O dia 21 de fevereiro carrega em si um peso histórico imensurável. Em 1945, essa data marcou o fim da Batalha de Monte Castello, quando a Força Expedicionária Brasileira (FEB), após três meses de enfrentamento, derrotou as tropas nazifascistas entrincheiradas no norte da Itália, garantindo um avanço crucial para a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Oito décadas depois, em 2025, essa mesma data é lembrada por outro motivo: a celebração do Dia Internacional da Língua Materna, instituído pela UNESCO para promover a preservação e valorização dos idiomas nativos, que são o alicerce cultural das nações.
Entre essas duas efemérides há um vínculo direto. Se hoje falamos português, se nossa identidade cultural não foi suprimida por um regime totalitário e se nossa língua pôde prosperar, muito se deve à derrota das forças nazistas, na qual o Brasil teve um papel de relevância. Em tempos de dominação, quem controla o idioma, controla o pensamento. Se a história tivesse tomado outro rumo, talvez nossa realidade linguística fosse bem diferente.
A participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial foi um divisor de águas para o país, que até então mantinha uma posição de neutralidade. O conflito global trouxe ao governo Vargas pressões internas e externas, até que, em 1942, após o ataque de submarinos alemães a navios brasileiros, não havia mais espaço para a inércia. O Brasil declarou guerra ao Eixo e, em 1944, enviou cerca de 25 mil soldados à Itália, formando a Força Expedicionária Brasileira.
O Monte Castello está situado em Gaggio Montano, a 40 km a norte de Pistoia, cujo cemitério há um monumento aos combatentes brasileiros, denominado Monumento ai Caduti Brasiliani, o qual foi inaugurado na via Località Abetaia, próximo a Abetaia (Gaggio Montano) na belíssima região dos Apeninos setentrionais, localizado entre a Toscana e Emília-Romanha. A batalha de Monte Castello está inserida na 2ª fase da Operação de Rompimento da Linha Gótica (no setor de responsabilidade do IV Corpo do V exército americano [2]), na Campanha da Itália.
Monte Castello foi um dos episódios mais desafiadores dessa campanha. As tropas alemãs, estrategicamente posicionadas nas montanhas do Apenino Setentrional, barravam o avanço dos Aliados rumo ao norte da Itália. Durante três meses, os brasileiros enfrentaram frio extremo, terreno acidentado e resistência implacável do exército alemão. Diversas tentativas frustradas fizeram com que a batalha se tornasse um verdadeiro teste de resiliência para os combatentes brasileiros.
Em novembro de 1944, a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (DIE), após cumprir as missões a ela delegadas na frente de batalha no vale do rio Serchio (onde vinha combatendo há cerca de dois meses), foi enviada para a frente do rio Reno,[1] na base dos Apeninos setentrionais, na divisa central das regiões da Toscana e Emília-Romanha. Neste ponto da Linha Gótica, num perímetro que tinha um raio aproximado de 20 quilômetros, cobrindo uma área que tinha à frente montanhas sob controle dos alemães, o general Mascarenhas de Moraes montou seu quartel-general avançado, na localidade de Porretta Terme.[2]
Foi uma batalha árdua, a visão dos montes gelados e a posição privilegiada do Exército Alemão causavam apreensão. As posições de artilharia alemãs eram consideradas privilegiadas, submetendo os aliados à uma vigilância constante, dificultando qualquer avanço em direção à Bolonha e ao Vale do Pó. Estimativas davam conta que o inverno seria rigoroso, complicando a situação que no outono, já havia se degenerado devido às chuvas que transformaram as estradas já esburacadas pelos bombardeiros aliados, em lamaçais.
Os contornos eram piores do que as estimativas e previsões, restaram os ideiais e a bravura do Exército brasileiro e durante mais trinta dias a batalha se intensificou e a vitória foi alcançada exatamente no dia 21 de fevereiro de 1945, há exatos 80 anos, marcando importante passo rumo à vitória dos aliados contra o Exército Alemão. Devemos assim, à Força Expedicionária Brasileira, nossa reverência e agradecimento.
