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Goiás aposta em IA, pesquisa e segurança para atrair empresas de tecnologia

Em entrevista à Tribuna do Planalto, o secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação, José Frederico Lyra Netto, detalha os projetos que sustentam a meta de transformar o Estado em referência nacional no setor


Andréia Bahia Por Andréia Bahia em 26/07/2026 - 07:00

José Frederico Lira Neto fala sobre o futuro da IA em Goiás (Foto: Divulgação)

A inteligência artificial deixou de ser uma promessa para se tornar uma prioridade estratégica do Governo de Goiás. Em entrevista à Tribuna do Planalto, o secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação, José Frederico Lyra Netto, detalha os projetos que sustentam a meta de transformar o Estado em referência nacional no setor. Ele fala sobre os investimentos no Ceia 2.0, a criação do Distrito de Inovação e Inteligência Artificial, o “Vale do Pequi”, a atração de empresas, a aplicação da IA nos serviços públicos e os desafios para preparar trabalhadores para a economia do futuro.

Andréia Bahia e Domingos Ketelbey

TRIBUNA DO PLANALTO

O senhor diz que Goiás vai ser o principal polo de inteligência artificial do Brasil, até da América Latina. O que tem sido feito para que isso se torne uma realidade?

José Frederico Lyra Netto 

Eu diria que são três principais frentes. A primeira tem a ver com o fortalecimento do nosso Centro de Excelência em Inteligência Artificial, o Ceia, uma parceria do governo do estado com a Universidade Federal de Goiás. Isso começou com uma visão que o governador (Ronaldo) Caiado teve, em 2019, da criação desse Centro de Excelência via a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás. Neste ano, o governador Daniel Vilela anunciou um conjunto de investimento expressivo para a nova fase do Ceia, que a gente está chamando de Ceia 2.0. Vão ser R$ 78 milhões em cinco anos para pesquisa em áreas de fronteira da IA, arquitetura de agentes autônomos, carros autônomos, IA para ciências da vida e também IA para governo. Isso junto com outras iniciativas e uma delas vai ser replicar esse centro em outras instituições do estado. Essa é uma frente importante desses investimentos em infraestrutura computacional. O que é isso? Nós precisamos dos chips da GPU para treinar a IA. E o estado já investe nisso junto com o Ceia e vai seguir investindo. Eu diria que a primeira frente é essa, fortalecer e dar o próximo passo nesse centro, que já é o maior centro de aplicação de IA do Brasil, inclusive para um fortalecimento internacional. Na segunda frente, a gente amplia um pouco o espaço e vamos falar do Distrito de Inovação e Inteligência Artificial, lançado pelo governador Daniel Vilela, e que vai concentrar tanto empresas intensivas em tecnologia, quanto centros de pesquisa. E, de novo, o foco é inteligência artificial. Há outros distritos de inovação no Brasil, mas esse é o primeiro distrito de inteligência artificial que já nasce como um distrito de IA. É uma analogia com o Vale (do Silício, nos EUA), um paralelo, obviamente, salvo as proporções. Essa é a segunda frente. E a terceira é a aplicação de inteligência artificial no governo. Goiás saiu na frente com a parceria mais expressiva com o Google para a gente usar o motor da inteligência artificial do Google com os servidores, que irão ter até 20 mil licenças do Gemini, a IA do Google, para fazer um trabalho mais produtivo, automatizar tarefas rotineiras, repetitivas, documentais. A gente espera que no fim do dia o servidor consiga entregar mais para o cidadão. Resumindo, são estratégias em três eixos que vão consolidar o estado como um dos principais, se não o principal polo de inteligência artificial do Brasil. 

Quando o senhor falou da comparação com o Vale do Silício, seria o Vale do Pequi?

Exatamente, é o nome carinhoso que a gente daria aqui, o nosso Vale do Pequi, o nosso aglomerado, a nossa concentração de empresas. Já lançamos o projeto, o Masterplan, e a pedra fundamental no Setor Leste Universitário, porque ali já tem a presença de duas grandes universidades, a Universidade Federal de Goiás e a PUC Goiás, e a parte de talentos, de capital humano, é um pilar importantíssimo no distrito de inovação. Nós vamos construir uma sede para o Ceia no distrito, acho que vai ser importante, e temos também uma boa presença do Sistema S, Senai, a Fatesg, que é a unidade de ensino, o Senac inaugurou uma unidade tecnológica ali perto, o Sebrae está querendo ir para lá. Tem esses componentes que fizeram desse território o ideal para a gente fazer o distrito. 

O governador Ronaldo Caiado se orgulha muito de ter a marca da segurança pública. Dá para falar que tecnologia e inovação vai ser a principal marca dessa gestão, Daniel Vilela? 

