contra 1.097 em 2023.

Goiás

  • Anos iniciais: 6,5 (6,3 em 2023)
  • Anos finais: 5,7 (5,5 em 2023)
  • Ensino médio: 4,8 (estável em relação a 2023)
  • Na rede pública estadual, os índices passaram de:
    • 6,1 para 6,4 (anos iniciais)
    • 5,4 para 5,6 (anos finais)
    • 4,8 para 4,9 (ensino médio)
  • Estado alcançou os maiores resultados da série histórica, iniciada em 2005.
  • Sete das dez melhores escolas públicas de ensino médio do Brasil pertencem à rede estadual goiana.

Goiânia

  • Nota 6,6 nos anos iniciais do ensino fundamental.
  • Maior nota da história da rede municipal no Ideb.
  • 2º lugar entre as capitais brasileiras.
  • Percentual de crianças alfabetizadas na idade certa subiu de 69% para 80% entre 2024 e 2025.
  • A Prefeitura lançou o Compromisso Público Educa Mais Goiânia, com 93 metas para elevar a qualidade da educação até 2028.
Redação Tribuna do Planalto

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