O Painel Econômico da Fieg desta semana analisou o comportamento recente do mercado de trabalho brasileiro, marcado por sinais de acomodação após meses de forte expansão. Em outubro, o Brasil criou 85.147 vagas formais, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. O saldo é positivo, mas ficou bem abaixo das expectativas do mercado, que projetava a abertura de cerca de 120 mil postos. A desaceleração já aparece também nos dados regionais: Goiás registrou o fechamento de 2.327 vagas, a primeira perda líquida mensal de 2025 no estado. Apesar disso, o acumulado do ano segue favorável: o Brasil soma aproximadamente 1,8 milhão de empregos formais e Goiás, 77.370. O economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, que participou do Painel, avalia que os dados não representam uma reversão de tendência, mas evidenciam uma fase de perda de ritmo da economia.
Para Galhardo, o mercado de trabalho vinha sendo um dos últimos indicadores a sustentar a leitura de resiliência da economia brasileira. Porém, desde agosto, os dados mostram um movimento de acomodação. “Embora a criação de 85 mil vagas seja um número razoável, ele veio abaixo do esperado. O mercado de trabalho segue crescendo, mas cresce mais devagar. São sinais de acomodação, compatíveis com a desaceleração que já observamos em outros indicadores”, afirma. Ele lembra que, em setembro, o movimento foi o inverso: o mercado surpreendeu positivamente, criando mais vagas do que o previsto. Em outubro, a frustração veio na direção contrária.
Segundo o economista, isso não significa “fim de ciclo”, mas sugere que a economia chega ao último bimestre de 2025 perdendo tração. “Nos últimos dois ou três meses, o mercado de trabalho começou a refletir o enfraquecimento gradual da atividade econômica”, diz.
Indústria sente mais
O setor industrial apresentou o pior desempenho do mês, com o fechamento de 10.092 vagas formais — o primeiro resultado negativo do ano. Para Galhardo, esse movimento não é pontual e reflete tendências mais profundas. “A indústria já vinha mostrando sinais de desaceleração há muito tempo. O mais surpreendente, na verdade, foi que o mercado de trabalho industrial se manteve forte por tantos meses, apesar dos desafios”, avalia.
Ele destaca três fatores que afetam diretamente o setor: taxa de juros elevada, com a Selic estacionada em 15% ao ano; custo de crédito avançando, que atingiu 23,6%, maior nível da série histórica; aumento das incertezas, tanto pelas tensões comerciais com os Estados Unidos quanto pelo chamado “tarifaço”, que encarece insumos e aumenta riscos para quem pretende investir.
“Quando o nível de incerteza é muito alto, o empresário não consegue planejar. Sem previsibilidade, ele adia investimentos — e, quando adia investimentos, adia também contratações e ampliações de atividade”, explica. Segundo Galhardo, esse conjunto de fatores pressiona a indústria não apenas no curto, mas também no médio prazo.
Desemprego: mínima histórica
Em contraste com a perda de ritmo na geração de empregos formais, a taxa de desemprego medida pela PNAD Contínua caiu para 5,4% no trimestre encerrado em outubro, o menor valor da série histórica. A massa salarial também bateu recorde: R$ 357,3 bilhões.
Galhardo destaca o peso da informalidade, que permanece elevada e hoje representa cerca de 40% dos trabalhadores brasileiros. “O setor de serviços segue muito aquecido, e ele puxa atividades tanto formais quanto informais. A volta gradual ao trabalho presencial também impulsiona ocupações ligadas a consumo, transporte, alimentação e outros segmentos que têm forte presença informal”, afirma.
Ainda assim, a PNAD também começa a mostrar uma freada leve. “Pela primeira vez desde 2019, não houve queda contínua no desemprego entre os trimestres móveis. São sinais discretos, mas que reforçam a leitura de acomodação”, observa.
Goiás no contexto nacional
No caso de Goiás, o fechamento de vagas em outubro não deve ser interpretado como ruptura, mas o economista lembra que o estado sente com mais força as oscilações da indústria e dos serviços. “Goiás teve sua primeira perda líquida do ano, mas o saldo de 2025 ainda é muito positivo. O estado acompanha o movimento nacional de acomodação”, analisa.
O que esperar dos próximos meses
Galhardo avalia que a economia brasileira deve seguir resistente, mas com ritmo menor. A expectativa sobre a política monetária, as consequências do tarifaço e o comportamento da inadimplência devem definir o tom do início de 2026.
“O mercado de trabalho está firme, mas não imune. A economia não está em crise, mas está mais lenta. Os próximos meses serão decisivos para entender se essa acomodação se estabiliza ou se evolui para uma desaceleração mais forte”, conclui.














