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Açúcar em excesso na infância pode ampliar risco de demência décadas depois, afirma pesquisa

Pesquisa com mais de 64 mil pessoas indica que a restrição do ingrediente na gestação e nos dois primeiros anos de vida esteve relacionada à redução do risco e ao surgimento mais tardio dos sintomas


Redação Tribuna do Planalto Por Redação Tribuna do Planalto em 08/08/2026 - 07:48

Açúcar em excesso na infância pode ampliar risco de demência décadas depois afirma pesquisa
(Foto: Reprodução)

Os efeitos de uma alimentação rica em açúcar durante a gestação e no início da infância podem aparecer somente várias décadas depois. Estudos recentes apontam que a nutrição nessa etapa decisiva do desenvolvimento participa da formação da reserva cognitiva, mecanismo que ajuda o cérebro a enfrentar as alterações provocadas pelo envelhecimento e por doenças neurodegenerativas. Para o médico nutrólogo e intensivista Dr. José Israel Sanchez Robles, as evidências mostram que os cuidados com a saúde cerebral devem começar ainda nos primeiros anos de vida.

“A gestação e os primeiros anos de vida representam uma janela crítica para o desenvolvimento cerebral. Nesse período, o cérebro passa por intensa formação de conexões neurais e por processos fundamentais de maturação que influenciam a aprendizagem, a memória e o desempenho cognitivo. A nutrição adequada nessa fase não determina apenas o crescimento infantil, mas também pode exercer impacto duradouro sobre a saúde cerebral e a capacidade de enfrentar o envelhecimento nas décadas seguintes.”, explica o médico.

Publicado na revista científica Neurology, o estudo avaliou informações de mais de 64 mil pessoas nascidas no Reino Unido durante e após a Segunda Guerra Mundial. Na época do conflito, o governo britânico estabeleceu o racionamento de diferentes alimentos, entre eles o açúcar, cuja comercialização sem restrições foi retomada apenas em 1953.

Esse contexto histórico possibilitou que os pesquisadores comparassem grupos submetidos a diferentes níveis de consumo do ingrediente durante a gestação e a primeira infância. Os participantes foram acompanhados por um período de até 15 anos. Na análise, os cientistas também consideraram fatores como idade, sexo, hipertensão e diabetes.

Os resultados mostraram que a limitação do consumo de açúcar desde a gestação até o primeiro ano de vida esteve associada a um risco 21% menor de demência. Entre as pessoas que permaneceram expostas à restrição até os dois anos, a redução chegou a 23%. Nesse grupo, os primeiros sintomas da doença também apareceram, em média, dois anos e meio mais tarde.

“Uma redução de 23% no risco é um achado clinicamente relevante, sobretudo diante de uma doença complexa, multifatorial e ainda sem cura. No entanto, é essencial compreender que os resultados apontam para uma associação estatística, e não para uma relação causal. Em outras palavras, o estudo não permite afirmar que o consumo de açúcar, isoladamente, seja responsável pelo desenvolvimento da demência.”, ressalta o Dr. José Israel.

Uma parcela dos participantes foi submetida a exames de ressonância magnética cerebral. As imagens indicaram que as pessoas que viveram sob o racionamento apresentavam maior volume total de substância cinzenta e menor quantidade de alterações na substância branca. Essas características costumam estar relacionadas a condições mais favoráveis de preservação cerebral.

Os autores, entretanto, destacam algumas limitações da pesquisa. Por se tratar de um estudo observacional baseado em um episódio histórico, não houve acompanhamento planejado dos participantes desde o nascimento. Além disso, não é possível separar completamente a influência do açúcar de outras circunstâncias sociais, alimentares e comportamentais existentes naquele período.

Mesmo sem comprovar uma relação direta de causa e efeito, os pesquisadores consideram que a associação possui plausibilidade biológica. O consumo frequente e excessivo de açúcar contribui para problemas como obesidade, resistência à insulina, diabetes e hipertensão, condições que já são reconhecidas como fatores relacionados ao maior risco de declínio cognitivo.

“O impacto do açúcar sobre a saúde cerebral parece ocorrer, em grande parte, por mecanismos indiretos. Uma alimentação rica em açúcares adicionados favorece o desenvolvimento de obesidade, resistência à insulina, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. Ao longo do tempo, essas alterações comprometem a função vascular, aumentam o estresse oxidativo e a inflamação sistêmica, criando um ambiente biológico associado ao maior risco de comprometimento cognitivo e demência.”, afirma o nutrólogo.

Os resultados não significam que gestantes e crianças devam eliminar todos os carboidratos da alimentação. Frutas, leite, cereais e outros alimentos naturais também contêm açúcares, mas oferecem fibras, vitaminas, minerais e diferentes nutrientes necessários ao crescimento e ao funcionamento adequado do organismo.

A principal preocupação está no consumo habitual de açúcares adicionados, presentes especialmente em doces, refrigerantes, bebidas açucaradas e produtos ultraprocessados. A recomendação é priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, sem adotar restrições radicais ou dietas sem orientação profissional.

“Os achados não justificam medidas radicais nem devem ser interpretados como motivo de culpa para as famílias. A principal mensagem é preventiva: durante os primeiros anos de vida, recomenda-se priorizar uma alimentação baseada em alimentos in natura ou minimamente processados e evitar a introdução precoce de produtos com alto teor de açúcares adicionados. Mais do que restringir um único nutriente, o objetivo é favorecer um padrão alimentar capaz de sustentar o desenvolvimento saudável do cérebro e do organismo como um todo.”, orienta Dr. José Israel.

Outros trabalhos científicos também relacionam padrões alimentares equilibrados a uma proteção maior do sistema neurológico. Um dos exemplos é a dieta Mind, que combina princípios das dietas mediterrânea e Dash e incentiva o consumo de verduras, frutas vermelhas, grãos integrais, peixes, azeite de oliva e castanhas. Pesquisas associam esse padrão a menores riscos de neurodegeneração, mortalidade e envelhecimento biológico acelerado.

A substituição do açúcar por adoçantes artificiais também exige cautela. Essas substâncias não devem ser consideradas automaticamente inofensivas. Uma pesquisa brasileira que acompanhou mais de 12 mil pessoas durante oito anos identificou uma associação entre o consumo elevado de adoçantes e uma taxa 62% maior de declínio cognitivo global.

Para o Dr. José Israel, os dados ajudam a ampliar a compreensão sobre a prevenção das doenças neurodegenerativas, mostrando que a proteção do cérebro não depende apenas de cuidados adotados durante a velhice.

“A saúde cerebral não começa a ser construída na terceira idade. Ela é resultado da interação entre fatores que atuam ao longo de toda a vida, como alimentação, prática regular de atividade física, qualidade do sono, controle dos fatores de risco cardiovasculares e estímulo cognitivo e social. Quanto mais precocemente esses hábitos são incorporados, maior tende a ser a reserva cognitiva e, potencialmente, a capacidade do cérebro de enfrentar o processo de envelhecimento.”, conclui.

 

Redação Tribuna do Planalto

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