Helen Jaine Gomes Borgens, de 25 anos, é a primeira mulher quilombola a ingressar na carreira diplomática; turma tem 27 representantes de grupos historicamente sub-representados
A goiana Helen Jaine Gomes Borgens tomou posse como primeira mulher quilombola a ingressar na carreira diplomática brasileira. A cerimônia foi realizada na última quarta-feira (4), no Palácio Itamaraty, em Brasília.
Helen tem 25 anos e nasceu na comunidade quilombola do Retiro, em Simolândia, no nordeste goiano, a cerca de 460 quilômetros de Goiânia. Ela é formada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Goiás (UFG).
A nova diplomata integra a turma 2026-2028 do Instituto Rio Branco, responsável pela formação dos novos diplomatas. Antes de assumir postos no exterior, ela passará pelo curso de formação na instituição, em Brasília.
A trajetória até a aprovação
Helen ingressou no curso de Relações Internacionais da UFG e concluiu a graduação em 2025. O interesse pela carreira diplomática surgiu ainda em 2017, quando se preparava para o vestibular. A possibilidade foi apresentada por um professor de História e despertou seu interesse pelo serviço exterior.
Durante a graduação, chegou a questionar a escolha profissional, mas voltou a se dedicar ao objetivo após cursar uma disciplina de Política Externa Brasileira. Depois de concluir a universidade, retornou a Simolândia para estudar para o concurso.
A preparação exigiu superar dificuldades de acesso à educação especializada. Sem a mesma oferta de cursos preparatórios disponível nos grandes centros, Helen organizou os próprios estudos e dedicou parte da rotina ao aprendizado de idiomas. Em entrevista à UFG, ela destacou o orgulho de representar sua comunidade e afirmou que sonha em chegar ao posto de embaixadora.
Uma turma histórica
A posse de Helen ocorre em um momento de mudança no perfil da diplomacia brasileira. Pela primeira vez, o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) reservou vagas específicas para indígenas e quilombolas.
A medida foi possível com a Lei nº 15.142/2025, a nova lei de cotas, que ampliou a reserva de vagas em concursos federais para pessoas pretas, pardas, indígenas e quilombolas.
Dos 60 aprovados na turma, 27 pertencem a grupos historicamente sub-representados na diplomacia. São 17 pessoas negras, sete pessoas com deficiência, dois indígenas e uma quilombola. A turma também registra a maior participação proporcional feminina da história do Instituto Rio Branco, com 45% de mulheres.
Além de Helen, tomaram posse os indígenas Marcelo Kariri Menezes, do povo Kariri, e Idjahure Terena, do povo Terena.
Repercussão e expectativas
A ministra substituta das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, participou da cerimônia e destacou a importância da diversidade no serviço diplomático.
“Em tempos de ameaças à democracia e aos direitos duramente reconhecidos na Constituição de 1988, celebrar a entrada dos primeiros diplomatas indígenas e quilombolas brasileiros nessa instituição bicentenária é um ato de resistência”, afirmou.
O escritor e intelectual indígena Ailton Krenak, membro da Academia Brasileira de Letras, foi convidado de honra da cerimônia.
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