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Eleições 2026 pode redesenhar forças políticas para a disputa municipal de 2028

Para a cientista política Silvana Krause, efeitos das eleições gerais sobre o próximo pleito municipal dependerão do novo governo, da composição do Congresso e dos rearranjos entre as forças políticas


Carla Borges Por Carla Borges em 05/10/2026 - 12:30

Eleições 2026 pode redesenhar forças políticas para a disputa municipal de 2028
Foto: Imagem gerada por IA

As eleições gerais de 2026 não terminarão nas urnas de outubro. Embora presidente, governadores, senadores e deputados sejam escolhidos neste ano, os resultados deverão produzir efeitos sobre a reorganização das forças políticas para as eleições municipais de 2028. A dimensão dessas mudanças, porém, dependerá de fatores que só estarão definidos depois da eleição e no início dos novos mandatos, como a formação do novo governo, a composição do Congresso e as alianças construídas a partir de 2027.

Essa é a avaliação da cientista política Silvana Krause, professora da pós-graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coautora do livro Eleições municipais e o que elas antecipam para 2026. A obra, organizada por Krause, Antonio Lavareda e Helcimara Telles, analisa como os resultados de 2024 ajudam a compreender a disputa deste ano e, por consequência, os movimentos que poderão se projetar sobre o próximo ciclo municipal.

Para Krause, contudo, não é possível estabelecer uma transferência automática entre eleições gerais e municipais. Cada pleito possui dinâmica própria, e alianças formadas em uma eleição nacional podem não se repetir dois anos depois nos municípios. “São eleições distintas, com alianças e arranjos políticos igualmente diferentes entre si”, afirma.

O impacto de 2026 sobre 2028 dependerá, portanto, principalmente de como as forças políticas estarão organizadas depois da posse dos eleitos. O comportamento do próximo presidente, a relação do governo com o Congresso e a formação das maiorias legislativas serão elementos importantes para determinar os novos alinhamentos partidários.

A experiência analisada no livro mostra que os municípios continuam sendo uma das principais bases de organização da política brasileira. Prefeitos, vereadores e lideranças regionais participam da construção das campanhas, formam alianças e mantêm redes de relacionamento que podem ser mobilizadas em eleições estaduais e nacionais. “A alma da política tem sua base no local, nos municípios, no aspecto regional”, afirma Krause.

Por isso, para compreender o que 2026 poderá deixar para 2028, não será suficiente observar apenas os resultados das disputas majoritárias. Também será necessário acompanhar a distribuição das cadeiras no Congresso e nas assembleias legislativas, o desempenho dos partidos nos estados e a formação das novas redes políticas.

Direita radical busca consolidação

Um dos fenômenos que atravessam os dois ciclos eleitorais é a consolidação da direita radical ou ultradireita. Para Krause, o movimento não pode mais ser compreendido apenas como resultado de uma conjuntura específica. “A tendência da direita radical, ou ultradireita, é de cada vez mais se consolidar. É o que se observa não apenas no Brasil, mas em nível mundial. Veio para ficar”, afirma.

O resultado de 2026 poderá, nesse sentido, modificar o equilíbrio interno da direita. A existência de uma direita radical mais organizada não significa, necessariamente, a formação de uma aliança ampla com partidos de centro e da direita tradicional. Para Krause, a fragmentação dessas forças será uma das variáveis que poderão determinar a configuração política posterior à eleição.

Esse processo terá reflexos sobre 2028 porque as alianças nacionais e estaduais estabelecidas a partir de 2027 poderão alterar as disputas municipais. Partidos que hoje estão próximos poderão se afastar, enquanto adversários poderão formar alianças de acordo com os interesses regionais.

O desafio do PSD

O crescimento do PSD também ilustra a diferença entre força local e capacidade de mobilização nacional. O partido teve forte desempenho nas eleições municipais de 2024 e tornou-se a legenda com o maior número de prefeitos no País. Para Krause, essa trajetória confirma a importância das estruturas municipais, mas também evidencia uma dificuldade para transformar capilaridade local em força política nacional. “O PSD nasce no local, onde se organiza. Esta eleição para presidente tem mostrado o problema da mobilização nacional, que não é só do PSD”, afirma.

A situação é especialmente relevante em 2026 porque o partido disputa a Presidência da República com o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado. Para a cientista política, o desempenho nacional de uma legenda não decorre automaticamente de sua presença nos municípios. Um partido com grande número de prefeitos e vereadores dispõe de estruturas locais que podem favorecer novas candidaturas. Mas a capacidade de utilizar essas estruturas em uma disputa nacional ou de transformá-las em alianças estaduais depende de outros fatores, como identidade partidária, liderança e articulação política.

Religião mantém peso eleitoral

A identidade religiosa constitui outro elemento que, segundo Krause, deverá atravessar as eleições de 2026 e chegar ao pleito municipal seguinte. As eleições de 2024 registraram presença expressiva de vereadores evangélicos nas capitais, reforçando a importância das redes religiosas na mobilização política. “A identidade religiosa é um importante mobilizador do eleitorado brasileiro”, afirma.

Para a cientista política, as igrejas possuem uma característica que favorece sua influência: mantêm presença cotidiana nas comunidades e redes de relacionamento que não dependem do calendário eleitoral. A eleição de representantes ligados a grupos religiosos fortalece essas estruturas nos municípios, que podem ser novamente mobilizadas nas disputas seguintes.

Período após as eleições é a principal variável do impacto

Na avaliação de Krause, a principal variável para determinar o impacto de 2026 sobre 2028 estará no período posterior à eleição. A cientista política chama atenção para a fragmentação das forças políticas e para a forma como elas irão se reorganizar depois da definição dos novos governos e legislativos. “A herança de agora para as eleições municipais vai depender muito da fragmentação das forças políticas”, afirma.

A composição do Legislativo será especialmente relevante. Deputados e senadores terão participação nas negociações políticas e na definição da sustentação do governo federal, enquanto deputados estaduais estarão inseridos nas articulações regionais. Dessa forma, a correlação de forças que emergir de 2026 poderá chegar aos municípios por meio de alianças, candidaturas e estruturas partidárias.

Por isso, o efeito das eleições gerais sobre 2028 não estará necessariamente concentrado nos candidatos que vencerem os cargos executivos. A distribuição das bancadas, a capacidade de articulação dos partidos e a sobrevivência das redes políticas construídas durante a campanha poderão ser igualmente importantes. Ainda assim, a cientista política ressalta que a dinâmica local continua sendo determinante. “A tradição local, o voto local é o grande mobilizador das eleições, tanto gerais quanto municipais”, resume.

“A alma da política tem sua base no local, nos municípios, no aspecto regional”, Silvana Krause, cientista política

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