Uma das informações mais conhecidas e divulgadas em época de eleições no Brasil é de que as mulheres são maioria nas urnas, o dado mais recente, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostra que elas somam 83,8 milhões e representam 52,84% das pessoas aptas a votar. Apesar disso, o peso numérico não se converteu em presença equivalente nas candidaturas e candidatas mulheres estão distantes dos principais espaços de poder. Pela primeira vez neste século, nenhuma mulher integra uma chapa presidencial considerada competitiva. Em Goiás, segue-se o mesmo rumo: entre os cinco nomes homologados para o governo, há apenas uma mulher; para o Senado, são três entre as dez candidaturas confirmadas, até então.
O cenário interrompe uma sequência iniciada em 2002, quando ao menos uma mulher concorreu à Presidência ou à Vice-Presidência em chapa com presença relevante na disputa. Em 2022, Simone Tebet concorreu à Presidência, enquanto Mara Gabrilli e Ana Paula Matos foram candidatas a vice. Neste ano, as mulheres nas chapas ao Planalto estão em legendas sem representação parlamentar, critério usado para afastá-las do grupo classificado como competitivo.
Em entrevista exclusiva ao Tribuna do Planalto, a única mulher na corrida pelo Governo de Goiás, a professora Luciana Amorim, da Unidade Popular (UP), contesta essa classificação. “É impossível não questionar primeiro o que se define como competitivas. Em nível nacional, nossa candidata Samara Martins está tecnicamente empatada com Zema e Caiado, dentro da margem de erro, já que computou 2% das intenções de voto na última pesquisa Quaest”, afirma. Para ela, o enquadramento adotado também contribui para tornar candidaturas de partidos menores menos visíveis.
Luciana foi homologada ao lado de Caymmi Henrique, candidato a vice, e representa o segmento mais à esquerda entre as cinco opções ao Palácio das Esmeraldas. Para ela, nas siglas com mais dinheiro e propaganda, a participação feminina se limita ao cumprimento formal de regras. “O debate por parte dos partidos que têm mais recursos financeiros e tempo de TV nada mais é do que uma simples cota. Em vários deles, não existe uma prática real de colocar as mulheres no centro da política”, critica.
Ela relaciona a baixa presença nas chapas à tolerância interna com episódios de machismo e assédio e à atuação das legendas no Congresso. “Temos em 2026 diversas mulheres concorrendo, como eu e mais 11 companheiras em outros estados ao governo, além de Samara Martins à Presidência. Mas, infelizmente, ainda somos invisibilizadas pela política tradicional e pela mídia, num momento em que é fundamental que a pauta da luta das mulheres seja divulgada”, diz.
A legislação exige que partidos e federações preencham no mínimo 30% e no máximo 70% das candidaturas de cada gênero nas disputas proporcionais. Também reserva às mulheres ao menos 30% dos recursos públicos de campanha e da propaganda eleitoral. As regras, contudo, não garantem equilíbrio nas disputas majoritárias nem estrutura para competir.
Luciana defende fiscalização que vá além da conferência dos percentuais. “É preciso um movimento maior de pressão sobre os partidos e de toda a sociedade, que naturaliza as mulheres simplesmente como representação, quando não somos isso: somos maioria da sociedade e sofremos as piores violências”, afirma. Segundo ela, é necessário acompanhar como as candidaturas são construídas e financiadas, pois há partidos que “usam mulheres como laranjas simplesmente para atingir o mínimo e lançar candidaturas de homens que, em sua imensa maioria, são contra a luta e a pauta das mulheres”.
Na corrida ao Senado por Goiás, como dito anteriormente, somente três dos dez nomes confirmados são mulheres: Cíntia Dias (Psol/Rede), Gracinha Caiado (União Brasil) e Isaura Lemos (PSB). Também de forma exclusiva ao Tribuna do Planalto, Cíntia Dias destacou que a frente democrática e popular apresenta dois homens para governador e vice e duas mulheres para o Senado. “Durante todas as negociações e articulações, fizemos a defesa de que houvesse paridade. Quando a frente abraça isso, demonstra sua capacidade e seu compromisso com as mulheres, porque elas não podem ser coadjuvantes”, declara.
Cíntia, porém, reconhece que a composição da chapa majoritária não elimina as dificuldades verificadas nas demais candidaturas. “As candidaturas femininas diminuíram bastante, chegando somente aos 30%, cobrindo cotas. Isso é um desafio que precisa ser superado muito rapidamente”, afirma. Ela conta que o PSOL chegou a reunir mais mulheres dispostas a disputar a eleição, mas perdeu nomes durante a montagem da nominata. “Fizemos uma chapa muito bonita e competitiva, com várias companheiras que, ao longo do caminho, acabaram desistindo. Um dos principais problemas foi a questão financeira.”
A falta de dinheiro, segundo Cíntia, afeta a campanha e a vida familiar. “Os recursos que vêm para o fundo partidário são muito pequenos e nenhuma de nós tem campanha milionária. Acaba não sendo viável nem a organização dessas companheiras para sair às ruas, deixar os filhos em casa, fazer campanha e cumprir as atividades”, relata. Muitas mulheres, assim, desistem antes do registro ou entram na disputa sem equipe e condições semelhantes às de candidatos consolidados.
Para Cíntia, o diagnóstico exige mais do que ajustes internos nas siglas. “Esse desafio é um alerta que precisa ser discutido com mais seriedade em políticas públicas, de forma geral. As mulheres não podem ser só cota e ter a garantia da cota para completar uma chapa. Elas são atuantes e fazem política o tempo todo. Precisamos construir caminhos para que possam se fortalecer e fortalecer os parlamentos, porque a representatividade ainda é muito baixa”, afirma.
Luciana diz que sua campanha terá mulheres em posições centrais e cita sua atuação no Movimento de Mulheres Olga Benário. Defende ainda mais casas de referência para vítimas de violência e Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher em Goiás. “As principais figuras da UP na eleição são mulheres”, declara.
Caso seja eleita, Luciana pretende discutir paridade nos espaços de comando. “O meio concreto de ampliar a participação é tornar esses espaços seguros para as mulheres. Precisamos fortalecer o combate à violência política de gênero. O debate sobre paridade poderia ser uma de nossas ações, mas as políticas contra o machismo e a misoginia são primordiais”, diz. Luciana e Cíntia convergem no diagnóstico: a redução não nasce da falta de mulheres interessadas em política, mas de filtros partidários, financeiros e sociais que determinam quem chega às urnas com chance de ser vista e escolhida.