Eu não sei se a principal, mas eu diria que vai ser um dos focos, acho que uma das principais marcas. Eu entendo que o governador Daniel seguirá com uma prioridade grande para a segurança pública, vai seguir também com uma prioridade para a educação, para o social, mas ele vai realmente dar um foco em inovação. Até porque tem a ver com o próprio perfil dele. Enquanto parlamentar, ele foi responsável pela aprovação da legislação para a modernização das telecomunicações do Brasil, inclusive recebeu uma comenda do mérito científico, em Brasília. Ele vem já nessa trajetória. É jovem, também tem esse componente, é natural dar esse tom de inovação. E a gente aqui na secretaria fica feliz e tem trabalhado muito para atender essa expectativa. Eu acho que vai ser uma das marcas desta gestão, mas tem algumas áreas que o governador não vai deixar de priorizar, de pôr energia, como, por exemplo, a área da segurança pública. E uma coisa que o governador está trazendo para a segurança pública é a tecnologia, como a IA Contra o Crime. Isso é um componente importante.

Como Goiás pode atuar para convencer investidores a investirem em tecnologia e inovação a partir Goiás, considerando que existem polos importantes no país, em São Paulo e Florianópolis, por exemplo?

A principal aposta, a principal estratégia, o principal instrumento que vamos usar para o pessoal vir para cá é o seguinte: o governo vai financiar pesquisa e desenvolvimento das empresas aqui no estado. O que isso quer dizer? A empresa pode ter um serviço corriqueiro, industrial, ou mesmo um serviço normal, mas a parte de inovação, os projetos de inovação, a gente vai ajudar a financiar. O estado vai entrar com uma parte do recurso. Qual é a contrapartida? Esse projeto tem que ser feito junto a um polo, a uma instituição de ciência e tecnologia do estado. Por exemplo, o Ceia. Esse é um modelo que dá certo já, tem a Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial), um órgão ligado ao governo federal, já faz isso. Vamos destinar alguns milhões de reais para a empresa que topar vir para cá. Vamos supor, ela vai fazer um projeto de inovação, usar a IA para melhorar a entrega ou o meu produto. Esse projeto, a gente vai financiar parte dele. Essa é uma aposta bem inovadora, dado que não têm mais incentivos fiscais, isso está acabando por conta da reforma tributária. Há outros também. Um segundo atrativo é o talento. Nessa lógica de ter esses centros de pesquisa, vamos investir muito em formação de pessoas em computação, já estamos investindo em inteligência artificial. O Ceia, com esse projeto nosso, montou o primeiro bacharelado de IA do Brasil. Vamos financiar isso também em outros centros. E o terceiro ponto, que talvez seja menos direto, mas eu, dado que  começamos agora, vale a pena mencionar, a gente começa a ver empresas escolhendo Goiás  por conta da segurança, por ser um lugar seguro. Eu acho que todo mundo quer uma segurança para a pessoa, para a família, e a gente percebe uma sensação de insegurança em algum desses grandes centros, os centros mais clássicos no Brasil. Mas eu diria que é isso, primeiro ponto: vamos ajudar, financiar a pesquisa e desenvolvimento feita no Estado por essas empresas; queremos dar a elas um acesso a talentos e também um ambiente seguro aqui. 

Como o Brasil tem se desenvolvido diante desse avanço das inteligências artificiais? O governo federal tem trabalhado para promover as segmentações necessárias para que a IA possa ser explorada ao máximo. E o Brasil não corre risco de perder esse mercado junto ao mercado internacional? 

Eu entendo que o Brasil está buscando, mas ainda não chegamos lá. No nível federal existem alguns esforços, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial. Sei que existem esforços específicos em algumas áreas. Em regulamentação, Goiás sai na frente, fez a primeira regulamentação de IA no Brasil, talvez não seja a primeira dos Estados, mas com certeza a mais relevante, e o governo federal agora está correndo com isso. Mas em termos de Brasil, acho que precisamos entender e definir qual vai ser nosso papel, qual vai ser nossa posição estratégica nessa corrida. Eu não vejo que o Brasil deva entrar na competição de investir bilhões e bilhões de reais para fazer esses modelos de linguagem natural, de onde vem, por exemplo, o chat GPT. Isso é para as big techs, as grandes empresas, ou a China com um volume de investimento estatal muito grande. O Brasil não consegue competir nessa seara. E não necessariamente também é um problema, mas acho que a gente precisa entender. Eu não sei, mas acho que esse bonde já passou. O Brasil pode se posicionar como referência para a aplicação da inteligência artificial em diferentes segmentos, como eu mencionei. Pode aplicar no governo, na indústria, na parte de biologia, que está tendo uma frente muito grande em relação a isso. A diretora do Ceia, professora Telma Soares, diz que o Brasil poderia investir em áreas em que nós temos uma vantagem de dados, como, por exemplo, biodiversidade. Dificilmente algum país vai ter a biodiversidade que o Brasil tem, é uma coisa que temos mais do que os outros, e podemos usar a IA, por exemplo, para mapear essa biodiversidade, para entender, buscar benefícios. Mas são coisas de aplicação e eu acho que tem um papel. A Coreia do Sul está um pouco nessa linha de aplicação. Eu entendo que a posição do Brasil e a posição de Goiás não é tanto ir na fronteira dos modelos, isso exige bilhões e bilhões e não acho que a gente está no jogo, sendo muito franco. Mas a gente pode estar no jogo, sim, da aplicação. Aplicação e integração com o que a gente faz. E isso eu entendo que a gente deve fazer e Goiás está fazendo. 

