Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) lideraram um estudo que revelou uma realidade preocupante. Mais de 80% dos idosos brasileiros com demência nunca receberam um diagnóstico médico.
Os dados foram publicados na revista científica International Journal of Geriatric Psychiatry. A pesquisa analisou informações de 5.249 participantes com 60 anos ou mais do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil).
Dos 392 participantes que preenchiam os critérios para demência, 83,1% não relataram diagnóstico prévio. A taxa de ausência de diagnóstico chegou a 90,2% entre moradores de regiões mais pobres e a 93,9% entre pessoas analfabetas.
Nas regiões consideradas mais ricas do país, o percentual de ausência de diagnóstico foi de 76%. Os autores classificaram as regiões Sudeste e Sul como as mais ricas, enquanto Norte, Nordeste e Centro-Oeste foram agrupados como regiões mais pobres.
Segundo os pesquisadores, a desigualdade no acesso a oportunidades diagnósticas e o baixo letramento em saúde explicam parte dessas diferenças. Além disso, viver sozinho também aumentou significativamente a chance de permanecer sem diagnóstico.
O estudo mostra ainda que idosos com mais anos de escolaridade tiveram menor probabilidade de ficar sem diagnóstico. Isso pode estar relacionado à chamada “reserva cognitiva” e à maior capacidade de reconhecer alterações cognitivas e buscar atendimento.
O Brasil tinha cerca de 2,5 milhões de pessoas vivendo com demência em 2025. Com o envelhecimento populacional, esse número pode triplicar até 2050, chegando a 5,5 milhões de casos.
O neurologista Vitor Tumas explicou ao g1 que o subdiagnóstico de demência é um fenômeno mundial, mas muito mais comum em países pobres com baixo nível sociocultural. Ele destacou que o diagnóstico exige acesso a serviços médicos competentes e políticas dirigidas para o problema.
Tumas reforçou que toda queixa cognitiva, como perda de memória ou dificuldade para resolver problemas, deve ser encarada como um potencial problema de saúde cognitiva. Portanto, a população e os médicos da atenção primária precisam ser educados para fazer um exame básico de triagem cognitiva.














