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Calor e mudanças no clima podem fortalecer bactéria que causa infecções alimentares

Estudo internacional aponta que aumento das temperaturas e alterações nas chuvas estão ligados ao avanço da resistência da salmonela aos antibióticos


Dhayane Marques Por Dhayane Marques em 04/06/2026 - 10:30

Color-enhanced scanning electron micrograph showing Salmonella typhimurium (red) invading cultured human cells.

As mudanças climáticas podem estar criando um cenário cada vez mais favorável para um inimigo silencioso da saúde pública: as bactérias resistentes aos antibióticos. Um estudo internacional acaba de revelar que o aumento das temperaturas e as alterações nos padrões de chuva têm contribuído para fortalecer a salmonela, bactéria responsável por milhões de casos de infecções alimentares em todo o mundo.

A pesquisa analisou cerca de 500 mil genomas de diferentes tipos de salmonela coletados em 139 países ao longo de mais de oito décadas. Os resultados mostram que a presença de genes associados à resistência antimicrobiana cresceu 38% em relação aos níveis observados antes de 2010.

Mais do que identificar esse avanço, os cientistas conseguiram relacionar parte do fenômeno às transformações climáticas registradas nas últimas décadas. Segundo o levantamento, o aquecimento global e as mudanças no regime de chuvas responderam por aproximadamente 10% do aumento da resistência observado globalmente, com crescimento registrado na maioria dos países analisados.

O problema preocupa especialistas porque a resistência antimicrobiana reduz a eficácia dos medicamentos utilizados para combater infecções bacterianas. Em muitos casos, tratamentos que antes apresentavam bons resultados passam a ter efeito limitado, aumentando o risco de complicações e dificultando a recuperação dos pacientes.

A salmonela é uma das principais causas de doenças transmitidas por alimentos contaminados. Estima-se que cerca de 550 milhões de pessoas sejam infectadas anualmente em todo o mundo. Crianças pequenas estão entre os grupos mais vulneráveis, representando aproximadamente 220 milhões desses casos.

De acordo com os pesquisadores, temperaturas mais altas aceleram o metabolismo e a reprodução das bactérias. Esse processo favorece o surgimento de mutações genéticas que podem tornar os microrganismos mais resistentes aos medicamentos disponíveis.

Além disso, eventos climáticos extremos e alterações ambientais podem aumentar a circulação de doenças infecciosas, pressionando os sistemas de saúde e elevando o consumo de antibióticos. Quanto maior o uso desses medicamentos, maior também a chance de seleção de bactérias capazes de sobreviver aos tratamentos.

Outro ponto de atenção é o crescimento das chamadas cepas multirresistentes, que conseguem resistir a vários tipos de antibióticos ao mesmo tempo. Esse cenário dificulta o tratamento de infecções mais graves e aumenta os riscos de internações prolongadas e mortes.

A pesquisa aponta que a tendência de crescimento da resistência deve continuar nas próximas décadas. As projeções indicam aumento da circulação desses genes em todas as regiões do planeta até o fim do século.

Apesar disso, os cientistas destacam que o avanço pode ser reduzido com ações coordenadas de combate às mudanças climáticas, uso racional de antibióticos e fortalecimento dos sistemas de monitoramento epidemiológico.

Especialistas defendem investimentos em vigilância, produção de dados locais e estratégias que permitam acompanhar a evolução das bactérias resistentes. Segundo eles, compreender melhor a relação entre clima e saúde será fundamental para enfrentar um dos maiores desafios sanitários das próximas décadas.

O estudo reforça que as mudanças climáticas não impactam apenas o meio ambiente. Seus efeitos já alcançam áreas como segurança alimentar, controle de doenças e eficácia dos tratamentos médicos, ampliando desafios que exigem respostas globais e de longo prazo.

Dhayane Marques

Dhayane Marques é jornalista formada pela PUC-GO. Atualmente é Diretora de Programas da TV Pai Eterno e repórter no jornal Tribuna do Planalto e Tribuna de Anápolis, nas editorias de cidades, educação, economia, agro, diversão e arte.

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