Naquele dia, após um ataque coordenado com tropas americanas, a FEB conseguiu tomar Monte Castello. Essa vitória abriu caminho para novas conquistas e consolidou a presença brasileira no esforço de guerra. O triunfo da FEB foi mais do que uma conquista militar, foi uma afirmação do Brasil no cenário internacional e um testemunho da bravura de seus soldados.
Se hoje não aprendemos alemão nas escolas como língua oficial e se nossa cultura e soberania foram preservadas, devemos lembrar que isso se deve, em parte, ao sacrifício daqueles que combateram regimes que impunham o terror e a uniformização forçada das nações dominadas.
O Dia Internacional da Língua Materna, celebrado em 21 de fevereiro, reforça a importância da preservação dos idiomas como símbolo de identidade cultural e resistência. O idioma é mais do que um meio de comunicação: ele carrega a história, os valores e o pensamento de um povo. Quando uma língua é suprimida, não se perde apenas um vocabulário, mas um universo inteiro de ideias e perspectivas.
Se há um nome que sintetiza a grandiosidade da língua portuguesa no Brasil, esse nome é Machado de Assis. Nascido em 1839, filho de uma lavadeira e um pintor de paredes, o escritor autodidata tornou-se o maior expoente da literatura nacional. Suas obras, como Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, não apenas elevaram o português a um nível de refinamento inédito, como também revelaram a complexidade da alma humana.
Machado de Assis não apenas dominou a língua, mas a explorou em sua plenitude. Com ironia sofisticada e uma crítica social afiada, ele desafiou a previsibilidade da literatura de seu tempo, consolidando-se como um dos maiores escritores da língua portuguesa. Sua obra transcendeu fronteiras e permanece atual, sendo estudada em diversos países.
A língua portuguesa, assim como a cultura de qualquer nação, permanece viva graças àqueles que a defendem, estudam e a celebram. Se no passado nossas forças armadas lutaram para que o português continuasse sendo nossa língua materna, hoje, é dever de escritores, educadores e da sociedade como um todo assegurar sua valorização e preservação, mantendo viva a memória histórica e protegendo as conquistas que nos definem como povo.
O dia 21 de fevereiro nos lembra que uma nação se constrói tanto pela força de seus soldados quanto pela riqueza de sua língua e cultura. Monte Castello simboliza o sacrifício daqueles que lutaram para preservar a liberdade, enquanto o Dia Internacional da Língua Materna reforça a necessidade de proteger um dos maiores patrimônios imateriais de um povo: seu idioma.
Se a história tivesse tomado outro rumo, se o totalitarismo tivesse vencido, se as forças que buscavam a dominação global tivessem prevalecido, talvez não estivéssemos aqui discutindo nossa língua, nossa literatura e nossa identidade. A luta pela liberdade não se dá apenas nos campos de batalha; ela acontece no uso cotidiano da língua, na valorização de nossa história e na resistência contra qualquer tentativa de apagamento cultural.
Ao lembrar Monte Castello e ao celebrar a língua portuguesa, reafirmamos nosso compromisso com a preservação de nossa história e identidade. O Brasil pode não ter sido um dos protagonistas da Segunda Guerra, mas seu papel foi determinante para que hoje possamos continuar nos expressando em nossa língua, sem imposições estrangeiras, sem ameaças à nossa soberania cultural.
Se Machado de Assis, com sua genialidade e perspicácia, imortalizou a língua portuguesa através de suas obras literárias, a Força Expedicionária Brasileira (FEB), com sua coragem e determinação, assegurou a continuidade da língua e da cultura brasileira no cenário global durante a Segunda Guerra Mundial. A FEB, ao lutar pela liberdade e democracia, não apenas defendeu a pátria, mas também preservou a identidade cultural brasileira, demonstrando que a língua e a cultura são elementos indissociáveis da soberania de uma nação.
Oito décadas após esse feito histórico, cabe a nós, como herdeiros desse legado, valorizar e proteger a língua portuguesa e a cultura brasileira, reconhecendo que são pilares fundamentais da nossa identidade e da nossa história.
Haben Sie jemals darüber nachgedacht, ob wir Deutsch sprechen würden?