Esse é o principal recado das urnas em 2022, segundo o jornalista Luiz Signates, professor do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Goiás e do Mestrado em Comunicação da Universidade Federal de Goiás. Na opinião de Signates, “o espírito emancipatório da Constituição de 1988 talvez esteja na sua agonia final”. Ele avalia que o antipetismo ainda mantém uma força considerável, embora esteja menor do que nas eleições de 2018.
Sobre a eleição para presidente da República, a grande surpresa da eleição foi a divergência entre as pesquisas e o resultado das urnas?
Sim, esta foi uma das surpresas, embora, no campo científico, jamais tenhamos dúvidas de que os métodos trabalham com erros amostrais, que se pretende sejam mensuráveis. O erro faz parte da busca de conhecimento. Os desvios trazidos pela realidade, por isso, costumam surpreender, mas, ao invés de considerarmos que as pesquisas por isso deixam de ser confiáveis, fazemos disso objeto para novas pesquisas, até para aperfeiçoarmos os métodos e buscarmos errar menos.
O que explica os institutos não terem conseguido captar a intenção de votos dos eleitores?
Eu não diria que os institutos não captaram a intenção de voto, mas que falharam em termos de precisão em vários setores daquilo que se pretendia sondar. Trata-se muito mais de um problema de precisão do que de resultado. Veja que, na campanha presidencial, os institutos captaram acertadamente o favoritismo de Lula, bem como as dificuldades dos candidatos da chamada terceira via, mas não foram suficientemente precisos para mensurar os votos de seu adversário. Há problemas metodológicos de origem: a pesquisa de opinião capta o que as pessoas dizem, não o que de fato fazem. E sua aplicação é muito rápida, isto é, o que se registra é a primeira resposta, o que nem sempre reflete a decisão efetiva das pessoas. E, no contexto eleitoral, os sentimentos são muito complexos, tendo havido, nestas eleições, até mesmo problemas de opinião a respeito das próprias pesquisas. Esses fatores podem, sim, levar as sondagens a errarem mais do que o esperado.De todo modo, devemos aguardar que estudos específicos sejam feitos, a fim de tentar identificar onde o trabalho de pesquisa se revelou mais frágil, e retificá-los.
Qual o recado das urnas?
Acho que o principal recado é o de que o Brasil é um país profundamente conservador e, em certo sentido, retrógrado, no qual a visão dos direitos e da cidadania tem sido continuamente sobrepujada por dogmas religiosos e formulações políticas simplistas e preconceituosas. Isso torna o eleitorado brasileiro vítima fácil de discursos moralistas descompromissados com os graves problemas sociais e econômicos do nosso povo. A tragédia social brasileira repercute eleitoralmente no processo político não como retomada da cidadania e dos ritos civilizacionais, mas como reafirmação do patriarcalismo e do autoritarismo que tem caracterizado a nossa cultura ao longo da história. O espírito emancipatório da Constituição de 1988 talvez esteja na sua agonia final. De um ponto de vista eleitoral, parece consistente dizer que o antipetismo ainda mantém uma força considerável, embora esteja sem dúvida menor do que nas eleições de 2018.
Houve voto útil no final da campanha? Para qual candidato?
Creio que não. A campanha petista pelo voto útil pode ter contribuído para reduzir as votações de Ciro Gomes e Simone Tebet, mas, com certeza, não repercutiram na votação de Lula, a ponto de alterar as condições eleitorais já previstas nas pesquisas.
Houve o chamado voto envergonhado? Para qual candidato?
Acho que houve voto envergonhado para ambos. O voto conservador, autoritário, que não se confessa publicamente, em direção a Bolsonaro, e o voto medroso, que temia algum tipo de violência física vinda dos bolsonaristas, direcionados a Lula. Entretanto, não creio que tenha havido isso em quantidade significativa. O problema das pesquisas é de método, não de tipo de eleitor.
O presidente Jair Bolsonaro reverteu voto no final ou ele tinha esses votos?
Creio que o feroz combate ao Lula, feito nos últimos dias, repercutiu na modificação das intenções de voto de Bolsonaro, junto aos indecisos. E penso que essa estratégia será reforçada, neste segundo turno, pois, agora, não basta a Bolsonaro convencer indecisos: é preciso tomar votos de Lula, para reverter seu favoritismo.
Até que ponto o pacote de bondades que o governo concedeu este ano teve efeito na eleição?
