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O poeta das dores do mundo

Homenagem a Hyldon no Ouve Festival em Goiânia; documentário "As Dores do Mundo" revisita a trajetória do poeta do soul brasileiro


Por Fábio Prado em 06/08/2026 - 17:05

O poeta das dores do mundo
Hyldon na época do lançamento de seu primeiro disco, "Na rua, na chuva, na fazenda", de 1975 Foto: Divulgação/Hyldon

O Teatro Sesi, em Goiânia, foi palco de uma noite histórica na abertura do Ouve Festival na última quarta-feira (5). A segunda edição do festival, que une cinema e música, prestou uma homenagem a Hyldon, exibindo o documentário “As Dores do Mundo” e, em seguida, recebendo o próprio artista para um show emocionante . A proposta do festival, de expandir a experiência musical para além da tela, criou o cenário perfeito para celebrar a trajetória de um dos precursores da black music no Brasil.

A trajetória de Hyldon é a de um poeta que, por coincidência, faz música. Nascido em Salvador em 1951, mudou-se para o Rio de Janeiro ainda adolescente e começou a carreira como guitarrista de apoio para nomes como Tony Tornado, Wilson Simonal e o próprio Tim Maia, antes de se tornar um dos pilares do soul brasileiro ao lado de Tim Maia e Cassiano . Sua obra-prima de estreia, “Na Rua, na Chuva, na Fazenda” (1975), é um marco que une a sofisticação harmônica do soul à simplicidade bucólica de suas raízes, e foi gestada em um momento de grande dificuldade, desafiando a indústria fonográfica que insistia em vê-lo apenas como compositor. Sua música, que fala de amor, natureza e das dores do mundo, carrega uma sensibilidade rara e atemporal, capaz de emocionar gerações.

O documentário “As Dores do Mundo”, dirigido por Emílio Domingos e David Rodrigues, revisita com intimidade essa trajetória. O que torna o filme especial é o olhar de quem o conhece e admira profundamente. Mano Brown, Liniker, Seu Jorge, Sandra de Sá e Kurumim são alguns dos artistas que dividem o palco da memória para falar do amigo e ídolo . Não são somente depoimentos técnicos sobre a obra, são relatos de quem sentiu a música de Hyldon na pele, de quem cresceu ouvindo “Na Rua, na Chuva, na Fazenda” como se fosse um pedaço da própria história. Eles contam sobre a força da poesia dele, sobre o homem sensível por trás do artista. É um registro que foge do distanciamento para abraçar o afeto.

A sensibilidade de Hyldon é tanto um traço artístico como uma marca registrada de sua humanidade. No show, um momento particularmente tocante revelou essa faceta: ao começar a cantar uma canção de seu amigo e contemporâneo Cassiano, ele interrompe a música, visivelmente emocionado, e disse que a trocaria, pois a melodia mexia tanto com ele que o faria chorar. A cena, tão espontânea quanto verdadeira, revelou a profundidade de suas conexões e a forma como a música atravessa a amizade e a memória.

No palco, com apenas um violão e seu bom humor, ele canta como quem entrega um pedaço de si, e a plateia respondeu com a mesma intensidade. Ao lado do palco, uma mãe com as duas filhas que tinham entre 8 e 12 anos. As três cantavam juntas, a plenos pulmões, cada verso. A cena era um resumo do que Hyldon representa: uma obra que não envelhece, que passa de geração em geração e encontra novos corações para tocar.

Ninguém melhor para falar das dores do mundo do que Hyldon. Em 50 anos de estrada, ele experimentou o choro e o gozo, se apaixonou, se apaixona e se permite ser apaixonável. O documentário e o show no Ouve Festival foram bem mais que uma homenagem: foram um reconhecimento em vida, um gesto de gratidão a um artista que continua a nos ensinar que a música é, antes de tudo, um ato de amor.

O Ouve Festival segue até sábado (8) no Teatro Sesi, em Goiânia, com entrada gratuita mediante doação de 1 kg de alimento não perecível. Nesta sexta (7), a programação homenageia Lupicínio Rodrigues, com show de Grace Carvalho; e no sábado (8), o encerramento celebra Adoniran Barbosa com Luciana Clímaco. Os ingressos devem ser retirados com antecedência ou no local.

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