O Governo Federal oficializou a inscrição da Comunidade Tia Eva, em Campo Grande (MS), como patrimônio cultural do Brasil. A medida foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) nesta segunda-feira (25). Com isso, o território se torna o primeiro quilombo reconhecido nessa categoria em todo o país.
A data escolhida para o ato foi o dia 13 de maio, aniversário da assinatura da Lei Áurea. A comunidade agora ocupa o número 1 no Livro de Tombo de Documentos e Sítios Detentores de Reminiscências Históricas de Antigos Quilombos. O Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) já havia declarado o tombamento em 10 de março de 2026, durante sua 112ª Reunião. A inscrição no livro, no entanto, só ocorreu agora e consolida juridicamente o reconhecimento.
A Portaria Iphan nº 135/2023 regulamenta o processo de tombamento. A norma segue o artigo 216, parágrafo 5º da Constituição Federal de 1988. A lei prevê o tombamento automático de documentos e sítios com reminiscências históricas de antigos quilombos. O presidente do Iphan, Leandro Grass, destacou que a declaração representa um importante gesto de reparação histórica às comunidades quilombolas.
Quem foi Tia Eva
A comunidade leva o nome de Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva. Ela nasceu em Mineiros (GO), viveu na escravidão e conseguiu a alforria ainda no fim do século XIX. Em 1905, mudou-se com as três filhas para a região onde hoje está Campo Grande e comprou um terreno. Ela atuava como parteira, benzedeira, curandeira e professora, ajudando moradores da região.
Devota de São Benedito, Tia Eva construiu a primeira igreja da comunidade, origem da atual Igreja de São Benedito. Ela ergueu o templo após fazer uma promessa: uma ferida na perna não cicatrizava há anos. Depois de conseguir a cura, construiu uma igreja de pau a pique dedicada ao santo. Ela também iniciou uma festa anual de agradecimento, que os descendentes mantêm até hoje.
Reconhecimento e impacto na comunidade
A própria comunidade fez o pedido de tombamento em 2024. Técnicos do Iphan trabalharam por dois anos com os moradores para identificar e registrar tradições, histórias e espaços importantes do território. Os descendentes comemoraram a decisão. Hoje, cerca de 250 famílias vivem na área.
A criação de um Livro do Tombo específico para quilombos representa um novo capítulo nas políticas públicas de patrimônio cultural do país. O presidente do Iphan, Leandro Grass, afirmou que muitos outros territórios quilombolas receberão o mesmo reconhecimento.
O superintendente do Iphan em Mato Grosso do Sul, João Henrique dos Santos, destacou que o tombamento valoriza o protagonismo de uma mulher negra recém-alforriada que chegou ao sertão brasileiro no início do século XX. O tataraneto de Tia Eva, Nilton dos Santos Silva, disse que o reconhecimento fortalece a história da comunidade e pode atrair mais visitantes e melhorias para o território.
Dessa forma, a Igreja de São Benedito, construída em 1919, já integra o patrimônio histórico municipal e estadual. O templo passa por obras de restauração orçadas em mais de R$ 2,2 milhões. A previsão de entrega do novo complexo comunitário é junho de 2027.














