O presidente da Junta Comercial do Estado de Goiás (Juceg), Euclides Barbo Siqueira, avalia que o avanço da exploração de terras raras e a expansão da indústria automotiva estão abrindo uma nova frente de oportunidades econômicas no Estado. Segundo ele, esses grandes investimentos estimulam a formação de uma cadeia de pequenos negócios e serviços nas regiões que recebem os empreendimentos. Na entrevista à Tribuna do Planalto, Euclides também aponta a indústria automotiva como outro vetor importante de crescimento, impulsionado pela chegada de montadoras e pela produção de veículos elétricos em Goiás. Na avaliação do presidente da Juceg, a atração de empresas ligadas à inovação, à tecnologia e à transformação industrial tende a consolidar novas cadeias produtivas no Estado, ampliando o valor agregado da economia goiana e criando novos mercados para fornecedores e prestadores de serviços.
Andréia Bahia e Lucas de Godoi
Quais foram os principais números de abertura e fechamento de empresas registrados pela Junta Comercial nos últimos anos? Como o senhor avalia o quadro atual?
Olha, normalmente a abertura sempre está maior do que o fechamento. O fechamento gira em torno de 40% e as aberturas aumentam cerca de 60% todo mês. É por isso que nós estamos batendo esses recordes.
E quais fatores explicam esse crescimento?
Em primeiro lugar, é o governo trabalhando para que Goiás cresça, melhorando a saúde, a educação, a segurança pública, emprestando dinheiro pela Goiás Fomento e oferecendo os cursos que a OVG leva às comunidades. Tudo isso dá vontade para que as pessoas se estabeleçam e abram empresas. Isso vem com os MEIs e com as empresas simples também. Tudo isso faz a diferença.
Quais setores da economia têm liderado essa expansão na abertura de novos negócios?
O setor que mais liderou, por enquanto, foi o das empresas que ajudam outras empresas a se estabelecer, como contadores e fintechs.
Setor de serviços?
Isso porque o setor de serviços foi o que mais cresceu. Também não posso deixar de citar a Região da 44, que fomentou muitas aberturas de empresas com os trabalhos realizados lá. Houve ações em várias cidades ligadas à 44, com cursos e incentivo à abertura de empresas e ao crescimento dessas atividades no interior, não apenas em Goiânia.
Então houve um aumento de empresas atuando no segmento da moda, prestando serviços para a Região da 44, como facções e confecções em outros municípios?
Isso mesmo. Está difundido em Goiás como um todo. Tem o polo de Piracanjuba, o polo de Ipameri, com roupa íntima, e Jaraguá, com jeans. Tudo isso está dentro desse cinturão da moda que existe hoje.
O senhor tem números do crescimento que esse cinturão da moda trouxe de novos CNPJs para o Estado?
Eu tenho a estatística aqui. Em primeiro lugar está o serviço combinado de apoio a escritórios e apoio administrativo, aquelas empresas que ajudam outras empresas. Em segundo lugar, no mês de maio, abriram 545 empresas desse segmento. Os serviços combinados de promoção de vendas foram 334. Esses números vêm se mantendo. Abrem muitas empresas e cerca de 40% fecham. E fecham porque, muitas vezes, a pessoa não conhece o negócio, não consegue financiamento ou não estudou bem antes de abrir. Outro dado importante é o crescimento das mulheres administrando empresas.
Qual é o número dessa evolução?
Foram 30.048 empresas ME abertas. As não ME abriram 10.131, que são empresas um pouco maiores do que as de uma pessoa só.
Há regiões do Estado em que a Juceg percebe desempenho acima da média na criação de novas empresas?
Nós fazemos um ranking das cidades. Em maio, Goiânia liderou, seguida por Aparecida, com mais de 1.400 empresas, Anápolis, com 883, e Rio Verde, com 425. As dez primeiras vão até Jataí, incluindo Senador Canedo e Valparaíso.
São justamente os maiores municípios do Estado, não?
Isso. Tirando Valparaíso e Senador Canedo, o restante é muito vocacionado ao agro.
O agro continua sendo muito importante e movimenta também a capital, porque gera muitos serviços que agregam renda em Goiânia. Valparaíso cresce muito com a construção civil. Já em Águas Lindas, por exemplo, o mercadão implantado pelo governo fomentou muitas aberturas de empresas, porque quem queria se estabelecer precisava ter um CNPJ.
O permissionário acaba estruturando um pequeno negócio formal.
