Menos consumo de álcool, redução do risco cardiovascular, possíveis benefícios para doenças inflamatórias e até impactos sobre o humor e a vida social. À medida que milhões de pessoas utilizam as “canetas emagrecedoras”, medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro ao redor do mundo, médicos e pesquisadores estão descobrindo riscos e efeitos que vão muito além da perda de peso — alguns positivos, outros ainda cercados de incertezas.
O volume de pacientes em tratamento transformou esses medicamentos em uma espécie de laboratório em tempo real. Se há poucos anos as atenções estavam voltadas apenas para o potencial de emagrecimento, hoje os estudos buscam entender como essas substâncias afetam diversos sistemas do organismo e até o comportamento humano.
Para o médico nutrólogo e intensivista Dr. José Israel Sanchez Robles, os resultados observados nos últimos anos indicam que os efeitos dos agonistas do receptor de GLP-1 são mais amplos do que se acreditava inicialmente.
“Estamos observando benefícios que não podem ser atribuídos apenas à perda de peso. Há evidências crescentes de efeitos sobre processos inflamatórios, saúde cardiovascular e até sobre comportamentos relacionados à compulsão alimentar. Trata-se de um campo que ainda está em expansão e continua sendo amplamente investigado pela comunidade científica”, afirma ele.
Outra descoberta que vem chamando a atenção dos especialistas é que a resposta ao tratamento varia significativamente entre os pacientes. Enquanto alguns apresentam perdas expressivas de peso, outros praticamente não respondem à medicação.
““Existe um grupo de pacientes que perde mais de 20% do peso corporal, enquanto outro apresenta uma resposta mais modesta, com redução inferior a 5%. Isso demonstra que fatores genéticos, metabólicos e comportamentais exercem influência significativa nos resultados e reforça a importância da individualização do tratamento”, explica José Israel.
Os estudos também estão ajudando a esclarecer uma das principais dúvidas dos pacientes: o que acontece após a interrupção da medicação. Embora parte do peso perdido normalmente seja recuperada, pesquisas recentes indicam que muitos usuários conseguem manter resultados duradouros, especialmente quando associam atividade física, alimentação adequada e outras estratégias terapêuticas.
Ao mesmo tempo, médicos observam efeitos colaterais que ganharam notoriedade nas redes sociais, como queda de cabelo e alterações faciais decorrentes do emagrecimento acelerado. Porém, as preocupações mais relevantes envolvem questões menos visíveis.
“Os riscos das ‘canetas emagrecedoras’ que mais preocupa não é uma questão estética. Quando ocorre uma redução significativa do apetite sem acompanhamento adequado, podem surgir deficiências nutricionais e perda excessiva de massa muscular, especialmente entre os idosos”, alerta o médico.
Outro tema que permanece em debate é a dose ideal. Ainda segundo José Israel, nem sempre a maior dose disponível é a melhor escolha. “Estamos aprendendo que o objetivo não deve ser simplesmente promover a maior perda de peso possível. O foco precisa estar na conquista e manutenção de um peso saudável, com preservação da massa muscular, da densidade óssea e da qualidade de vida. Em alguns pacientes, a utilização de doses mais elevadas pode representar um equilíbrio menos favorável entre riscos e benefícios”, conclui.
Com menos de uma década de uso em larga escala, os medicamentos utilizados no tratamento da obesidade continuam revelando novas informações à comunidade científica. E a principal conclusão até o momento é que seus efeitos parecem ser muito mais amplos e complexos do que a simples redução do peso corporal observada na balança.















