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“Caiado pode devolver competitividade à direita”, analisa Antônio Lavareda

Em entrevista à Tribuna do Planalto, Antônio Lavareda analisa os efeitos da alta aprovação de Ronaldo Caiado sobre a sucessão em Goiás e o peso da escolha do candidato a vice


Redação Tribuna do Planalto Por Redação Tribuna do Planalto em 01/08/2026 - 11:05

"Caiado pode devolver competitividade à direita", analisa Antônio Lavareda

Antônio Lavareda é um dos cientistas políticos e especialistas em opinião pública mais respeitados do país. Presidente de honra da Associação Brasileira das Pesquisas Eleitorais (Abrapel), consultor de campanhas eleitorais em mais de duas dezenas de estados e estudioso do comportamento do eleitor, ele analisa, nesta entrevista à Tribuna do Planalto, os efeitos da alta aprovação de Ronaldo Caiado sobre a sucessão em Goiás, o peso da escolha do candidato a vice, a disputa pelo governo estadual e o cenário da eleição presidencial de 2026. Para Lavareda, a candidatura de Caiado ganha relevância nacional em meio às incertezas na direita e pode se tornar uma das principais alternativas na corrida ao Palácio do Planalto.

O ex-governador Ronaldo Caiado deixa o governo e o entrega para o governador Daniel Vilela com uma aprovação de cerca de 80%. Qual a capacidade do sucessor, no caso Daniel Vilela, de converter essa aprovação em resultado eleitoral?

Em primeiro lugar, nas eleições, os incumbentes têm uma vantagem conhecida, chamada de vantagem do incumbente. Isso existe em todas as categorias de eleição no Brasil e mundo afora. O cientista político Adam Przeworski, no seu livro Por que Eleições Importam, estima em 80% os episódios eleitorais com vitórias do incumbentes nas democracias em todo o mundo. Quando o incumbente tem uma avaliação superlativa, como a do ex-governador Caiado, a capacidade de transferência dele para o seu sucessor no cargo, o vice que assume, é muito grande. É óbvio que ele não consegue transmitir esses 80%, mas transmite uma porção bastante razoável. Estabelecer qual é o percentual é um exercício não muito recomendável, porque depende de circunstâncias específicas, depende até do grau de carisma de cada um dos beneficiados por esse apoio. Por exemplo, em 2010, recordemos um exemplo clássico, Lula tinha 80% de aprovação ao final do seu governo. Dilma Rousseff se elegeu no segundo turno com 56% dos votos. Assim que nós devemos refletir a respeito.

O eleitor consegue fazer essa separação de continuidade e da associação da imagem do próprio sucessor? 

Lógico, o eleitor, quando ele aprova, quando ele avalia positivamente de forma superlativa um gestor, o que ele deseja é a continuidade. Quando é possível a reeleição, ele reconduz esse gestor. Quando não é possível, ele atribui ao candidato apoiado pelo gestor que ele aprovou a capacidade de desenvolver uma administração no mínimo assemelhada em qualidade à daquele gestor que saiu do cargo.

De forma inédita em Goiás, acompanhamos campanhas para indicação de vice na chapa governista. O senhor já viu uma eleição com campanha pela vice?

Isso eu já assisti em alguns estados. Já fiz campanha, já fui consultor e já trabalhei em cerca de 25 estados da federação. Então, já vi de tudo. Para mim não é novidade, sobretudo e principalmente quando o candidato é visto como um franco favorito. Isso estimula muito o apetite por essa posição de vice. Mais ainda no caso de um candidato, como o atual governador de Goiás, que por já ter assumido o governo agora, será governador de um só mandato. Os vices têm a possibilidade de virem assumir o governo adiante. Isso é natural. 

Qual é o peso que o vice tem numa eleição majoritária? Ele pode agregar votos ou reduzir rejeições? 

O vice sempre agrega alguma coisa, e são coisas diferentes. Adiciona, às vezes, um peso específico em uma região; outras vezes, agrega por ponto de vista de imagem, ou porque é mais jovem, ou porque é mais velho que o candidato a titular; ou por sexo, porque é de um sexo diferente agrega aquele outro eleitorado, uma vice-mulher; ou, às vezes, porque é ligado a uma determinada religião, então, complementa, do ponto de vista de religião, o arco da candidatura. Há os mais diferentes motivos. Os vices sempre agregam, mas nunca você assistirá ao fato de que a escolha do vice terá sido algo determinante para o resultado de uma eleição.

A definição do vice é importante, mas ela não ajuda a definir a eleição?

A formulação mais adequada, eu diria, a escolha do vice é muito importante, mas não resolve a eleição.

Em Goiás tem um pretenso candidato a vice ligado à  convenção das Assembleias de Deus, outro mais ligado ao agronegócio e outro, que teria a preferência de Caiado, mais ligado ao funcionalismo público. Esses segmentos são importantes na construção de uma chapa?

Todos esses segmentos que você mencionou são importantes. E, obviamente, a avaliação da importância de cada um deles tem que ser contextual, tem que ser em função da competição eleitoral. Ou seja, como é que está o candidato em relação aos seus adversários em cada um desses segmentos, ou no eleitorado de cada um desses segmentos. O cálculo disso exige um conhecimento mais aprofundado da realidade da campanha, do ponto de vista do tabuleiro da competição.

