O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, afirmou neste domingo (19) que o país não realizará novas eleições com o objetivo de impedir que a oposição volte ao poder. A declaração foi feita durante um evento em Manágua em comemoração ao 47º aniversário da Revolução Sandinista e provocou novas críticas de organizações de direitos humanos e de grupos opositores, que acusam o governo de consolidar um regime sem espaço para a democracia.
“Aqui não haverá mais eleições, para que não tentem, por esse caminho, tomar o governo e o poder”, declarou Ortega ao afirmar que os opositores estariam “à espreita”, apesar de muitos viverem atualmente no exílio.
Daniel Ortega, de 80 anos, é um dos principais líderes históricos da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), partido de esquerda que chegou ao poder após a Revolução Sandinista de 1979. Ex-guerrilheiro, ele governou a Nicarágua entre 1985 e 1990, retornou à Presidência em 2007 e permanece no cargo desde então. Ao longo dos últimos anos, seu governo tem sido alvo de críticas de organismos internacionais, como a ONU e a Organização dos Estados Americanos (OEA), por supostas violações de direitos humanos, perseguição a opositores, restrições à imprensa e falta de garantias para eleições livres.
Durante o discurso, Ortega afirmou que a Assembleia Nacional, controlada por aliados do governo, deverá aprovar novas leis para impedir o que chamou de ações de “golpistas e traidores da pátria”. Ele também voltou a acusar os Estados Unidos de financiarem adversários políticos.
“Por mais dinheiro que os ianques deem a eles, não conseguirão”, afirmou.
As declarações ocorrem após mudanças constitucionais que entraram em vigor no início de 2025. As reformas ampliaram o mandato presidencial de cinco para seis anos, adiando, em tese, as próximas eleições gerais para novembro de 2027. Entre as alterações também está a criação do cargo de “copresidente”, ocupado por Rosario Murillo, vice-presidente e esposa de Ortega.
As mudanças foram amplamente criticadas por organismos internacionais e pela oposição nicaraguense. O coletivo Nicaragua Nunca Más, organização que atua a partir da Costa Rica, afirmou que o governo eliminou praticamente todos os espaços democráticos no país.
Segundo Salvador Marenco, coordenador da entidade, a Frente Sandinista transformou-se em um partido praticamente único, sem oposição real. Ele citou como exemplos o fechamento de mais de 5.600 organizações da sociedade civil, a cassação de partidos políticos e o encerramento de veículos de comunicação independentes.
Para a organização, a declaração de Ortega representa mais um passo no enfraquecimento das instituições democráticas e praticamente elimina qualquer expectativa de realização de eleições competitivas em 2027.
Além da questão interna, Ortega voltou a direcionar críticas aos Estados Unidos durante o discurso. O presidente condenou a atuação de Washington contra governos aliados da Nicarágua, especialmente Venezuela e Cuba, e acusou os norte-americanos de tentarem dominar outros países para explorar suas riquezas.
Ele também criticou a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, classificando a operação como uma “monstruosidade”, e afirmou que há políticos alinhados a potências estrangeiras que defendem ações semelhantes contra Cuba.
Apesar de manter uma relação historicamente próxima com governos de esquerda da América Latina, como os de Cuba e Venezuela, a Nicarágua enfrenta crescente isolamento internacional. O governo dos Estados Unidos mantém sanções contra integrantes da administração Ortega, incluindo aliados e familiares do casal presidencial, enquanto organismos internacionais continuam denunciando a deterioração da democracia e das liberdades civis no país.
















