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Cultura, Bolsonarismo e o Caso Vorcaro: quando a extrema direita demoniza a arte, mas busca dinheiro para sua própria propaganda


Por Rodrigo Zani em 15/05/2026 - 11:07

(Montagem: Agência Pública)

A extrema direita brasileira tem uma relação historicamente hostil com a cultura. Na verdade, mais do que aversão, existe um verdadeiro projeto de desqualificação da produção cultural nacional. E por quê? Apenas por ignorância? Talvez exista também ignorância, mas há sobretudo estratégia política.

A cultura desperta consciência. A cultura amplia horizontes. A cultura fortalece senso crítico. Um povo que lê, assiste cinema, frequenta teatro, conhece música, literatura e artes desenvolve maior capacidade de compreender sua própria realidade social e política. E isso incomoda profundamente setores autoritários que dependem justamente da desinformação, da simplificação grosseira do debate público e da manipulação emocional das massas.

O Brasil possui uma das culturas mais ricas do planeta. Nossa música, nosso cinema, nossa literatura, nossas artes populares e regionais são patrimônios gigantescos. E, ao contrário do complexo de vira-lata cultivado por parte da direita brasileira, a produção cultural brasileira frequentemente alcança profundidade humana e social muito superior ao entretenimento pasteurizado produzido pela indústria norte-americana.

Imagine um país onde os mais pobres tenham amplo acesso a cinema nacional, teatro, bibliotecas, festivais culturais e formação artística. Teríamos uma população mais crítica, mais consciente de seus direitos e menos vulnerável ao discurso extremista. É justamente por isso que a cultura se torna inimiga natural da extrema direita.

Nessa semana, veio à tona um áudio envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, filho do principal líder da extrema direita brasileira, Jair Bolsonaro. No conteúdo divulgado, Flávio aparece cobrando recursos do empresário Daniel Vorcaro, figura cercada por denúncias e suspeitas relacionadas ao sistema financeiro. O dinheiro, segundo as informações que circulam nos bastidores políticos, teria relação com o financiamento de um filme promocional sobre o próprio Jair Bolsonaro.

O episódio é, ao mesmo tempo, cômico e revelador.

Os mesmos grupos políticos que passaram anos atacando leis de incentivo à cultura — especialmente a Lei Rouanet — agora aparecem buscando financiamento privado para produzir conteúdo político e audiovisual favorável ao bolsonarismo. Ou seja: demonizam políticas públicas de incentivo cultural quando elas democratizam acesso à arte, mas recorrem aos mecanismos de financiamento quando lhes interessa produzir propaganda ideológica.

Essa contradição expõe algo importante: cultura também é economia. Cultura gera emprego. Cultura movimenta cadeias produtivas inteiras. Técnicos, produtores, roteiristas, atores, cinegrafistas, músicos, figurinistas, iluminadores e milhares de trabalhadores dependem desse setor. Atacar a cultura significa atacar empregos, renda e desenvolvimento econômico.

Flávio Bolsonaro precisa explicar publicamente qual era exatamente sua relação com Daniel Vorcaro e qual a natureza dessas tratativas. Ainda mais porque, na mesma semana, outro nome importante do bolsonarismo, o senador Ciro Nogueira, também apareceu associado politicamente ao banqueiro.

É evidente que todos possuem direito à presunção de inocência e ao devido processo legal. Isso é fundamento básico do Estado Democrático de Direito. Nenhuma condenação pode ocorrer sem investigação, provas e decisão judicial. Porém, na arena política, o julgamento também ocorre no campo simbólico e narrativo. E nesse terreno, figuras públicas precisam prestar contas à sociedade sobre suas relações, interesses e articulações.

Quanto mais surgem conexões entre personagens centrais do bolsonarismo e Daniel Vorcaro, mais difícil se torna tratar esses episódios como meras coincidências isoladas.

No fim das contas, atacar a cultura brasileira e suas políticas públicas de incentivo é atacar o próprio Brasil. Poucas coisas conseguem unir um país tão diverso quanto sua cultura. Nossa música, nossa culinária, nossas festas populares, nosso cinema, nossas tradições regionais e nossa produção artística ajudam a construir identidade nacional e soberania cultural.

O caso Vorcaro também não pode terminar apenas como mais um escândalo momentâneo. Se houver crimes, todos os responsáveis devem responder dentro da lei. Mas o problema vai além de indivíduos específicos. O Brasil precisa urgentemente de reformas estruturais capazes de impedir que figuras com enorme poder econômico e influência financeira capturem setores da política e da vida pública.

Porque, se nada mudar, o país continuará produzindo novos “Vorcaros” em série — e os próximos escândalos poderão ser ainda maiores.

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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