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Quase metade dos municípios ainda não investe em letramento matemático na educação infantil

Estudo nacional mostra avanço das ações de leitura e escrita, mas expõe desigualdades, falhas estruturais e dificuldades de inclusão nas redes públicas


Dhayane Marques Por Dhayane Marques em 14/06/2026 - 12:20

letramento matemático
Enquanto 76% dos municípios investem em leitura e escrita na primeira infância, menos da metade desenvolve estratégias de letramento matemático (Foto: Reprodução / Getty Images)

A educação infantil brasileira registra avanços na adoção de práticas pedagógicas voltadas ao desenvolvimento das crianças, mas ainda enfrenta obstáculos que comprometem a qualidade da aprendizagem. Pesquisa nacional divulgada pelo Itaú Social e pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) mostra que as redes municipais investem mais em ações de linguagem e cultura escrita do que em estratégias de letramento matemático, ao mesmo tempo em que convivem com desafios ligados à infraestrutura, inclusão e formação de profissionais.

O relatório Percepções e Desafios da Educação Infantil Pública ouviu 2.712 redes municipais de ensino, o equivalente a 49% dos municípios brasileiros. Os dados mostram que 76% das redes desenvolvem práticas voltadas à linguagem e cultura escrita, enquanto 48% adotam estratégias específicas de letramento matemático. Outros 20% dos municípios afirmam não possuir iniciativas relacionadas à linguagem na primeira infância.

Para a gerente de Desenvolvimento e Soluções do Itaú Social, Sonia Dias, o cenário demonstra que o país já possui experiências capazes de ampliar o acesso das crianças à aprendizagem matemática desde os primeiros anos escolares, mas ainda enfrenta um desafio de equidade.

“Quando quase metade das redes municipais já implementa estratégias de letramento matemático, o país demonstra capacidade para avançar. O desafio é transformar experiências bem-sucedidas em políticas públicas capazes de alcançar todas as crianças”, afirma.

Desafios persistem

Além dos avanços pedagógicos, o estudo identificou gargalos históricos na gestão da educação infantil. A infraestrutura inadequada das unidades escolares aparece como o principal desafio para 23% dos gestores entrevistados. Em seguida surgem as dificuldades relacionadas à inclusão de crianças com deficiência e neurodivergências, apontadas por 15% dos dirigentes municipais.

As limitações envolvem manutenção de creches e pré-escolas, ampliação de vagas, aquisição de materiais pedagógicos e adequação dos espaços para garantir acessibilidade. A pesquisa também mostra que apenas 28% das redes conseguem implementar adequadamente propostas voltadas à educação do campo, indígena e quilombola.

Outro ponto de atenção é a formação continuada. Embora 58% das redes ofereçam capacitação voltada ao desenvolvimento infantil, cerca de 20% não promovem formações para profissionais que atuam em unidades conveniadas, o que pode ampliar desigualdades dentro da própria rede de ensino.

Transição ainda fragilizada

A passagem da pré-escola para o ensino fundamental continua sendo uma das etapas mais vulneráveis do percurso escolar. O levantamento aponta que 17% das redes não realizam planejamento articulado entre as duas etapas e 13% não utilizam instrumentos básicos de acompanhamento, como portfólios das crianças.

Segundo Sonia Dias, a ausência de continuidade pedagógica pode provocar dificuldades de adaptação e comprometer o desenvolvimento dos estudantes nos primeiros anos do ensino fundamental.

A pesquisa também destaca a importância do regime de colaboração entre estados e municípios. Embora 67% das redes recebam algum tipo de apoio das secretarias estaduais de educação, um terço dos municípios afirma não contar com suporte para a educação infantil. As principais demandas são apoio financeiro, formação de profissionais e fornecimento de materiais didáticos.

O presidente nacional da Undime, Luiz Miguel Martins Garcia, avalia que a educação infantil permanece como uma etapa decisiva para o desenvolvimento das crianças e exige políticas públicas capazes de enfrentar desigualdades e fortalecer a qualidade do ensino desde os primeiros anos de vida.

Regime de colaboração ainda apresenta lacunas

Embora 67% das redes municipais recebam algum tipo de apoio das secretarias estaduais de educação, um terço dos municípios afirma não contar com qualquer suporte para a educação infantil.

As principais demandas apresentadas pelos gestores são apoio financeiro, formação de profissionais e fornecimento de materiais didáticos.

O estudo conclui que o fortalecimento do regime de colaboração entre União, estados e municípios será decisivo para reduzir desigualdades regionais e ampliar a qualidade da oferta educacional, especialmente nas redes menores e mais vulneráveis.

Para os pesquisadores, o desafio da educação infantil brasileira deixou de estar concentrado exclusivamente na criação de vagas. O foco agora passa pela qualificação dos ambientes, fortalecimento das práticas pedagógicas e garantia de condições adequadas para que todas as crianças tenham acesso a uma educação de qualidade desde os primeiros anos de vida.

Indicador Resultado
Redes que desenvolvem ações de linguagem e cultura escrita na educação infantil 76%
Redes com estratégias específicas de letramento matemático 48%
Redes que adotam a matriz curricular estadual 63%
Redes que adaptaram o Projeto Político-Pedagógico às diretrizes curriculares 78%
Redes que recebem algum tipo de apoio das secretarias estaduais 67%
Gestores que apontam a infraestrutura como principal desafio da educação infantil 23%
Gestores que indicam a inclusão de crianças com deficiência entre as maiores dificuldades 15%

SAIBA MAIS

O que é letramento matemático?

É o conjunto de experiências que permite às crianças desenvolverem noções de quantidade, comparação, espaço, medidas, resolução de problemas e raciocínio lógico desde os primeiros anos da educação infantil.

O que é o PPP?

O Projeto Político-Pedagógico é o documento que orienta a proposta educacional da escola, estabelecendo objetivos, metas, metodologias e estratégias para a aprendizagem dos estudantes.

Quem participou da pesquisa?

O levantamento ouviu 2.712 redes municipais de ensino de todo o país, número equivalente a 49% dos municípios brasileiros.

Quem realizou o estudo?

A pesquisa foi produzida pelo Itaú Social em parceria com a Undime e apoio técnico do Plano CDE, com o objetivo de mapear desafios e oportunidades para a qualificação da educação infantil pública no Brasil.

Dhayane Marques

Dhayane Marques é jornalista formada pela PUC-GO. Atualmente é Diretora de Programas da TV Pai Eterno e repórter no jornal Tribuna do Planalto e Tribuna de Anápolis, nas editorias de cidades, educação, economia, agro, diversão e arte.

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