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Desafios da Governança Familiar

Melina Lobo é Conselheira de Administração e advogada


Por em 16/06/2024 - 11:05

Estamos cada vez mais longevos, ativos e dinâmicos. Essa realidade está presente em toda a sociedade e, notadamente, nas empresas. O sonho da aposentadoria precoce não é de todos e há muitos que querem permanecer trabalhando ao longo de toda a vida, principalmente se são os fundadores de um negócio de sucesso.

Assim, as empresas familiares possuem um grande desafio: planejar e organizar a sucessão!

Quanto mais ativo e dinâmico o fundador, mais desafiador o processo de sucessão, pois permanecer no trabalho é elemento para a própria definição de sua identidade como ser humano produtivo e colaborativo.

No entanto, a sucessão é apenas a ponta de um grande iceberg. Um olhar mais profundo indica outros desafios de mesmo grau de importância. São eles: inovação, remuneração e comunicação. Para o sucesso e durabilidade do empreendimento, é necessária a conjugação de todos esses desafios.

Estamos o tempo todo negociando uns com os outros, inovando para não estarmos fora do mercado e buscando a remuneração necessária para sustentar nosso estilo de vida. Além disso, todos nós morreremos um dia e teremos que passar nosso bastão adiante.

E o pior é que essa difícil combinação de atitudes positivas deve ser tomada em um ambiente de grande complexidade, pois a dinâmica das sociedades familiares envolve questões de ordem emocional, legal, patrimonial e administrativa.

Nessas ocasiões, não basta apenas o conhecimento, a experiência de vida e o sucesso financeiro do negócio, mas elevado grau de maturidade e flexibilidade, de saber lidar com perdas: de poder, de identidade e, às vezes, de lucros imediatos.

Mas os desafios não precisam, necessariamente, ser dolorosos. Há formas de organizar e priorizar cada desafio a seu próprio tempo, tais como o acordo de acionistas, a instauração do conselho de administração ou consultivo e a profissionalização da gestão através de sistemas de governança corporativa.

A racionalidade da economia e das finanças não é suficiente  para um saudável processo de enfrentamento desses desafios da governança familiar. Devem ser levados em consideração os sentimentos que estão presentes na vida das pessoas e das empresas, notadamente as relações familiares.

Considere-se, ainda, que da segunda geração em diante, na sociedade familiar, há sócios que não se escolheram mutuamente e pode, simplesmente, não estar presente o desejo de manter o vínculo societário. Para uma sobrevivência saudável das empresas, é necessária a existência do que o direito define como “affeccio societatis”, ou seja, a afeição, o desejo de permanecer junto.

É preciso coragem para olhar para dentro da empresa familiar e verificar se há o desejo de manter o vínculo societário. É necessária maturidade do fundador para ouvir e acolher as escolhas de cada herdeiro. É possível a profissionalização da gestão, deixando que os herdeiros, permaneçam donos, proprietários, com direito a voto, mas sem gestão, se for o melhor caminho para manutenção do vínculo familiar e societário.

Há inúmeras possibilidades que podem ser aplicadas de acordo com cada realidade familiar e empresarial. Em pleno Século XI, precisamos conhecer, escolher, tentar, inovar, reinventar nossa forma de viver, principalmente, diante de um negócio de sucesso para que ele permaneça próspero e rentável.  Os desafios da governança familiar, caso sejam bem gerenciados, trarão consistência para as relações familiares e empresariais.