A educação infantil brasileira registra avanços na adoção de práticas pedagógicas voltadas ao desenvolvimento das crianças, mas ainda enfrenta obstáculos que comprometem a qualidade da aprendizagem. Pesquisa nacional divulgada pelo Itaú Social e pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) mostra que as redes municipais investem mais em ações de linguagem e cultura escrita do que em estratégias de letramento matemático, ao mesmo tempo em que convivem com desafios ligados à infraestrutura, inclusão e formação de profissionais.
O relatório Percepções e Desafios da Educação Infantil Pública ouviu 2.712 redes municipais de ensino, o equivalente a 49% dos municípios brasileiros. Os dados mostram que 76% das redes desenvolvem práticas voltadas à linguagem e cultura escrita, enquanto 48% adotam estratégias específicas de letramento matemático. Outros 20% dos municípios afirmam não possuir iniciativas relacionadas à linguagem na primeira infância.
Para a gerente de Desenvolvimento e Soluções do Itaú Social, Sonia Dias, o cenário demonstra que o país já possui experiências capazes de ampliar o acesso das crianças à aprendizagem matemática desde os primeiros anos escolares, mas ainda enfrenta um desafio de equidade.
“Quando quase metade das redes municipais já implementa estratégias de letramento matemático, o país demonstra capacidade para avançar. O desafio é transformar experiências bem-sucedidas em políticas públicas capazes de alcançar todas as crianças”, afirma.
Desafios persistem
Além dos avanços pedagógicos, o estudo identificou gargalos históricos na gestão da educação infantil. A infraestrutura inadequada das unidades escolares aparece como o principal desafio para 23% dos gestores entrevistados. Em seguida surgem as dificuldades relacionadas à inclusão de crianças com deficiência e neurodivergências, apontadas por 15% dos dirigentes municipais.
As limitações envolvem manutenção de creches e pré-escolas, ampliação de vagas, aquisição de materiais pedagógicos e adequação dos espaços para garantir acessibilidade. A pesquisa também mostra que apenas 28% das redes conseguem implementar adequadamente propostas voltadas à educação do campo, indígena e quilombola.
Outro ponto de atenção é a formação continuada. Embora 58% das redes ofereçam capacitação voltada ao desenvolvimento infantil, cerca de 20% não promovem formações para profissionais que atuam em unidades conveniadas, o que pode ampliar desigualdades dentro da própria rede de ensino.
Transição ainda fragilizada
A passagem da pré-escola para o ensino fundamental continua sendo uma das etapas mais vulneráveis do percurso escolar. O levantamento aponta que 17% das redes não realizam planejamento articulado entre as duas etapas e 13% não utilizam instrumentos básicos de acompanhamento, como portfólios das crianças.
Segundo Sonia Dias, a ausência de continuidade pedagógica pode provocar dificuldades de adaptação e comprometer o desenvolvimento dos estudantes nos primeiros anos do ensino fundamental.
A pesquisa também destaca a importância do regime de colaboração entre estados e municípios. Embora 67% das redes recebam algum tipo de apoio das secretarias estaduais de educação, um terço dos municípios afirma não contar com suporte para a educação infantil. As principais demandas são apoio financeiro, formação de profissionais e fornecimento de materiais didáticos.
O presidente nacional da Undime, Luiz Miguel Martins Garcia, avalia que a educação infantil permanece como uma etapa decisiva para o desenvolvimento das crianças e exige políticas públicas capazes de enfrentar desigualdades e fortalecer a qualidade do ensino desde os primeiros anos de vida.
Regime de colaboração ainda apresenta lacunas
Embora 67% das redes municipais recebam algum tipo de apoio das secretarias estaduais de educação, um terço dos municípios afirma não contar com qualquer suporte para a educação infantil.
As principais demandas apresentadas pelos gestores são apoio financeiro, formação de profissionais e fornecimento de materiais didáticos.
O estudo conclui que o fortalecimento do regime de colaboração entre União, estados e municípios será decisivo para reduzir desigualdades regionais e ampliar a qualidade da oferta educacional, especialmente nas redes menores e mais vulneráveis.
Para os pesquisadores, o desafio da educação infantil brasileira deixou de estar concentrado exclusivamente na criação de vagas. O foco agora passa pela qualificação dos ambientes, fortalecimento das práticas pedagógicas e garantia de condições adequadas para que todas as crianças tenham acesso a uma educação de qualidade desde os primeiros anos de vida.
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Redes que desenvolvem ações de linguagem e cultura escrita na educação infantil | 76% |
| Redes com estratégias específicas de letramento matemático | 48% |
| Redes que adotam a matriz curricular estadual | 63% |
| Redes que adaptaram o Projeto Político-Pedagógico às diretrizes curriculares | 78% |
| Redes que recebem algum tipo de apoio das secretarias estaduais | 67% |
| Gestores que apontam a infraestrutura como principal desafio da educação infantil | 23% |
| Gestores que indicam a inclusão de crianças com deficiência entre as maiores dificuldades | 15% |
SAIBA MAIS
O que é letramento matemático?
É o conjunto de experiências que permite às crianças desenvolverem noções de quantidade, comparação, espaço, medidas, resolução de problemas e raciocínio lógico desde os primeiros anos da educação infantil.
O que é o PPP?
O Projeto Político-Pedagógico é o documento que orienta a proposta educacional da escola, estabelecendo objetivos, metas, metodologias e estratégias para a aprendizagem dos estudantes.
Quem participou da pesquisa?
O levantamento ouviu 2.712 redes municipais de ensino de todo o país, número equivalente a 49% dos municípios brasileiros.
Quem realizou o estudo?
A pesquisa foi produzida pelo Itaú Social em parceria com a Undime e apoio técnico do Plano CDE, com o objetivo de mapear desafios e oportunidades para a qualificação da educação infantil pública no Brasil.













