Ansiedade lidera como principal causa de incapacidade em todas as faixas etárias entre 5 e 29 anos; suicídio é terceira causa de morte prematura entre adolescentes.
Mais de 15,6 milhões de crianças, adolescentes e jovens adultos brasileiros de 5 a 29 anos convivem com pelo menos um transtorno mental. O número equivale a 20,91% da população nessa faixa etária, segundo estudo publicado na revista The Lancet Regional Health – Americas . A pesquisa, liderada pelo psiquiatra Christian Kieling, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do Hospital Moinhos de Vento, utilizou dados do Global Burden of Disease (GBD) 2023.
Entre os jovens dessa faixa etária, outros 2,5 milhões (3,36% do total) preenchem critérios para transtornos relacionados ao uso de substâncias . O levantamento é o primeiro a detalhar a situação por faixas etárias de cinco em cinco anos, revelando que a prevalência cresce com a idade: mais de 10% das crianças de 5 a 9 anos já apresentam algum transtorno mental, proporção que se aproxima de 25% entre pessoas de 25 a 29 anos.
Ansiedade e depressão no topo das causas de incapacidade
Os transtornos de ansiedade aparecem como a principal causa de incapacidade em todas as faixas etárias analisadas, superando qualquer doença física . A partir dos 15 anos, ansiedade e depressão ocupam, respectivamente, o primeiro e o segundo lugares no ranking geral de causas de incapacidade, com impacto maior entre meninas e mulheres . Já os transtornos relacionados ao álcool e outras drogas predominam entre homens a partir dos 20 anos.
O estudo registra 5.402 mortes anuais por suicídio entre pessoas de 10 a 29 anos no Brasil, sendo 77% das vítimas homens . A taxa por 100 mil habitantes sobe de 1,24 entre 10 e 14 anos para 13,43 entre 25 e 29 anos. A partir dos 15 anos, o suicídio se torna a terceira causa de morte prematura entre todas as causas monitoradas pelo GBD no país.
Necessidade de políticas públicas e lacuna de dados
Claudia Buchweitz, primeira autora do estudo, afirma que os números apontam para a necessidade de políticas específicas de prevenção voltadas principalmente a jovens do sexo masculino, um grupo historicamente pouco alcançado pelos serviços de saúde mental . Os pesquisadores defendem que a saúde mental passe a ocupar papel central nas políticas públicas voltadas à infância e à juventude.
O estudo também revela uma lacuna na produção de dados nacionais, concentrados quase inteiramente em São Paulo e Rio Grande do Sul, com escassez de informações das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste . “Esse volume limitado reflete e contribui para a falta de atenção à saúde mental dos jovens no Brasil”, diz Buchweitz . Entre as propostas apresentadas estão a ampliação do atendimento em escolas e serviços comunitários, maior transparência na aplicação de recursos do SUS e a criação de serviços específicos para adolescentes e jovens, inspirados em experiências como o programa australiano Headspace.
Jovens e familiares que precisem de apoio emocional podem buscar o Centro de Valorização da Vida (CVV) pelo telefone 188, disponível 24 horas. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento gratuito em saúde mental nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). O programa “Pode Falar”, do Unicef, é um canal anônimo e gratuito para jovens de 13 a 24 anos no site podefalarbr.org. Em caso de emergência ou crise, procure a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mais próxima ou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) pelo 192.
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