Se decidirconcorrer à eleição para prefeito em 2024, será a terceira vez que o senador Vanderlan Cardoso irá disputar a cadeira. O que o estimula, mais que os 25% nas pesquisas de intenção de votos, é a pequena rejeição que tem entre os goianienses, mesmo depois de ser alvo de ataques da extrema direita por ter apoiado a recondução do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco. Grande cabo eleitoral em Senador Canedo, ele pode vir a apoiar a reeleição do prefeito Fernando Pellozo, que trocou o PSD pelo União Brasil, mas fala em “circunstâncias” para fazê-lo. No momento, o senador, presidente da Comissão de Assuntos Econômicos no Senado, está com a atenção voltada para o debate sobre a Reforma Tributária e, segundo ele, não há consenso sobre a Taxa do Agro.
TRIBUNA DO PLANALTO – O senhor vai se licenciar do Senado e por qual motivo?
VANDERLAN CARDOSO – É uma decisão que tinha tomado ainda em 2020 e acabei não tendo condições de tirar essa licença devido ao refinanciamento das dívidas do estado, que o governador (Ronaldo Caiado) pediu que eu estivesse à frente. Atrasou um pouco e agora, que assumi a presidência do partido, temos muitas reuniões para fazer, posse de comissões pelo estado, dedicar um pouco ao partido,temassuntos pessoais e particular aos quais temos que dedicar um pouco, principalmente com relação às empresas, e a um tratamento de saúde que eu tenho que me dedicar, coisa simples, mas tem que dedicar pelo menos de 60 a 90 dias. Vamos ter que conciliar uma licença de quatro meses para que o exdeputado e hoje suplente senador Pedro Chaves assuma. Uma pessoa experiente, tem nos ajudado muito aqui no Senado Federal, e Goiás não vai perder nada. Aliás, só tem a ganhar com PedroChaves comosenador.
O senhor vai aguardar a votação da Reforma Tributária para sair de licença?
Eu pretendo aguardar a votação porque estou à frente desse grupo de trabalho junto com o senador Efraim Filho e a CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) vem fazendo essas audiências públicas. Creio que, se obedecer o calendário do relator, senador Eduardo Braga, no começo de outubro devemos votar. Se atrasar, talvez uma ou duas semanas e ficarei mais livre para tirar essa licença.
Sobre a Reforma Tributária, o senhor já afirmou que o projeto vai sofrer alterações no Senado. Quais seriam essas alterações?
Sãomuitos os pontos polêmicos da reforma, mas eu vou me ater aqui a dois ou três. O Conselho Federativo que vai administrar a arrecadação é um dos pontos mais polêmicos, principalmente para os governadores e prefeitos, que não estão entendendo, e a meu modo de ver também precisa ser feita a alteração nesse conselho porque está confuso e vai aumentar muito a burocracia. O conselho deve ser um que vai sofrer alteração, o próprio relator já disse. Há também muitas dúvidas com relação aos estados em desenvolvimento, principalmente em nossa região, o Centro-Oeste, no Norte e no Nordeste, e aos incentivos fiscais. O imposto sendo pago no destino muda tudo. Nosso estado tem poucos consumidores, em torno de 7 milhões de consumidores. Somos um estado que produz e exporta muito. Temos que ficar atentos a isso e esse deve ser um ponto que aqui no Senado Federal nós vamos mexer. Já há alternativas, de parte do imposto ser pago na origem e parte no destino. Já melhorabema situação.
Mas a ideia da reforma não é simplificar? Regras diferenciadas para alguns estados ou cobranças divididas não vai manter essa complexidade do sistema tributário?
A Reforma Tributária vem realmentepara simplificar, senão não tem por que fazer a reforma, mas vem também para que estados e municípios não percam. Porque se for para estados e municípios perderem também não há motivo para se fazer a Reforma Tributária. O problema está onde? Nos municípios, e eles perdem muito, segundo os estudos que estamos fazendo aqui, embora haja muita controvérsia com relação a esses estudos e ainda estamos validando os números. A Reforma Tributária não tem porque acontecer se aumentar a carga tributária, permanece dessa forma e do jeito que é hoje. Esse emaranhado de impostos que ninguém entende muito, cada estado tem o seu código tributário e é muito difícil entender, principalmente quem vem de fora para investir no nosso país. Se for para os estados em desenvolvimento, Norte, Nordeste e Centro-Oeste, perderem, são dois terços da federação. De 20, 30 anos para cá, como é o caso de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, que esses estados começaramasedesenvolveratravés dos incentivos fiscais. Depois o Norte e o Nordeste também entraram muito forte com os incentivos fiscais para alavancar suas economias. São estados que estão produzindo e exportando. Há pouco tempo, o Nordeste brasileiro era importador de energia; hoje é exportador.Mas temmuita distância ainda desses estados para os estados do Sul e do Sudeste. São Paulo é um um estado que cresceu bastante, desenvolveu e tem quase 50 milhões de habitantes, aí vem o Rio de Janeiro, Minas Gerais, e o crescimento deles ao longo de décadas e décadas se deve também ao incentivo fiscal que foi dado nesses estados. Alíquotas diferenciadas quando São Paulo, por exemplo, vende para Goiás; aumenta 18% quando vende para dentro do estado e, quando vende para o nosso estado, é de 7%. Esse é o maior incentivo fiscal e vem há décadas e décadas antes do incentivo fiscal de Goiás. Temos que observar tudo isso e eu, como representante do estado de Goiás no Senado Federal, estou de olho em tudo que venha a prejudicar o nosso Estado,mas acima de tudo trabalhando junto com os estados do Norte e do Nordeste.

