Ataque ocorreu na madrugada desta sexta-feira (23), a dois dias do segundo turno e a três dias do aniversário de 84 anos de Milton Nascimento; polícia investiga o caso
O memorial do Clube da Esquina, no bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte, amanheceu vandalizado com tinta vermelha nesta sexta-feira (23). O espaço fica no cruzamento das ruas Divinópolis e Paraisópolis, ponto que se tornou símbolo da música popular brasileira. A informação foi confirmada por O Globo, CBN, Rádio Itatiaia e Revista Fórum.
Segundo as primeiras informações, o imóvel foi alvo do ataque na madrugada. A fachada branca apresentava marcas de tinta vermelha respingada. No chão, foram encontrados um pote de tintura e luvas usadas. A Polícia Militar de Minas Gerais foi acionada, e câmeras de segurança da região estão sendo analisadas para identificar a autoria.
O episódio ocorre três dias antes do aniversário de 84 anos de Milton Nascimento, que será comemorado na segunda-feira (26). O ataque também acontece a dois dias do segundo turno das eleições de 2026.
A trajetória do Clube da Esquina na ditadura militar
O Clube da Esquina surgiu em plena ditadura empresarial-militar brasileira. O grupo se consolidou como uma das principais vias de resistência cultural ao regime, segundo estudos acadêmicos sobre o movimento.
Os compositores do Clube não escaparam da repressão. Em 1973, três canções criadas para o álbum “Milagre dos Peixes”, de Milton Nascimento, tiveram as letras censuradas pela ditadura. Diante do veto, o cantor gravou a faixa-título sem a letra, usando apenas gritos, suspiros e vocalizações para expressar o que não podia ser dito.
A censura atingiu o disco em seu período de maior ação, entre 1969 e 1974, durante os chamados “anos de chumbo”. Ainda assim, a obra do grupo se manteve como produção cultural de resistência, com canções que criticavam o regime de forma velada ou direta.
Reações ao vandalismo
Nas redes sociais, políticos e coletivos repudiaram o ataque. O vereador Bruno Pedralva (PT) classificou o caso como “criminoso” e lembrou que o endereço e os artistas ali ligados fazem parte da resistência contra a ditadura. A deputada federal eleita Lohanna França (PV) chamou o episódio de “inadmissível” e “desrespeito a um dos maiores símbolos da cultura brasileira”.
O Coletivo Alvorada, que atua na região, afirmou que a depredação não pode ser separada do clima de intolerância que atravessa o país na reta final da eleição. O grupo cobrou apuração, restauração e proteção da esquina histórica. Em nota, o coletivo resumiu a resposta que pretende dar ao ataque: “Eles jogaram tinta. Nós vamos responder com música.”
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