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Pesquisadores alertam para risco de entrada de novo vetor de malária no Brasil

Estudo da USP indica que o mosquito Anopheles stephensi, já presente em 14 países, pode chegar ao Brasil por rotas marítimas e encontrar condições climáticas favoráveis para se estabelecer em áreas urbanas.


Avatar Por Redação Tribuna do Planalto em 10/09/2025 - 09:50

Comércio marítimo pode facilitar o transporte do Anopheles stephensi para novas localidades. Foto: Wikimedia Commons

As mudanças climáticas e o comércio internacional estão criando um cenário de alerta para a saúde pública no Brasil. Pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública (FSP) e do Grupo de Estudos em Saúde Planetária Brasil (SPBr) do Instituto de Estudos Avançados (IEA), ambos da USP, apontam a vulnerabilidade do país à introdução do mosquito Anopheles stephensi, novo vetor da malária em expansão global.

Originário da Ásia, o inseto foi identificado como espécie invasora pela primeira vez em 2012, em Djibuti, na África. Desde então, já se espalhou para cerca de 14 países, adaptando-se rapidamente a centros urbanos — um cenário distinto do vetor predominante no Brasil, o Anopheles darlingi, restrito a áreas de floresta.

Por que o Brasil está em risco?

O estudo, publicado na revista Scientific Reports, mostra que o Brasil apresenta alta aptidão climática para abrigar o mosquito, com condições semelhantes às de regiões já invadidas. O transporte marítimo é apontado como a principal porta de entrada: ovos e até mosquitos adultos podem ser levados em navios cargueiros e descarregados nos portos brasileiros, que se localizam em grandes áreas urbanas.

Segundo André Luís Acosta, coordenador do GTI em Mudanças Climáticas e Saúde do SPBr e um dos autores da pesquisa, essa rota representa risco concreto:

“Quando um navio descarrega mercadorias em outro porto, pode levar até mesmo mosquitos adultos, que eclodem durante a viagem”, explica.

O vetor e a doença

O Anopheles stephensi é comparável ao Aedes aegypti (dengue, zika e chikungunya) em termos de comportamento. Ele deposita ovos em recipientes com água parada, como pneus e caixas d’água, facilitando sua proliferação em áreas urbanas.

Esse mosquito transmite o protozoário Plasmodium, causador da malária — uma doença infecciosa potencialmente fatal se não tratada. O ciclo de transmissão ocorre quando o inseto pica uma pessoa infectada e depois transmite o parasita a indivíduos saudáveis.

No Brasil, a malária se concentra hoje na Amazônia, transmitida principalmente pelo Anopheles darlingi. Caso o A. stephensi se estabeleça, há risco de urbanização da malária, ampliando a transmissão para grandes cidades.

Mudanças climáticas ampliam a ameaça

A pesquisa utilizou modelos climáticos globais (CMIP6) para projetar cenários futuros até 2100. Os resultados indicam que atualmente 40% da população mundial vive em áreas com clima propício ao mosquito, proporção que pode chegar a 56% até o fim do século.

Esse aumento da aptidão climática é explicado pela elevação das temperaturas e mudanças nos padrões de precipitação, que criam novos hábitats para espécies invasoras.

“Se o clima é parecido, o risco já é muito grande. A barreira climática some, e o mosquito encontra condições perfeitas para se estabelecer, assim como já ocorre com o Aedes aegypti”, alerta Acosta.

O que está sendo feito?

Atualmente, não existem ações sistemáticas de vigilância voltadas para detectar o Anopheles stephensi em portos brasileiros. Pesquisadores têm chamado atenção para essa lacuna com iniciativas como a Campanha Malária Global, que busca sensibilizar órgãos públicos e a população.

Enquanto medidas governamentais não avançam, especialistas recomendam os mesmos cuidados adotados contra o Aedes aegypti: evitar o acúmulo de água parada em recipientes e reforçar a mobilização comunitária.

Próximos passos

Para os autores, o monitoramento entomológico nos portos é urgente. A detecção precoce do mosquito antes da transmissão da malária seria a estratégia mais eficaz para conter sua introdução.

“Não temos nenhuma ideia se ele já chegou ao Brasil, porque não há coleta sistemática em portos para esse fim. Esse é nosso principal motivo para alertar”, conclui Acosta.

O estudo completo pode ser acessado neste link.

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