Goiás já utiliza IA na segurança pública e o meio ambiente também usa um sistema de inteligência artificial próprio. Quais as outras áreas que o Estado pretende investir nos próximos anos para implantar ainda mais a IA? 

Temos muitas possibilidades. Mencionamos segurança, educação é uma área também interessante, meio ambiente, como você mencionou. As possibilidades são enormes. Tem também o uso da IA para dentro da máquina pública, para modernizar processos, desburocratizar a parte de gestão também é uma área importante, pode estar também no trânsito. Eu estava esquecendo um negócio importante, que já está sendo usado, a IA na saúde. O governador anunciou uma parceria importante com o Google para o uso da inteligência artificial no apoio do combate ao câncer. O  hospital Cora vai ser o primeiro hospital público do mundo a usar uma ferramenta nova do Google chamada Capricórnio para apoiar os médicos nos diagnósticos. Na saúde tem muita coisa já sendo feita pela própria Secretaria de Saúde, e me parece um campo interessante. 

Goiás tem sido apontado um destino para grandes data centers. Mas há uma discussão sobre o consumo de água e energia dessas estruturas. 

Temos que buscar os data centers e os modelos que são sustentáveis, e já tem. Há  diferentes tipos de maquinário com uso e reuso de energia. É uma discussão que está acontecendo no mundo inteiro e eu entendo que as empresas de data centers estão olhando para isso também, com um olhar especial. As últimas evidências – que eu tenho visto, pelo menos – têm mostrado um benefício positivo no saldo nos lugares que são instalados os data centers. Por mais que tenha uma demanda de energia, tem um saldo positivo de emprego, de economia, de crescimento, mas tem que ter esse cuidado. Esse cuidado é importante, não pode também instalar um data center em um lugar e  consumir a energia da cidade. A ideia é pensar em lugares que estão próximos de usinas, e até a geografia disso é pensada de forma a facilitar o uso da energia. 

O estado possui um estudo de impacto que esses empreendimentos que vão ser instalados podem causar nessa questão hídrica? 

O que eu sei é que o estado tem um estudo sobre lugares com maior potencial para receber o data center. Isso o estado tem. 

Em março, numa entrevista que o presidente do Instituto Mauro Borges, Erik Figueiredo, concebeu à Tribuna do Planalto, ele antecipou que há estudos de implantação para até o final deste ano, de três data centers em Goiás. 

Mas isso ainda está em estudo. Até onde eu sei, isso não foi ainda confirmado. Mas é ótimo. É isso mesmo. 

Há um receio de que a expansão da IA possa eliminar empregos. Como é que Goiás está se preparando para esse cenário e também para preparar trabalhadores para profissões que ainda talvez nem existam? 

A gente precisa estar preparado, e para preparar, precisamos preparar a nossa sociedade, preparar os nossos trabalhadores para isso, desde os futuros trabalhadores a serem formados em tecnologia e IA, mas também os atuais no trabalho de transição de carreira, apoiar uma requalificação em tecnologia. Isso é um ponto importante e a gente está se preparando para isso. Nós temos aqui, para você ter noção, até projetos com idosos, com mais de 60 anos em que eles aprendem a usar tecnologia básica, inclusive entra até o pequeno módulo de inteligência artificial. Outro ponto, é que essa discussão de perda emprego não está ainda comprovada. Sinceramente, com certeza, vão ter trabalhos que vão acabar com a IA, mas no saldo, outros salários podem ser criados. Na verdade, as primeiras evidências que estão saindo é que no saldo, as empresas, os setores que estão sendo mais intensivos, a turma está crescendo, porque cresce a produtividade, cresce a economia e tudo. Eu acho que tem um receio, até porque a gente tem visto grandes empresas de tecnologia demitindo a rodo os funcionários, mas, na verdade, muitos dos casos não é por conta da IA. Eles até usam a IA como justificativa, mas é porque eles atacaram muito lá atrás, na época da pandemia, apostaram em contratações e agora não deu certo, e eles estão despedindo as pessoas. Mas eu acho que a gente tem que ser cauteloso, porque as evidências não são óbvias de que, no final das contas, vamos perder empregos. Eu acho que a gente vai perder alguns tipos de emprego, mas isso não está determinado.Temos que acompanhar. 

Não há risco, por exemplo, de servidores públicos serem substituídos por IA? 

Eu não vejo, não. Eu acho que pode ter algumas funções específicas, mas que no final das contas, o que vai acontecer é que alguns tipos de tarefas vão ser feitas pela IA. O que é ótimo, porque o servidor fica mais livre para fazer o que, de fato, ele entende. Na educação, a pessoa está lá na ponta, dando aula na secretaria, fazendo política educacional, na saúde, interação com o paciente, que é só o ser humano pode fazer ou faz melhor. Eu entendo dessa forma. 

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