Todos esses pretensos candidatos pertencem a uma mesma base e querem ser vice de uma pessoa. A disputa poderia produzir um efeito contrário, causar fissuras dentro do grupo? 

As disputas sempre geram algum tipo de insatisfação, porque tem um escolhido e outros preteridos. Isso gera sempre uma insatisfação, mas nada que não seja superado pela expectativa de vitória do titular. A expectativa de vitória sobrepuja a tudo e, adiante no percurso, produz a convergência de todo o arco de alianças.

Lula e Flávio Bolsonaro mantêm a liderança nas pesquisas e nada indica uma mudança nesse cenário. Renan Santos, do Missão, e o ex-governador Ronaldo Caiado estão avançando, mas sem ameaçar os dois líderes. O que explica essa polarização?

O que nós temos no momento é a aparência de um remake, de uma reedição da luta, do enfrentamento de 2022. Lembrar que em 2022, no primeiro turno, Bolsonaro e Lula tiveram 92% dos votos. No momento, configura-se um cenário parecido, pelo menos na aparência, como eu estou dizendo. Por quê? Porque a candidatura de Flávio Bolsonaro se mostra vulnerável, mais vulnerável do que se supunha anteriormente. Se não, vejamos: entre dezembro e abril, o candidato Flávio teve uma subida meteórica. Em abril, em boa parte das pesquisas, ele ultrapassou, sobrepujou o presidente Lula. E ele tinha, até aquele momento, uma rejeição baixa, ou relativamente baixa. De repente, de abril para cá, nós estamos falando de dois meses e meio depois das revelações do caso Daniel Vorcaro, nas sucessivas pesquisas, são mais de 12 pesquisas, o candidato Flávio perde todas elas para Lula, e em pelo menos em uma delas, o único candidato que conseguiu ultrapassar Lula foi o ex-governador do Goiás, Ronaldo Caiado, e, nas demais, Flávio Bolsonaro tem um desempenho no segundo turno assemelhado ao dos outros candidatos da direita, mas lembrando que esses outros candidatos têm uma taxa de conhecimento bastante inferior à dele. Ou seja, é uma má notícia para o candidato do PL. E todo dia a imprensa especula com novas revelações, com novas diligências policiais alvejando as relações do senador Flávio. E isso conduz ao eleitorado da direita uma situação de ansiedade que, eventualmente, pode levar, em algum momento, a uma deserção de uma fatia de eleitores ou, por exemplo, de um segmento de políticos. O noticiário veiculado sempre mostra, traz notícias de políticos do campo da direita que evitam a aproximação com o senador por conta do desgaste atual e, pior ainda, do possível desgaste que ainda estaria por vir nas próximas semanas.Tudo isso faz da candidatura de Flávio ainda um barco sem a necessária estabilidade para iniciar a campanha oficial, que começa agora na segunda quinzena de agosto. Há uma aparência, há uma sensação de que a candidatura do senador Flávio ainda é um projeto provisório. Até o momento não tem um vice, pelo menos um vice escolhido, e há muita incerteza em redor do candidato, o senador Flávio Bolsonaro. Diferentemente de 2022, quando o PL rapidamente reuniu uma coalizão com os republicanos, com os progressistas e com o União Brasil. Nós precisamos ver como se dará o processo de recuperação, ou não, das condições de competitividade do senador Flávio. Sintetizando, embora não se veja sinais muito fortes ainda de erosão eleitoral do senador Flávio, já se percebe com nitidez sinais de fragilização política da candidatura. E os movimentos políticos costumam preceder os movimentos eleitorais. 

As pesquisas, longe de fazer um exercício de futurologia, no agregador de pesquisas, ajudam a identificar tendências. Na atual conjuntura, qual é a tendência da eleição deste ano?

Na atual conjuntura, a tendência é que, se o senador Flávio for o candidato que continue com maior força no campo da direita e vá para o segundo turno, as pesquisas hoje, todas ou 95% delas, apontam uma provável vitória do atual presidente, do incumbente.

É isso que nós temos hoje da leitura das pesquisas de primeiro e de segundo turno. Agora, como eu disse, a partir da política, esse quadro ainda pode mudar. 

O que as pesquisas, no agregado, apontam sobre o restante da campanha presidencial do ex-governador Ronaldo Caiado?

Há um consenso formado no país, isso entre analistas, entre o mercado e boa parte dos empresários – eu vi isso, por exemplo, na segunda-feira, quando eu fiz uma apresentação no almoço do Lide (Grupo de Líderes Empresariais) presidido pelo ex-governador João Dória, em São Paulo, e abertamente, se colocava isso que eu vou repetir – boa parte do empresariado ansiando pela desistência, afastamento, chamemos como chamemos, o afastamento do senador Flávio. E, abertamente, mencionando o nome do ex-governador Ronaldo Caiado como aquele nome que pode, de fato, restituir à direita as condições de enfrentar, vencer e ter êxito, numa campanha contra o presidente Lula no segundo turno deste ano de 2026.

Redação Tribuna do Planalto

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