Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito e iniciará, em 5 de janeiro de 2027, seu quarto mandato na Presidência, com duração de quatro anos. O resultado foi confirmado pelo Tribunal Superior Eleitoral e a posse ocorrerá na data prevista para quem foi eleito em outubro de 2026. Sua agenda combina equilíbrio fiscal, políticas sociais e investimentos. O desafio será conciliar essas frentes com desaceleração, juros elevados, inflação e endividamento das famílias.
As diretrizes incluem manter o arcabouço fiscal e buscar superávit primário de 0,5% do Produto Interno Bruto em 2027, preservar Bolsa Família e Gás do Povo, valorizar o salário mínimo e isentar do Imposto de Renda quem recebe até R$ 5 mil. Na área do trabalho, propõem jornada semanal de 40 horas, fim da escala 6×1 até 2027 e regulamentação do trabalho por aplicativos, com proteção previdenciária a autônomos. O conjunto também busca preservar benefícios e ampliar a renda, sem detalhar, nas diretrizes reunidas, como cada compromisso será financiado.
Também estão previstas a continuidade da Nova Indústria Brasil e do Novo PAC, com investimentos em infraestrutura, ciência, tecnologia e inovação; a expansão do Minha Casa, Minha Vida, do crédito rural e do Plano Safra; e medidas para fontes renováveis, economia verde e mercado de carbono. As propostas incluem o mercado regulado de carbono e a continuidade de linhas de crédito com participação pública. A execução dependerá de recursos e prioridades.
A contadora Sucena Hummel considera possível sustentar a combinação de gastos sociais, investimentos e meta fiscal, mas aponta que será necessário mexer na composição do orçamento. Ela cita a previsão de superávit de R$ 73,2 bilhões em 2027 e alerta para gargalos na execução, entre eles o que chama de “Pacotão Eleitoral” e o otimismo das projeções macroeconômicas. Para conter a pressão sobre os juros, defende revisão de despesas, combate a fraudes em benefícios, limites a reajustes do funcionalismo e controle de supersalários e emendas parlamentares.
Na arrecadação, Sucena propõe compensar renúncias fiscais e depender menos da criação de tributos, apostando no crescimento e no crédito privado. Também aponta disputas entre Executivo e Legislativo sobre emendas e mecanismos para congelar despesas. A contadora menciona ainda a discussão sobre as alíquotas do Imposto Seletivo na regulamentação tributária. São decisões que podem alterar tanto a margem de ajuste do governo quanto a relação com o Congresso. Fábio Murad, economista e sócio-diretor da Wiser Avaliações, concorda que o equilíbrio fiscal é condição para juros menores, mas ressalta o custo de elevar impostos. “O caminho deveria ser controlar despesas obrigatórias, melhorar a eficiência dos gastos públicos e atrair investimentos privados”, afirma. Para ele, responsabilidade fiscal e políticas sociais podem coexistir, desde que haja credibilidade para financiá-las no longo prazo.
As medidas de renda podem afetar consumo e custos. A isenção do IR e a valorização do mínimo ampliam a renda disponível, enquanto a jornada menor altera despesas e organização das empresas. Sucena avalia que as iniciativas têm potencial para movimentar a economia, mas condiciona seus resultados à capacidade de absorção dos empregadores e a ganhos de produtividade. Sem esse avanço, diz, o estímulo à demanda pode se converter em pressão inflacionária e elevar custos de produção.
Fábio apresenta avaliação semelhante e destaca riscos para empresas menores. “Caso contrário, podem pressionar a inflação e os custos das empresas”, afirma sobre a necessidade de atrelar a expansão da renda à produtividade. A redução da jornada, em particular, exige cautela para que não prejudique pequenos negócios nem a geração de empregos. Para ambos, a renda pode impulsionar o consumo, mas seu efeito duradouro depende da produção e da capacidade empresarial de absorver mudanças sem repassar custos ou reduzir contratações.
Nos investimentos, os entrevistados veem potencial na indústria, infraestrutura e crédito produtivo, desde que haja critérios para o uso do dinheiro público. Sucena vê na Nova Indústria Brasil uma oportunidade de modernização tecnológica e no Novo PAC uma forma de reduzir gargalos logísticos. Também considera relevante o crédito agrícola quando direcionado à tecnologia e à eficiência. Ela defende avaliar produtividade, viabilidade econômica, retorno social, sustentabilidade e transparência, e afirma que o êxito deve ser medido pelo que os investimentos entregam, não pelo volume anunciado.
Fábio dá prioridade à infraestrutura, sobretudo em logística, energia e transporte, e considera importantes a modernização industrial e o crédito agrícola se houver inovação e eficiência. Para ele, recursos públicos devem apoiar projetos com retorno econômico demonstrável, sem manter setores dependentes de subsídios. Ambos defendem metas de produtividade e competitividade. Sucena acrescenta retorno social e empregos qualificados; Murad enfatiza capital privado e menor dependência do Estado.
Diante da desaceleração, do crédito caro e das dívidas familiares, Sucena prioriza responsabilidade fiscal, redução do endividamento e produtividade. Para avaliar os resultados, propõe acompanhar o emprego formal, renda real, inflação, produtividade e sustentabilidade da dívida pública, além do PIB. Murad também coloca a confiança fiscal e o investimento produtivo no centro das prioridades e alerta que ampliar crédito, por si só, não resolve o problema das famílias. Entre os indicadores que sugere estão a dívida em relação ao PIB, inflação, juros reais, investimento, produtividade, emprego formal e inadimplência.
As respostas convergem: as promessas serão avaliadas pelo impacto social e pela capacidade de sustentar crescimento sem desequilíbrio fiscal ou inflação persistente. O governo terá de definir despesas prioritárias, fontes de financiamento e investimentos com resultados mensuráveis. Para os especialistas, renda, infraestrutura e programas sociais podem apoiar a atividade se vierem acompanhados de produtividade, eficiência e previsibilidade fiscal. O desempenho dependerá das decisões do governo e do Congresso.
LEIA TAMBÉM:
Lula diz que medicina ficou “mercantilizada” durante sanção de lei que cria Enamed












