Vozes femininas gritando desesperadas. Pelo menos 70 corpos estirados no chão, alguns mutilados, sem braço, sem perna, sem cabeça. A cena não é do Vietnã, da Faixa de Gaza ou da Ucrânia, mas do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, em uma quarta-feira de manhã. Para se ter uma ideia do horror, todos os mortos foram procurados e transportados por moradores, sem auxílio do estado, e ainda pior, ficaram expostos por horas diante de crianças, das viúvas, mães e avós. Muitas mulheres identificavam seus parentes por tatuagens e cicatrizes, ao mesmo tempo que presenciavam os corpos desfigurados. Essa foi a operação mais letal da história do estado, que deixou pelo menos 120 vítimas e colocou a cidade em pânico. Foi seguramente um massacre.
O governo de Cláudio Castro tem como marca produzir chacinas e já assassinou 890 pessoas nessas circunstâncias – entre essas, estavam policiais, trabalhadores, mulheres e crianças. De tempos em tempos, o chefe do executivo elege um inimigo para supostamente combater e deixa como legado para a população o banho de sangue, o caos, o terror e nenhuma solução. As operações seguem a mesma lógica: uma caça a determinado líder do tráfico ou da milícia. Contudo, já se sabe, jamais se cumpre.
Doca, chefe do Comando Vermelho que mobilizou a megaoperação no Complexo do Alemão, é “caçado” por operações policiais há pelo menos dois anos. Em todas as vezes, dezenas de vidas foram interrompidas, milhões de reais em efetivo policial, armamento e munição foram desperdiçados, a vida da população ficou em risco, escolas foram fechadas, unidades de saúde tiveram serviços interrompidos, mobilidade urbana foi comprometida e Doca segue solto até hoje, chefiando a maior facção do estado. E, ao contrário do prometido pelo Governador, nenhum centímetro de território foi “retomado” pelas forças policiais no período.
Sem planejamento efetivo para a segurança pública, o chefe do executivo fluminense faz do terror um palanque eleitoral e sem se preocupar em resolver o problema. Podemos afirmar isso, pois enquanto brada ser linha-dura contra o crime, não investiu um real sequer na polícia técnico-científica. Sem inteligência, sem articulação com as outras forças de segurança, Castro agiu sozinho, em uma empreitada que só revelou a sua incompetência. O governador, que será candidato ao senado no próximo ano, quer fazer dos corpos mortos o seu troféu. No entanto, suas ações serviram apenas para autopromoção e sequer arranharam as estruturas faccionais. De concreto, resta para a população carioca e fluminense, como herança, conviver com o pânico, o luto, a dor e nenhuma segurança.
Para não dizer que não falei das flores
Para se ter uma ideia do absurdo dessa operação, em um só dia, as mortes cometidas por policiais no Rio de Janeiro aumentaram quase 20% em relação ao acumulado de todo o ano de 2025. Além disso, as mortes de policiais aumentaram 65% no Rio esse ano. A aposta na lógica do combate está deixando milhares de famílias destruídas e, enquanto o governador brada aos quatro cantos que isso é um sucesso, o faz em cima do sangue do próprio povo que o elegeu e dos policiais que chefia.
Parte das pessoas se perguntam se, então, deveríamos dar flores aos bandidos nas favelas cariocas. Devo dizer que não.
Definitivamente, não deveríamos dar flores – mas se não dessem fuzis, já ajudaria muito. Não é preciso uma enorme digressão para perceber que a conformação das facções como forças bélicas importantes não foi espontânea. Um fuzil não surge em uma favela. Um armamento de uso restrito das Forças Armadas não vai parar, do nada, na mão de um menino preto, de 15 anos, subnutrido e sem escolaridade. É preciso deslocamento autorizado, ordens superiores, criminosos de colarinho-branco e muitas relações cotidianas que misturam crime e instituições policiais.