Há também a Taxa do Agro, que o governador Ronaldo Caiado está trabalhando para que seja permitida na reforma. Entre os governadores, Caiado está isolado em sua posição contrária à Reforma Tributária. Qual sua influência nesse debate que ocorre no Senado?
Não é só o governador Ronaldo Caiado, tem os governadores do Pará, de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul que também instituíram esses fundos em épocas diferentes. Mato Grosso foi o primeiro, há quase 20 anos, em um momento em que o estado estava em dificuldade realmente, sem estradas e com folha salarial atrasada. Goiás foi o último que criou o fundo, que passou a valer a partir deste ano. Não há consenso aqui no Senado Federal sobre esse ponto. Por isso que os governadores de estados que já têm o fundo criado e outros que querem criar estão tentando, junto a suas bancadas senadores, mostrar a importância desse fundo. Hoje eu não vejo consenso nesse ponto, tanto é que o governador Ronaldo Caiado tem percorrido o país inteiro, falando desses pontos e da importância que tem a Reforma Tributária para os estados, principalmente para Goiás. Daqui até a apresentação do relatório do senador Eduardo Braga muita coisa vai mudar, até mesmo o próprio relator já deu sinais de que vai mexer em muita coisa. O grupo de trabalho criado na Comissão de Assuntos Econômicos vai munilo de muitas informações colhidas nas reuniões que os senadores estão fazendo nos seus estados e nos gabinetes e na própria comissão durante as audiências públicas. Já é a quarta audiência pública que realizamos na CAE, ouvindo muitas pessoas de diversos setores. Nós temos ainda três audiências até a previsão de apresentação do relatório, nas quais vamos ouvir de 15 a 20 pessoas e vamos apresentar para o relator mais informações sobre algumas áreas que porventura não tenha consenso hoje, mas que podem vir a colaborar em seu relatório final. São muitas as reclamações. Alguns setores estão satisfeitos com o texto aprovado, mas outros não.
Empresários do setor de serviços estão bem temerosos em relação ao impacto da reforma nos negócios. As mudanças afetam mais esse setor?
Para cerca de 92% do setor de serviços não vai mudar nada, porque são optantes pelo Simples e, no Simples, não vai mexer em nada. Muitas pessoas vêm conversar conosco, alguns representantes de setores da área de serviços – dentro do setor há vários segmentos – e quando explicamos a eles que no faturamento do Simples não vai mexer, alguns ficam até surpresos. Mas o fato é que não vai ter mudança nenhuma para cerca de 92% das empresas. Qual é a dúvida? Qual o impacto que vai haver para os outros 8%? Não está claro. Vai haver um fator de redução da alíquota total, mas quanto será essa alíquota de redução? Não está definido ainda. Pode ser de 30%, 50% ou o máximo, de 60%. Estamos no momento de fazer contas, muita conta. É o que eu peço para o pessoal, quando tem reunião conosco. Estamos tentando esclarecer ao máximo, ou seja, esclarecer também aquilo que estamos tendo acesso e temos segurança para falar, porque tem muita coisa que não está claro e ninguém está entendendo ainda. Mas creio que até começo de outubro vamos estar com o relatório já bem adiantado. O Eduardo Braga é um senador bem entendido da área, já foi governador, é do diálogo, está se desdobrando para poder atender a todos. Difícil é, mas ele tem se desdobrado para atender o maior número de segmentos de setores que têm interesse na Reforma Tributária.
Quando o senhor assumiu a CAE disse que tinha dois propósitos na comissão: a Reforma Tributária e a redução de juros. O ritmo em que os juros vêm sendo reduzidos é o esperado?
