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Terras raras ainda têm baixa participação na mineração de Goiás

Dados consolidados de 2025 indicam participação de 0,82% na arrecadação, enquanto resultado parcial de 2026 mostra evolução recente do setor


Lucas de Godoi Por Lucas de Godoi em 03/05/2026 - 11:21

terras raras goiás
Goiás lidera produção de terras raras, mas o mineral ainda representa menos de 1% da arrecadação (Foto: Divulgação / Serra Verde)

Apontadas como nova fronteira econômica em Goiás, as terras raras ainda têm impacto limitado na mineração do estado, mesmo diante de investimentos bilionários no setor. Dados consolidados de 2025 da Agência Nacional de Mineração (ANM) mostram que o mineral gerou em volume R$ 1,89 milhão em Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM), espécie de royalty pago pelas mineradoras, o equivalente a 0,82% da arrecadação total, que somou R$ 229,8 milhões no período.

A participação reduzida se mantém mesmo após o início da produção comercial, em 2024, quando as terras raras representaram 1,61% da arrecadação, com cerca de R$ 2,9 milhões. Em 2026, considerando dados parciais até março, o percentual recua para 0,57%, o que indica trajetória de crescimento em fase de consolidação.

No cenário nacional, Goiás mantém posição relevante na mineração brasileira e alterna sua colocação entre os principais estados arrecadadores. Em 2024, ocupou o terceiro lugar, com R$ 181,6 milhões e participação de 2,44% no total nacional, recuando para a quarta posição em 2025, em disputa direta com a Bahia, em um ambiente liderado por Minas Gerais e Pará.

Esse desempenho é sustentado por minerais como níquel, cobre, ouro e nióbio, que concentram a maior parte da receita e mantêm a estrutura produtiva ancorada em commodities metálicas. As terras raras, por sua vez, ainda ficam atrás de insumos de menor valor agregado, como areia, granito e água mineral.

Liderança nacional

Embora ainda tenham participação reduzida na arrecadação estadual, Goiás concentra a produção nacional desse tipo de minério, respondendo por cerca de 87% da CFEM arrecadada no país, o que evidencia uma situação privilegiada, em que o estado lidera uma cadeia ainda pouco desenvolvida no Brasil, e que é tratada como oportunidade de virada econômica.

A mineradora Serra Verde, em Minaçu, é hoje a única produtora em grande escala fora da Ásia das principais terras raras magnéticas, incluindo elementos de alto valor como disprósio, térbio e ítrio, usados na fabricação de ímãs permanentes para veículos elétricos, turbinas eólicas e outras aplicações tecnológicas.

Como um dos três a quatro principais produtores minerais do país, o estado já reflete esse peso na própria balança comercial. Levantamento da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) mostra que, em março de 2026, Goiás registrou exportações de US$ 1,2 bilhão e superávit de US$ 758,9 milhões, com a mineração ocupando o terceiro lugar na pauta exportadora, puxada por minerais metálicos.

O volume segue concentrado em produtos primários do agronegócio, com a soja liderando com US$ 650,5 milhões, seguida pelas carnes, com US$ 134,2 milhões, enquanto o ferro-níquel aparece na terceira posição, com US$ 47,1 milhões, além de ouro em forma bruta e ferro-nióbio.

Disputa global

A corrida por investimentos em terras raras já não se limita a Goiás e ganha dimensão nacional, com projetos anunciados na última semana para os estados de Minas Gerais e Bahia, o que amplia a competição por capital e espaço na cadeia destes minerais críticos.

Em Minas, a australiana Power Minerals adquiriu a Mineração Terras Raras S.A., responsável pelo projeto Morro do Ferro, em Poços de Caldas, por cerca de US$ 16 milhões, em uma área com teores elevados do minério.

Já na Bahia, a Brazilian Rare Earths (BRE) prevê investir até R$ 3,6 bilhões no projeto Monte Alto, que inclui mineração, concentração e separação de óxidos, com foco em elementos de alto valor agregado.

Transformação como oportunidade, defendem Caiado e Daniel

Mesmo com participação ainda pequena na mineração, as terras raras passaram a ocupar espaço no debate político em Goiás após a venda da mineradora Serra Verde e a assinatura de um memorando de cooperação com os Estados Unidos. A Serra Verde é apontada como a única produtora em grande escala fora da Ásia de terras raras pesadas, consideradas as mais valiosas da cadeia e essenciais para a indústria de alta tecnologia. O tema entrou na agenda do governo estadual com foco na ampliação do processamento no próprio estado.

O ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), pré-candidato à Presidência, tem defendido que o ganho econômico está na industrialização do produto. “Se eu, amanhã, tiver uma tonelada de terras pesadas, o valor é mínimo. Se eu puder vender amanhã 20g de térbio, ou de disprósio, eu vou enriquecer o meu estado, vou trazer tecnologia, vou aumentar renda, vou ampliar com isso”.

O governador Daniel Vilela (MDB) segue na mesma linha e afirma que o estado deve exigir contrapartidas das empresas para manter o beneficiamento em Goiás. “O que a gente espera é que a gente tenha em Goiás todo o processamento, todo o desenvolvimento da cadeia de agregação de valor desse minério aqui no nosso estado. É isso que nós vamos exigir com quaisquer empreendedores que venham adquirir as minas de terras raras no nosso estado”.

Disputa política

A discussão avançou para o plano nacional, a ponto de os deputados federais Sâmia Bomfim (SP), Glauber Braga (RJ) e Fernanda Melchionna (RS) acionarem a Procuradoria-Geral da República pedindo investigação sobre a venda da Serra Verde e o acordo firmado por Goiás com os Estados Unidos, sob o argumento de possível extrapolação de competências. O entendimento é de que a exploração de recursos minerais é atribuição da União, o que limita a atuação direta de estados em iniciativas desse tipo.

O governo do presidente Lula (PT) tem resistido à criação de uma estatal para o setor de terras raras e minerais críticos e, ao justificar a posição, interlocutores afirmam que “o modelo de monopólio, como o adotado no urânio, não ajudou a desenvolver a cadeia produtiva”, enquanto o Planalto discute alternativas para incentivar o beneficiamento no país, como linhas de crédito e ajustes na política de exportação de matéria-prima.

Para o economista e cientista político Carlos Frederico Alverga, “o acordo é totalmente inconstitucional porque um estado não tem competência para firmar compromissos internacionais nem dispor sobre recursos minerais, atribuições que pertencem exclusivamente à União”, opinou em artigo publicado no último domingo (26) no site especializado Consultor Jurídico.

 

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