Não estamos falando de água e óleo – na vida real, longe da narrativa dualista que Castro tenta emplacar, como se no Rio houvesse uma guerra do bem e do mal, ele mesmo teve como parceiro político TH Jóias, preso por fornecer armas ao Comando Vermelho (CV). As coisas se misturam e é preciso afetar a raiz: usar tecnologias para rastrear armas, penetrar nas redes financeiras das organizações criminosas e começar, por dentro, a desconstruir sua influência no Estado. Eles sabem como fazer: na Operação Lume, que apreendeu 117 fuzis, não houve um só disparo. Mas, a tática inteligente não rende bravatas eleitoreiras e, por vezes, leva seus aliados para a cadeia.
Um palanque de corpos mortos
Cláudio Castro deslocou 2.500 policiais para uma única região da cidade sem informar ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. Depois, alegou publicamente não ter recebido apoio do Governo Federal (apoio esse jamais solicitado). A própria cúpula da polícia informou, em coletiva, que a incursão foi planejada por um ano e o que sabemos é que, nesse período, nenhuma demanda foi encaminhada à União. Paradoxalmente, há oito meses um relatório sobre o Comando Vermelho foi enviado ao governo Trump, pedindo auxílio no combate à organização criminosa. Fica evidente que boicotar as instâncias federais foi uma escolha. A trama trumpista de sufocamento da democracia brasileira não começou hoje e nem está isolada na família Bolsonaro: é fruto de um trabalho árduo do campo político do governador. Desse mesmo lado, está Ronaldo Caiado.
O povo carioca foi oferecido em sacrifício aos interesses políticos dos amigos de Caiado. E o governador de Goiás, que acredita nesse mesmo modelo de segurança pública orientado pela produção de morte, veio até o Rio construir alianças. Como se a vida da população fosse moeda de troca entre forças políticas, governadores se reuníram na última quinta-feira para articularem estratégias anti-petistas e criaram o “consórcio pela paz”, um gabinete paralelo. Na prática, a tática é fazer oposição às propostas lideradas pelo governo federal, como a PEC da Segurança, que visa apoiar os estados com forças nacionais para o combate a organizações criminosas e cria um sistema único integrado entre as forças federais e estaduais.
A estratégia de isolamento dos governadores em relação à administração federal é uma aposta no “quanto pior, melhor”. Todo mundo já está em campanha e Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Tarcísio de Freitas são cotados como presidenciáveis no próximo ano. Nessa corrida eleitoral, quem vai ficando para trás será o povo, que terá que lidar diuturnamente com os efeitos dessas escolhas. Enquanto eles criam problemas para se venderem como solução, se observa policiais e civis em risco, sangue derramado e centenas de mães aos prantos, marcadas pela cena de seus filhos brutalmente mortos.
Não há um projeto consistente sequer para a segurança pública que tenha partido dessas figuras. No Rio e em Goiás, os governos matam como se fosse permitido, se colocam acima da lei e a população vive com medo. A polícia goiana é responsável por 30% dos homicídios no estado. Chacinas também marcam a gestão do governador goiano e a aposta na letalidade policial fez do estado um verdadeiro faroeste. Mas, enquanto Caiado brada contra os varejistas do tráfico, fala baixo com os fazendeiros e grileiros que lideram disputas agrárias que já exterminaram povos indígenas inteiros. Esses crimes seguem sem qualquer intervenção “linha-dura”.
Não sabemos qual será o próximo passo – do lado de cá, depois do cruzamento da linha do absurdo, nossa obrigação, agora, é lembrar o básico: a morte não pode ser celebrada como sucesso em um estado democrático de direito. Não pode ser um método e nem uma política pública. É urgente dar consequências legais à sanha de governantes que criam o caos para se promoverem diante do medo da população. Governos sem inteligência e que enfileiram corpos devem ser considerados um problema para o país. O Rio virou uma inundação com as lágrimas das mulheres que ficaram marcadas para sempre para contar essa história.
Yasmin Rodrigues de Almeida Trindade, Antropóloga, mestre em Direito. Pesquisadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania e do Grupo de Pesquisa sobre Violência Policial (Necrivi/UFG)



Por Yasmin Rodrigues de Almeida Trindade em 01/11/2025 - 07:59