Exatamente. O governo ajudou a abertura desses negócios, oferecendo recursos sem juros. Para acessar esse dinheiro, era necessário ter CNPJ. Foi daí que surgiu essa ideia de fomentar o interior por meio desses mercadões.
O acesso ao crédito ainda é um desafio para os empreendedores goianos?
O empreendedor estabelecido tem acesso a várias linhas de crédito dentro do Estado. O governo vê isso com muito interesse. Recentemente foi aberto o Pequi Bank justamente para fomentar essas pequenas empresas e ajudá-las a crescer. Mas o empreendedor também precisa estudar. Muitas pessoas que fazem os cursos descobrem que o problema não é dinheiro, mas uma administração ruim. Aí entram as associações comerciais e o Sebrae, ajudando na formação. Cria-se uma corrente do bem para melhorar a gestão das empresas e aumentar sua sobrevivência.
O MEI tem vida útil média de três anos?
Mais ou menos isso. A grande maioria dura mais, mas existe aquela parcela de cerca de 40% que não consegue se sustentar.
Goiás tem atraído empresas de outros estados?
Um movimento importante hoje é o das terras raras. Há muita indústria ligada à prospecção desses minerais e de outros recursos existentes em Goiás. Isso gera empregos e cria um ecossistema em torno desses lugares, melhorando a vida das pessoas.
Que tipo de empresas orbitam esse mercado das terras raras, que ainda parece distante do cotidiano das pessoas?
Todo esse ecossistema cria pequenas empresas. Tem manutenção de máquinas, porque é muito caro para a empresa principal manter equipes próprias no local. Então ela contrata empresas que ficam orbitando em volta dela. Tem também fornecimento de alimentação e outros serviços que atendem essa cadeia.
Algum outro setor com esse mesmo perfil?
A mesma lógica vale para a indústria automotiva. Com a vinda das montadoras chinesas, isso está fomentando novos negócios em Goiás. Aqui vai fabricar carro elétrico e também há a operação em Catalão, na Mitsubishi. Todo esse ecossistema atrai outras empresas e impulsiona o crescimento. São fornecedores, prestadores de serviços e empresas que fazem a transformação da matéria-prima, gerando emprego e renda nas regiões onde esses investimentos se instalam.
Além das terras raras e da indústria automotiva, quais setores devem concentrar investimentos nos próximos anos?
Tem muita empresa ligada ao agro em Jataí e Rio Verde. Lá está a maior cooperativa do Brasil e os números impressionam. O agro atrai muitas empresas, mas precisa ser transformado. A gente vende muitas commodities e precisa pensar grande, facilitando a vinda das empresas que fazem essa transformação. Quando você vende a soja em grão, ganha uma coisa. Quando se vende o óleo, por exemplo, existe um valor agregado maior. É isso que fortalece a economia e gera mais oportunidades. Anápolis também é um exemplo, com o Daia e o setor farmacêutico crescendo cada vez mais. O governo está ampliando a estrutura para receber novas empresas. Em outras regiões, os pólos industriais e de desenvolvimento seguem a mesma lógica: oferecer infraestrutura para atrair investimentos e criar novos ecossistemas produtivos.
Qual foi o impacto da digitalização da Junta Comercial?
Antes de 2019, abrir uma empresa em Goiás levava de três a quatro meses. A partir de 2019, fizemos a Junta 100% digital. Hoje, você pode abrir uma empresa estando em Goiânia ou no Japão. Com todos os documentos corretos, uma empresa comum é aberta, em média, em 22 horas. Com o contrato padrão, é possível abrir uma empresa em até 14 segundos, já com CNPJ emitido.
Quais avanços permitiram essa redução da burocracia?
A Junta 100% digital eliminou a necessidade de levar papel para a prefeitura, vigilância sanitária e bombeiros. Antes, o processo passava por muitos lugares. Eu costumo dizer que a Junta é o meio que liga o sonho do empreendedor à empresa aberta. Ela não pode ser um problema. Tem que ser a solução. As parcerias com Sebrae e Acieg também ajudam muito. São mais de 200 cursos gratuitos disponíveis pela internet, ensinando desde administração até gestão financeira. Porque muita gente acha que o caixa da empresa é o bolso direito e o da família é o bolso esquerdo. E não é assim. Empresa é empresa. Família é família. Você tira o pró-labore e leva esse dinheiro para casa.













