Dados da ANP confirmam interrupção do comércio direto após pressão de movimentos sociais; entidades alertam para possíveis rotas indiretas via refinaria na Sardenha.
O Anuário Estatístico 2026 da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostra que o Brasil não registrou exportações diretas de petróleo para Israel em 2025 . O dado representa a principal vitória, até o momento, da campanha nacional pelo embargo energético organizada pelo movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) .
A mobilização ganhou força em julho de 2025, quando a relatora especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados, Francesca Albanese, publicou o relatório Da economia da ocupação à economia do genocídio. O documento identificou a Petrobras entre as empresas inseridas na cadeia internacional de fornecimento de petróleo para Israel.
Pouco depois, reportagem do jornalista Jamil Chade, baseada em dados da ANP, revelou que, enquanto as exportações brasileiras de petróleo cresceram 9% em 2024, as destinadas a Israel haviam aumentado 51% . Em 2022, o volume chegou a 11,9 milhões de barris, mas caiu drasticamente nos anos seguintes.
A campanha articulou as federações nacionais dos trabalhadores do setor (FUP e FNP), organizações da sociedade civil, parlamentares e jornalistas. A deputada federal Sâmia Bomfim protocolou requerimento de informação ao Ministério de Minas e Energia cobrando esclarecimentos sobre as exportações.
O governo reconheceu, em resposta ao Congresso, que não dispõe de mecanismos para rastrear a origem e o destino final do petróleo exportado pelas empresas. Também admitiu que os contratos de concessão não contêm cláusulas específicas relacionadas à observância de normas internacionais de direitos humanos.
Interrupção das exportações diretas não encerra controvérsia
Apesar da vitória, organizações alertam que parte do petróleo brasileiro pode continuar chegando a Israel por rotas indiretas. Investigações conduzidas pelo Sindipetro-RJ, pela FNP e pela organização Oil Change International apontam para a refinaria Saras, na ilha da Sardenha, operada pela trading suíça Vitol, como um importante centro de abastecimento do mercado israelense.
Segundo essas investigações, em junho de 2025 o petróleo brasileiro chegou a representar 47% do volume processado pela refinaria, percentual muito superior à média histórica de aproximadamente 7% . Para especialistas em direito internacional, a responsabilidade de um Estado não depende apenas do país formalmente declarado como destino da exportação, mas também do conhecimento e da contribuição material para cadeias que possam sustentar crimes internacionais.
O BDS Brasil defende que o governo federal vá além da interrupção das exportações diretas. Entre as reivindicações estão a realização de uma auditoria independente sobre o destino final do petróleo brasileiro e a edição de um decreto que proíba explicitamente as exportações para Israel, em medida semelhante ao embargo ao carvão adotado pela Colômbia.
Israel e o Jornalismo
A cobertura do conflito em Gaza registrou números históricos de violência contra profissionais da imprensa. O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) documentou, até junho de 2026, a morte de 209 jornalistas e trabalhadores da mídia em Gaza desde outubro de 2023, atribuindo a Israel a responsabilidade pela maioria dos casos. Organizações como a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) classificam Israel como o maior assassino de jornalistas do mundo pelo terceiro ano consecutivo.
No plano jurídico, o Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu mandados de prisão contra o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o ministro da Defesa Yoav Gallant por crimes de guerra e crimes contra a humanidade. A Corte Internacional de Justiça (CIJ) também investiga Israel por possível crime de genocídio na Faixa de Gaza.
A rejeição internacional a Israel atingiu níveis recordes. Pesquisa do Pew Research Center realizada em 36 países entre fevereiro e maio de 2026 revelou que 67% dos adultos entrevistados têm uma visão desfavorável do país, enquanto apenas 25% a veem de forma positiva. A impopularidade é generalizada, incluindo aliados tradicionais: nos Estados Unidos, 60% têm visão negativa; no Reino Unido, 69%; na França, 68%; na Alemanha, 73%. A rejeição é especialmente alta entre os jovens, com 74% dos americanos de 18 a 34 anos vendo Israel de forma negativa.
Cidadãos e organizações da sociedade civil podem acompanhar os dados de exportação de petróleo por meio do Anuário Estatístico da ANP e do sistema Comex Stat do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Denúncias sobre possíveis rotas indiretas de exportação podem ser encaminhadas ao Ministério Público Federal e à Controladoria-Geral da União (CGU). O movimento BDS Brasil e as federações dos petroleiros (FUP e FNP) mantêm canais abertos para receber informações sobre o tema.
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