Quatorze candidatos registrados em Goiás para as eleições de 2026 aparecem associados a multas ambientais em levantamento divulgado pela Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (Ascema Nacional). Juntos, eles acumulam 24 autos de infração lavrados pelo Ibama e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), cujos valores originalmente aplicados somam R$ 67.604.500.
Goiás lidera o ranking nacional pelo valor acumulado das multas, com R$ 67,6 milhões, seguido por Roraima, com R$ 55,6 milhões. A primeira colocação se refere ao montante financeiro originalmente informado nos autos, e não à quantidade de candidatos ou de autuações. Com 14 nomes, o estado ocupa a quinta posição em número de candidatos autuados, ranking liderado pelo Tocantins, com 20. Já em quantidade de autos, o Pará aparece na frente, com 59 registros, enquanto Goiás reúne 24.
A maior parte do montante atribuído ao estado está concentrada em Daniel Messac de Morais, ex-deputado estadual e candidato a uma cadeira na Alego pelo Mobiliza. Ele aparece com seis autos do Ibama que totalizam R$ 67,085 milhões. Segundo a base apresentada pela Ascema, os registros foram lavrados no Pará entre 2010 e 2021 e estão relacionados a infrações contra a flora.
Fernando César Cintra, candidato a deputado estadual pelo Podemos, aparece com quatro autos do Ibama que somam R$ 294,3 mil. Três registros são de 2023 e descrevem a supressão de vegetação nativa do Cerrado em áreas de reserva legal e fora delas, sem autorização do órgão ambiental competente, no município de Aruanã. O levantamento também aponta uma autuação anterior, de 2005.
Na declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral para a candidatura de 2026, Fernando Cintra informou ser proprietário das fazendas São José, Três Corações e Terra Nova.
João Alberto Vieira Rodrigues, candidato a deputado estadual pelo PRD, tem dois autos aplicados em 2020, no município de Cocalinho, em Mato Grosso. As autuações, que somam R$ 190 mil, mencionam o desmatamento de vegetação nativa do Cerrado em área de reserva legal e fora de áreas protegidas, sem autorização ambiental.
A deputada federal Magda Mofatto, única entre os 14 candidatos que atualmente exerce mandato eletivo, aparece com dois autos que totalizam R$ 15 mil. Um deles foi lavrado pelo Ibama em 2005, por utilização de área de preservação permanente em Caldas Novas. O segundo foi aplicado pelo ICMBio em 2023, no Rio Grande do Sul, por realização de voo panorâmico sem autorização e em desacordo com o plano de manejo de parques nacionais.
Resposta
Daniel Messac, Fernando Cintra e João Alberto foram procurados por concentrarem os três maiores valores entre os candidatos de Goiás. Magda Mofatto também foi acionada por exercer atualmente mandato na Câmara dos Deputados.
À Tribuna do Planalto, o empresário Flávio Canedo, marido de Magda Mofatto, afirmou que os dois processos mencionados no levantamento foram extintos. “O processo de 2005 acabou em 2015. Inclusive, ganhamos a causa. O de 2023 foi lá no Sul. A gente estava na nossa aeronave e sobrevoou o local para ver uma cachoeira. Não era voo panorâmico com turista, o voo era nosso. Nós apresentamos a defesa e o processo foi extinto. Então, não tem multa nem processo, não tem nada de meio ambiente”, declarou.
O advogado Henrique Magalhães, que representa João Alberto Vieira Rodrigues, afirmou que as autuações decorreram de um equívoco ocorrido em 2020, quando o candidato estava adquirindo a propriedade e alterando a forma de exploração adotada pelo antigo proprietário. Segundo ele, a atualização do Cadastro Ambiental Rural (CAR) enfrentou entraves burocráticos em Mato Grosso e o caso continua em discussão administrativa.
“Esse auto foi claramente um equívoco. Atualmente, a propriedade tem mais reserva legal do que o necessário, e a área explorada é menor do que a área preservada. Não há qualquer tipo de exploração indevida. Foi o contrário: João Alberto é um defensor da área ambiental e explora a propriedade de forma tranquila e não abusiva”, declarou.
Até o fechamento desta edição, os demais candidatos não enviaram resposta.
Os outros dez candidatos reúnem dez autos que, somados, alcançam R$ 19,2 mil. Como a reportagem não individualiza as infrações atribuídas a esses nomes, eles são considerados apenas no resultado consolidado do levantamento.
Lista de multas ambientais não significa condenação; entenda levantamento
A presença de um candidato no levantamento de multas ambientais divulgado pela Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (Ascema Nacional) não significa condenação definitiva nem irregularidade na candidatura. A relação indica que foi localizado um auto de infração ambiental associado diretamente ao CPF informado à Justiça Eleitoral.
Para elaborar o relatório, a Ascema cruzou dados dos candidatos registrados para as eleições de 2026 com as bases de autos de infração do Ibama e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A identificação foi feita pela correspondência de CPFs completos e exatos, para evitar a inclusão de homônimos ou a atribuição de um registro à pessoa errada.
O estudo considerou autos posteriores a 1º de julho de 1994. Registros identificados nas bases consultadas como cancelados ou anulados foram excluídos. Também ficaram de fora infrações aplicadas exclusivamente a empresas das quais os candidatos sejam sócios ou proprietários, sem vínculo direto com o CPF da pessoa física.
Mesmo considerado válido na base consultada, um auto pode estar sujeito a defesa ou recurso. A multa também pode ter sido reduzida, parcelada, paga ou alcançada pela prescrição. Por isso, a inclusão na lista não permite concluir, isoladamente, que exista dívida atual ou decisão administrativa definitiva contra o candidato.
Os valores apresentados correspondem às multas registradas no momento em que os autos foram lavrados, sem correção monetária. As quantias, portanto, não representam necessariamente o montante cobrado atualmente pelos órgãos ambientais.
O relatório também alerta que o estado usado no ranking é o da candidatura, e não necessariamente o local da infração. Entre os candidatos registrados em Goiás, por exemplo, existem autuações lavradas no próprio estado, no Pará, em Mato Grosso e no Rio Grande do Sul.
Segundo a Ascema Nacional, a divulgação busca ampliar a transparência sobre o histórico de autuações ambientais dos candidatos e oferecer informações para eleitores, imprensa e órgãos de controle. A situação de cada registro, no entanto, precisa ser verificada individualmente no processo correspondente e junto à pessoa citada.
LEIA TAMBÉM:
Em sabatina, Caiado manda investigar o próprio vice após acusações de Vorcaro: “Que abra tudo!”