Como empresário, eu poderia dizer que os juros poderiam estar a 1% ao ano. Essa é a vontade de todos. Mas quando analisamos outros números, principalmente os números externos, porque o que compõe essa cesta para dizer se os juros têm que baixar não é simplesmente a vontade dos políticos, dos governantes ou dos empresários. A análise do Banco Central é bem mais ampla e analisa se os juros baixarem mesmo, para valer, se a inflação pode retornar. Pode, sim. Nós já vimos esse filme antes, quando os juros foram reduzidos no momento inapropriado. Já pensou em 2022, ano eleitoral, se o Banco Central não tivesse essa autonomia, o que não tinha sido feito com juros e que, hoje, nós estaríamos pagando um preço muito alto, com inflação, com gastos exorbitantes. Isso gera aquela sensação: juros baixos, vamos gastar. E hoje a inflação não estaria no patamar que está. Eu acho que está baixando na hora certa e, a meu modo de ver e pelos números que temos analisado, vai continuar a cair. Eu espero que neste ano os juros cheguem a pelo menos 10%, 10,5%. É a nossa esperança e eu sei que é difícil, mas acredito que possa chegar próximo disso. Tem mais três reuniões ainda e se baixar 1,5%, 0,5% em cada reunião, estamos falando em 11,75%. Mas sou um pouco mais otimista e quem sabe chegue a 10,5%, 11%. A economia e a inflação vão ditar os números e a inflação nos deu um susto, não era o esperado.
O senhor percebe no Congresso uma disputa entre a Câmara dos Deputados e o Senado por protagonismo, uma situação que vem sendo narrada com muita frequência nesta legislatura?
Eu não vejo isso não. O presidente do Congresso, senador Rodrigo Pacheco, é do diálogo até demais; o presidente Arthur Lira, da mesma forma. Tem que haver um ponto de equilíbrio e isso está acontecendo, mas lógico, o presidente do Senado vai puxar um pouco para o Senado e o presidente da Câmara vai puxar um pouco para a Câmara. De vez em quando há alguns embates, mas isso desde que foi fundado o Congresso Nacional com Câmara e Senado sempre acontece e há algumas discussões mais acaloradas, depois acalma. Eu tenho 4 anos e meio no Senado e desde que cheguei é assim. Quando eu cheguei o presidente era Davi Alcolumbre e era a mesma discussão com o Rodrigo Maia e dali a pouco estavam se beijando e abraçando. O parlamento sempre vai ser assim, não vai ter refresco não, vai ter essas discussões.
O senhor apoiou a candidatura do ex-presidente Jair Bolsonaro na última eleição e hoje seu partido compõe o governo Lula, faz parte da base de apoio do governo. Como o seu eleitor compreende essa mudança de posicionamento?
O eleitor hoje é bem informado. Eu apoiei o presidente Bolsonaro em 2022 e ele não foi eleito. Não tem como eu apoiá-lo agora como presidente da República, ele não foi eleito. Eu tenho a minha responsabilidade com o meu estado, com os municípios e com o nosso país. Hoje eu sou presidente de uma comissão que, no momento, é a mais importante porque toda a economia está dentro dessa comissão, e não posso em hipótese alguma ser irresponsável de, na minha fala, dizer que eu sou contra porque sou contra. Tem pessoas que dizem que são oposição por ser oposição, não sabem nem dizer por que estão contra determinado projeto. “Sou contra porque sou contra”. Isso comigo nunca funcionou, eu não faço política olhando pelo retrovisor. As pautas positivas para o país e principalmente para o estado eu vou defender, como foi no governo passado, quando muitas das matérias eu não apoiei e fui bem claro no meu posicionamento. Meu partido tem três ministérios, ele é de centro, não tem extremismo e da mesma forma que está no governo Lula com três ministérios importantes também está no governo de São Paulo, com Tarcísio de Freitas. O presidente do PSD, Gilberto Kassab, é da equipe do Tarcísio. Não tem radicalismo nenhum. Meu posicionamento sempre vai ser de centro, não vou ser extremo hora nenhuma, nunca fui e não vai ser agora. Estou procurando resolver os problemas que me chegam do governo do estado, dos municípios, das entidades filantrópicas, tudo precisa do governo federal e muitas vezes do governo do estado. Eu não apoiei o governador Ronaldo Caiado, tivemos uma chapa em que o Major Victor Hugo foi candidato a governador, mas hora nenhuma eu deixei de atender o governador Ronaldo Caiado, as reivindicações dele com relação ao governo do estado, tenho um bom entendimento com o governador e da mesma forma com Victor Hugo. Elegemos Wilder Morais, que está ajudando muito o estado. Nosso trabalho é assim, eu não vou ficar em hipótese alguma virando as costas para os prefeitos, entidades filantrópicas e nem para o governo do estado, trabalhando contra o governo federal em matérias importantes para o estado e para o país.
