Uma faixa de terra cercada por cachoeiras, serras e histórias centenárias tem sido parte de uma disputa que pode redefinir fronteiras no Brasil. Localizada entre os estados de Goiás e Tocantins, a região conhecida como Quilombo Kalunga dos Morros, ao norte de Cavalcante, tornou-se palco de um impasse que mistura geografia, política e identidade cultural.
O caso está sendo analisado pelo Supremo Tribunal Federal, por meio de uma ação movida pelo governo goiano, que alega que cerca de 12,9 mil hectares foram ocupados irregularmente por Tocantins. A área inclui o famoso Complexo do Prata, um dos destinos mais procurados por turistas que visitam a Chapada dos Veadeiros.

Mas o que torna essa disputa ainda mais curiosa é sua origem: um possível erro cartográfico cometido em 1977. Um mapa elaborado pelo Exército Brasileiro teria confundido o Rio da Prata com o Córrego Ouro Fino, gerando uma interpretação equivocada sobre os limites entre os dois estados — um detalhe técnico que, décadas depois, se transformou em um conflito territorial real.
Na prática, a disputa vai muito além de linhas no mapa. Moradores relatam incertezas sobre serviços básicos, como saúde, educação e até registros civis. Muitos afirmam que sempre viveram sob a administração de Goiás e temem mudanças que possam afetar sua rotina e identidade.
Durante uma visita técnica recente, equipes do governo goiano percorreram a região, ouviram lideranças locais e coletaram dados para reforçar a defesa no processo. O procurador-geral do estado, Rafael Arruda, destacou que a ação busca restabelecer a “verdade geográfica e jurídica” do território.
Enquanto isso, relatos dos moradores revelam o lado humano da disputa. Famílias inteiras, que há gerações vivem na região, agora convivem com dúvidas sobre qual estado pertencem. Para comunidades tradicionais, como os Kalunga, a preocupação vai além da burocracia: envolve a preservação de sua cultura e território histórico.
A situação também traz impactos econômicos. A possível perda populacional registrada no censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística já afetou repasses financeiros ao município de Cavalcante, aumentando a pressão por uma definição.
Uma audiência de conciliação já foi marcada pelo STF e pode ser decisiva para o futuro da região. Até lá, o trecho entre Goiás e Tocantins segue como um dos pontos mais curiosos — e disputados — do mapa brasileiro, onde natureza exuberante e incerteza territorial caminham lado a lado.















