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Avanço da direita e peso da religião devem marcar disputa de 2026

Resultados das eleições municipais mostram grupos conservadores mais estruturados, crescimento do PSD e maior capacidade de mobilização política das igrejas evangélicas


Lucas de Godoi Por Lucas de Godoi em 05/08/2026 - 10:46

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A disputa eleitoral de 2026 será influenciada pela consolidação da direita nos municípios, pelo fortalecimento de partidos com ampla presença territorial e pelo peso crescente da identidade religiosa na mobilização dos eleitores. Os movimentos observados nas eleições municipais de 2024 mostram que essas forças chegam ao novo ciclo eleitoral com bases locais mais estruturadas, presença nas câmaras de vereadores e capacidade de participação na formação dos palanques estaduais e nacionais.

A avaliação é da cientista política Silvana Krause, que aponta as eleições municipais como um importante instrumento para compreender a reorganização das forças políticas no País. Segundo ela, embora o resultado de uma eleição para prefeito não possa ser transferido automaticamente para a disputa presidencial, o desempenho nos municípios revela quais partidos, grupos ideológicos e redes sociais possuem maior capilaridade para enfrentar uma eleição geral.

“A alma da política inicia muito no poder local. Observando as eleições municipais anteriores, ficou cada vez mais claro o quanto elas sinalizam aspectos importantes para uma eleição nacional”, afirmou Silvana em entrevista à Tribuna.

Esse peso dos municípios está relacionado ao papel exercido por prefeitos, vereadores e lideranças regionais na organização das campanhas. São esses agentes que aproximam os candidatos do eleitorado, articulam alianças, organizam agendas, mobilizam apoiadores e oferecem estrutura política nos estados, sobretudo em regiões onde as campanhas nacionais dependem de redes locais para ampliar sua presença.

Ultradireita deixou de ser movimento circunstancial

Um dos principais sinais identificados nas eleições municipais é que o crescimento da ultradireita não pode mais ser interpretado como consequência exclusiva da eleição presidencial de 2018 ou da ascensão do bolsonarismo. Os resultados dos últimos pleitos indicam que este grupo político passou a ocupar espaços permanentes no sistema político, com presença crescente nas prefeituras, câmaras municipais e estruturas partidárias.

Silvana observa que os primeiros sinais desse fenômeno já podiam ser percebidos nas eleições municipais de 2016, quando o desgaste das legendas tradicionais abriu espaço para novas lideranças e discursos identificados com a direita. Desde então, esse campo político ampliou sua estrutura e conseguiu se manter competitivo mesmo diante das mudanças de conjuntura nacional.

“Esse tipo de direita que vem aparecendo não é meramente fruto de um contexto. Ela está se estruturando e vem se consolidando”, explicou.

A expansão municipal oferece condições para que essas forças lancem candidatos competitivos a deputado estadual e federal, participem das chapas para o Senado e exerçam influência sobre as disputas pelos governos estaduais.  A presença territorial também amplia a capacidade de sustentar campanhas presidenciais, ainda que não exista uma relação direta entre a votação obtida por prefeitos e o desempenho de um candidato nacional.

Mais do que antecipar quem vencerá a eleição, os resultados municipais mostram que a ultra direita chega à disputa deste ano com redes organizadas, lideranças locais e uma identidade política que se manteve ativa depois de 2018. Essa consolidação deve se refletir tanto nas eleições majoritárias quanto na composição do Congresso Nacional e das assembleias legislativas.

PSD ganha espaço nas articulações estaduais

Ao lado da consolidação da ultradireita, o crescimento do PSD aparece como outro movimento com potencial para interferir nas eleições de 2026. Desde sua estreia eleitoral, em 2012, o partido ampliou progressivamente sua presença nos municípios e encerrou a eleição de 2024 com o maior número de prefeituras conquistadas no País.

Para Silvana, esse desempenho transformou a legenda em um ator relevante nas articulações estaduais e nacionais, principalmente porque a presença de prefeitos e lideranças locais amplia o poder de negociação do partido na construção de alianças e na definição dos palanques.

“O partido vem crescendo e se tornando um ator importante nas articulações para as eleições nos estados e também para a eleição nacional, como um ator mobilizador”, afirmou.

A força municipal não significa necessariamente que o PSD será o principal protagonista da disputa presidencial, mas permite que a sigla tenha participação decisiva na formação das chapas estaduais, na distribuição dos apoios e na organização das candidaturas proporcionais. Em estados onde a eleição apresenta maior equilíbrio, a estrutura partidária presente nos municípios pode ser determinante para o desempenho dos candidatos.

A capilaridade também favorece a disputa por vagas na Câmara dos Deputados e nas assembleias legislativas, já que prefeitos, vereadores e lideranças regionais costumam desempenhar papel importante na construção das bases eleitorais dos candidatos. Dessa forma, mesmo que o partido não concentre sua estratégia na Presidência da República, poderá ampliar sua representação e seu peso político a partir dos resultados estaduais.

Identidade religiosa

A presença crescente das igrejas evangélicas nas câmaras municipais é outro elemento que deverá influenciar a eleição deste ano. Segundo Silvana, o avanço de candidaturas identificadas com grupos religiosos demonstra que a fé continua funcionando como uma importante forma de pertencimento e mobilização política no Brasil.

Esse fenômeno ganha relevância diante da baixa confiança de parte do eleitorado nos partidos políticos, que enfrentam dificuldades para manter vínculos permanentes com a população. As igrejas, por outro lado, possuem presença constante nas comunidades, promovem encontros frequentes, formam lideranças e mantêm redes de comunicação capazes de alcançar diretamente seus integrantes.

“A identidade religiosa é um importante mobilizador do eleitorado brasileiro, especialmente numa tradição política em que os partidos são a instituição que o eleitor brasileiro menos confia”, disse.

A influência religiosa não se restringe às candidaturas de pastores, bispos ou dirigentes de igrejas, mas também aparece na definição das pautas eleitorais, nos discursos das campanhas e na disputa por votos entre candidatos que procuram se aproximar desse segmento. A eleição de vereadores ligados às igrejas fortalece essas redes e cria estruturas locais que podem ser novamente mobilizadas nas disputas estaduais e nacionais.

“A religião vai ser novamente uma questão importante na eleição nacional. A representação dos evangélicos foi muito sintomática nas câmaras municipais”, acrescentou Silvana.

Essa participação deverá ser percebida tanto na eleição presidencial quanto nas disputas para o Congresso, onde temas ligados a valores, costumes e identidade religiosa tendem a ocupar espaço relevante. Ao mesmo tempo, partidos e candidatos deverão disputar o apoio de lideranças religiosas que possuem influência direta sobre comunidades e grupos organizados.

A análise de Silvana integra o livro Eleições Municipais e o que antecipam para 2026, organizado por ela e pelos cientistas políticos Antonio Lavareda e Helcimara Telles. A obra será lançada pela FGV Editora na segunda-feira, 3 de agosto, durante o 15º Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política, em Belém.

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Lucas de Godoi

Jornalista formado pela PUC Goiás. Na Tribuna do Planalto, cobre administração pública e os principais desdobramentos do cenário político em Goiás.

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