O senhor aparece bem nas pesquisas de intenção de votos para eleição para prefeito de Goiânia, tem em torno de 25%, o mesmo percentual de votos que obteve no primeiro turno da eleição de 2020. De 2004 para cá, o senhor participou de praticamente todas as eleições. Esse recall eleitoral pode levá-lo a disputar novamente a prefeitura da capital?
É natural que eu tenha esses números nas pesquisas, porque já disputei várias eleições, inclusive duas eleições em Goiânia, uma com Iris Rezende Machado, saudoso Íris, fomos para o segundo turno, e a última, uma eleição mais traumática, fomos também para o segundo turno das eleições. É natural que meu nome apareça bem nas pesquisas. A chance de eu disputar é muito grande. Não vou dizer que não tenho vontade de ser prefeito da nossa capital. Qual o político no estado de Goiás que não tem essa vontade? Mas não quero ser candidato de mim mesmo, por isso que vou tomar uma decisão madura, logo no início do ano que entra, para ver se é o que o eleitor quer. Já disputei duas vezes e, no momento, tenho um espaço aqui no Senado Federal, que conquistei, e através deste espaço tenho tido a oportunidade de ajudar muito o estado, os municípios, as entidades filantrópicas, o trabalho com câncer que fazemos é muito grande. Eu só tenho que agradecer a população pelo reconhecimento, que é importante depois de tudo que passei. Eu fui muito bombardeado, principalmente na recondução do senador Rodrigo Pacheco. A extrema direita fez um trabalho contra nossa pessoa, deixando de lado tudo o que fizemos pelo estado de Goiás. Estar, segundo pesquisas, com uma das menores rejeições em Goiânia é muito importante para mim e sou muito grato ao eleitor goianense.
Como vai ser a participação do senhor na eleição em Senador Canedo?
Senador Canedo me projetou para a política, me deu a oportunidade de disputar duas vezes o cargo de governador do Estado, duas vezes o cargo de prefeito de Goiânia e hoje eu sou senador da República graças à visibilidade que Senador Canedo me deu. Em hipótese alguma, posso estar em cargo que estiver ou em qualquer projeto, eu vou deixar de ajudar e de ter meus olhos voltados também para Senador Canedo. A população de Senador Canedo pode ter certeza que, no momento certo, vamos ver em qual projeto vou estar ou se vou acompanhar o prefeito Fernando Pellozo.
O senhor pode vir a apoiar a reeleição de Fernando Pellozo?
Sim, não há porque não (apoiar). Vai depender muito do prefeito e das circunstâncias que vai estar em Senador Canedo. No último censo foi a cidade que mais cresceu no país, mas não cresceu só em número de habitantes. É uma cidade que cresceu e desenvolveu pelo planejamento que foi feito ainda na na nossa primeira gestão, quando planejamos Senador Canedo 30 anos para frente. Não pode parar, precisamos retomar aquele ritmo dos pólos de desenvolvimento, não foi criado nenhum mais, do anel viário,temos projetos macros para Senador Canedo continuar crescendo e chegar em 2035 com o que foi planejado ainda em 2005, uma cidade de 250 a 280 mil habitantes com qualidade de vida, com geração de emprego. Essa foi a cidade que eu planejei. Parou alguns anos com relação ao saneamento básico e precisa retomar com força, mas o prefeito Fernando tem uma atenção especial em relação ao saneamento. Temos que olhar a cidade como um todo. Ela me deu essa experiência, tanto é que todos os projetos que apresentei para Goiânia nas eleições de 2026 e 2020 foi a partir da experiência que eu tive lá em várias áreas. Os pólos desenvolvimento fazem falta para Goiânia e eu não entendo até hoje porque não teve nenhum governante que procurou fazer os polos para gerar emprego e renda e firmar as pessoas na região. Nós debatemos demais isso em 2016 e 2020 e não foi feito nenhum. Ficam tratando de fazer um investimento no transporte coletivo que fica emperrado e não procuram firmar as pessoas na região. Tem muita coisa que pode ser feita e a experiência em Senador Canedo que serve para Goiânia e para qualquer cidade. Senador Canedo é uma cidade próspera, de oportunidade, que recebe gente não só de Goiás, mas de muitos estados, porque tem emprego e qualidade de vida. Isso nós precisamos para nossa capital. Aliás, tem que ter em todas as cidades.