Sem dúvida que teve, embora não na proporção que o governo esperava. A população de baixa renda, no Brasil, cuja realidade é de extrema necessidade, costuma ser sensível a benesses governamentais.
Quais os erros do PT e de Lula?
É cedo para dizer, mas um erro grave foi, certamente, subestimar a força do adversário. Talvez tenha errado também na falta de estruturação do diálogo com os evangélicos, cujo moralismo conservador revelou-se capaz de interferir fortemente nos ânimos eleitorais. Aliás, o moralismo religioso é um dos grandes riscos da democracia brasileira, tal como ela se movimenta atualmente.
O que esperar do segundo turno?
Espero um embate extremamente agressivo, pois Bolsonaro entra no segundo turno numa condição de tudo ou nada, e seus aliados foram empoderados pelos resultados das eleições proporcionais. Lula precisa de pouco para vencer no segundo turno, mas precisa também conservar os próprios eleitores. Enfim, não será uma campanha bonita de se ver.
Seja qual for o resultado da eleição presidencial, a polarização tende a se acirrar?
Penso que, se eleito, como é a tendência, o presidente Lula terá talvez o maior desafio de sua vida, como governante, pois enfrentará um Congresso composto por muitos políticos pouco interessados em negociar com ele. Acredito que boa parte da direita brasileira eleita neste domingo assumirá o mandato pensando não no Brasil, mas nas eleições de 2026.
Qual o perfil do Congresso Nacional de 2023?
Bastante conservador e, portanto, fortemente infenso a avanços sociais e trabalhistas.
As urnas eletrônicas passaram no teste ou ainda há risco de serem contestadas?
A calmaria do processo de votação deste domingo mostrou com muita nitidez que a contestação das urnas nunca passou de bravata. Não podemos, contudo, subestimar a capacidade de produção de bravatas da ala política que a produziu. Podemos, sim, tê-la de volta no segundo turno, mas não creio que haverá efeitos práticos significativos.
Em Goiás, não houve surpresa. O governador Ronaldo Caiado se reelegeu no primeiro turno, como era esperado. Por que ele obteve esse resultado?
O governador foi beneficiado pela suspensão judicial do pagamento das dívidas do estado, que fez com que ele acumulasse um caixa substancial e, com isso, construísse condições de cooptar os prefeitos e as lideranças de todo o Estado em seu apoio. Diante disso, candidatos que poderiam tomar votos dele, como Marconi Perillo, preferiram sair do embate e disputar outros cargos, deixando-o praticamente sem adversários de peso, neste pleito.
Como explicar a eleição de Wilder Morais para o Senado, contrariando as pesquisas?
Penso que a eleição de Wilder Morais seguiu a mesma onda bolsonarista que elegeu os candidatos apoiados pelo presidente, nos estados conservadores do país. As pesquisas demonstravam, às vésperas do pleito, uma quantidade muito grande de indecisos, nas votações para o Senado. E, aparentemente, foi essa fatia do eleitorado a que foi mais significativamente captada pelo bolsonarismo.
Por que Marconi não conseguiu se consolidar à frente?
A candidatura Marconi seguiu sozinha, neste pleito. Ele não teve apoio de nenhum candidato a governador, nem tinha uma candidatura a presidente com força para contribuir para a consolidação de votos em si. Além disso, Perillo ainda purga o desgaste de imagem que sofreu nas eleições passadas, depois de ter sofrido inclusive perseguição judicial. Para um candidato solitário, que enfrentou as urnas em uma eleição para Senador sem apoio significativo de nenhuma liderança expressiva no estado, os resultados eleitorais do ex-governador, a meu ver, foram bastante relevantes, embora não tenham sido suficientes para sufragá-lo.
A bancada de deputados federais trouxe alguma surpresa?
Além do desempenho eleitoral de caiadistas e bolsonaristas, como tipicamente os dois mais votados, foi digna de nota também a duplicação da bancada petista, com a eleição de Adriana Accorsi e a reeleição de Rubens Otoni.
A Alego terá uma composição diferente em 2023?
A renovação da Assembleia Legislativa seguiu os índices históricos, de aproximadamente metade dos cargos. Ali houve uma forte conformação de lideranças regionais, a maioria delas pertencente à base de Caiado, mas, como no âmbito federal, o PT conseguiu dobrar sua bancada, ao reeleger Antônio Gomide, expressiva liderança de Anápolis, e mais três deputados.













