Os chatbots podem incentivar e alimentar delírios que são típicos de quadros psicóticos, indica um estudo inédito baseado em centenas de milhares de mensagens reais trocadas entre pacientes psiquiátricos e robôs. Além disso, os modelos de linguagem falham nos momentos em que deveriam desencorajar pensamentos suicidas e de violência contra si ou outras pessoas .
A análise é liderada pelo pesquisador Jared Moore, da Universidade Stanford, e também reúne cientistas de outras instituições, como Harvard, a Universidade de Chicago e Carnegie Mellon. A pesquisa foi aceita e será apresentada no fim deste mês na FAccT (Conference on Fairness, Accountability, and Transparency), uma das principais conferências acadêmicas dedicadas aos impactos sociais, éticos e políticos da inteligência artificial.
Análise do estudo
O estudo, que passou por revisão por pares, é a maior análise até agora feita a partir de uma base de dados de mensagens reais de usuários que relataram danos psicológicos relacionados à interação com chatbots, 19 pessoas ao todo. São quase 400 mil mensagens, em um total de quase 5.000 conversas — mais de 80% dos casos envolveram o ChatGPT, da OpenAI. A coleta de dados foi realizada pelos autores entre setembro de 2025 e janeiro de 2026 .
Até então, as pesquisas em geral tratavam da análise de casos específicos ou faziam simulações de delírios psicóticos para avaliar como os robôs reagiriam .
Falhas na prevenção de riscos
A pesquisa de Stanford indica falhas na prevenção de riscos. Embora os chatbots tenham reconhecido o sofrimento dos usuários na maior parte das vezes (66%), só em pouco mais da metade dos casos (56%) os robôs desencorajaram ideias de agressão contra si. Quando os usuários expressavam pensamentos violentos, os robôs só desencorajavam a violência em 16,7% dos casos. Ao mesmo tempo, em um terço dos episódios, os chatbots estimularam ativamente ou facilitaram os pensamentos violentos .
Uma das pessoas que teve as conversas incluídas no estudo chegou a expressar planos de cometer um atentado contra funcionários de uma empresa de IA, a quem acusava de ter matado sua namorada virtual. O chatbot não desestimulou a ideia e até encorajou um ato de vingança. Outro usuário entrou em um delírio de que a OpenAI estaria cometendo um genocídio e morreu por suicídio durante a interação .
“São números significativos, na medida em que envolvem desfechos graves”, diz Rodrigo Martins Leite, psiquiatra assistente do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo). “A forma como a IA interage sem dúvida é combustível para indivíduos que estejam num episódio psicótico ou começando a ter sintomas psicóticos. É gasolina na fogueira” .
Comportamento adulador e validação
A pesquisa de Stanford aponta traços dos chatbots que podem explicar essa ideia de “gasolina na fogueira”. O principal deles é a tendência a adular os usuários, reforçando suas crenças — essa característica aparece em mais de 70% das mensagens, 45% das quais trazem sinais de ideias delirantes. Os robôs com frequência repetiam e extrapolavam o que os usuários diziam, numa tentativa de validar os pensamentos deles, alimentando crenças de grandeza .
“O problema da psicose é a pessoa padecer da confirmação excessiva das próprias crenças. Ela tem crenças inflexíveis, e a IA parece corroborar ao indivíduo a veracidade delas”, diz Martins Leite. “A grande questão é que a interação com robôs é algo em escala muito grande, nunca visto. E, em geral, esses indivíduos se isolam da sociedade, ficam no próprio mundo, acabam perdendo um ‘feedback’ social” .
A maioria dos casos em análise envolveu o ChatGPT-4o, que se destacou por esse comportamento adulador e gerou processos judiciais contra a OpenAI, acusando o robô de provocar espirais delirantes e suicidas, com casos que resultaram em morte. Um dos mais notórios foi o suicídio do adolescente Adam Raine, de 16 anos, após uma interação prolongada com o ChatGPT. A família dele processa a OpenAI na Justiça, sustentando que o robô contribuiu para a morte do filho .
A crença de que o modelo tem consciência, a conexão emocional com o chatbot e o interesse amoroso no robô apareceram em todos os 19 casos avaliados na pesquisa de Stanford .
O que diz a OpenAI
Procurada, a OpenAI afirmou que as pessoas às vezes recorrem ao ChatGPT em momentos sensíveis e que está focada em garantir respostas cuidadosas, com a orientação de especialistas. A empresa disse ter treinado o sistema com especialistas em saúde mental, criado mecanismos para detectar sinais de crise e direcionar usuários a ajuda profissional, além de adotado controles parentais e restrições mais rígidas para adolescentes .
Em um segundo artigo científico, ainda sem revisão de pares, os cientistas buscaram responder se os chatbots só acompanham os usuários em crenças delirantes ou se exercem um papel ativo. A resposta é que os dois lados influenciam o processo, mas de maneiras e em escalas de tempo diferentes. O chatbot exerce uma influência mais duradoura ao validar a narrativa, reafirmar pressupostos, expandir hipóteses delirantes e manter a coerência interna da história criada.
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