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Mais de um ano sem celular muda rotina das escolas, mas efeito na aprendizagem ainda precisa ser medido

Pesquisa nacional aponta melhora na concentração, participação e convivência, mas especialistas alertam que a restrição do aparelho não garante, sozinha, avanços educacionais


Dhayane Marques Por Dhayane Marques em 16/08/2026 - 10:00

Levantamento do MEC aponta que 95% dos gestores perceberam melhora na atenção e 97% relataram maior participação dos estudantes após a restrição dos celulares FOTO: Wesrock/Adobe Stock

Mais de um ano após a entrada em vigor da Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de celulares nas escolas, os primeiros dados nacionais indicam mudanças na rotina de estudantes e professores. A principal delas aparece no comportamento: mais concentração, participação nas atividades e interação presencial. A questão que permanece é se esses efeitos já estão se convertendo em aprendizagem.

Pesquisa do Ministério da Educação (MEC), em parceria com Inep, Instituto Alana e Unesco, mostra que 92% dos gestores afirmam que a restrição já é implementada em suas escolas. Entre eles, 97% perceberam aumento da participação dos estudantes nas atividades pedagógicas e 95% relataram melhora na concentração e na socialização presencial. A redução de conflitos, agressões digitais e episódios de cyberbullying foi percebida por 88%.

A mudança também aparece nas atividades oferecidas pelas escolas. Segundo o levantamento, 67% registraram aumento de práticas manuais, lúdicas e artísticas, 56% ampliaram atividades pedagógicas fora da sala e 59% passaram a estimular mais brincadeiras e interação.

Os dados confirmam parte das primeiras impressões registradas pela Tribuna do Planalto em agosto de 2025, poucos meses após a implementação da regra. Na ocasião, escolas já relatavam mais conversas nos intervalos, retomada de brincadeiras e menor dispersão em sala, mas também resistência dos alunos e preocupação das famílias.

A primeira mudança foi no comportamento

O celular ocupava um espaço que ia muito além da sala de aula. Notificações, redes sociais, vídeos, jogos e mensagens competiam diretamente com a atenção dos estudantes. Com a restrição, a escola passou a recuperar parte desse espaço.

Para Manoel Barbosa, mestre em Educação, especialista em gestão e financiamento educacional e diretor técnico da Idea Educação, o impacto mais relevante da medida está justamente nessa mudança de dinâmica.

“O impacto mais significativo não está apenas na redução do tempo de tela, mas na mudança da dinâmica pedagógica e das relações dentro da escola”, afirma.

Outro levantamento, realizado pela Frente Parlamentar Mista da Educação em parceria com a plataforma Equidade.info, mostra que 80% dos estudantes brasileiros dizem estar mais focados nas aulas após a restrição. Nos primeiros anos do ensino fundamental, quase nove em cada dez relatam melhora na atenção. O estudo também aponta percepção de redução do bullying virtual por 77% dos gestores, 65% dos professores e 41% dos alunos.

Os dados do MEC apontam nessa direção. Se 95% dos gestores identificam melhora na concentração e na socialização presencial e 97% percebem aumento da participação nas atividades pedagógicas, há evidências de que a retirada do aparelho alterou o comportamento no ambiente escolar. 

Manoel defende que o impacto educacional seja medido com comparações antes e depois da implementação, observando atenção, participação, interrupções, realização de tarefas e percepção dos professores. A cautela é necessária porque notas e indicadores educacionais também sofrem influência de reforço escolar, formação docente, acompanhamento dos alunos e outras políticas públicas.

Fonte: Pesquisa Nacional – 1º ano da Lei nº 15.100/2025, MEC/Inep, em parceria com Instituto Alana e Unesco, divulgada em junho de 2026.

Tecnologia não foi banida

A restrição também não significa uma escola sem tecnologia. Segundo o levantamento do MEC, 86% das escolas mantiveram ou ampliaram atividades pedagógicas com recursos digitais e 87% realizaram ou planejam ações de educação digital.

A questão central passou a ser outra, quem controla a tecnologia, com qual finalidade e dentro de qual estratégia pedagógica.

Um celular pessoal permite acesso simultâneo a redes sociais, mensagens, vídeos, jogos e outros conteúdos que disputam a atenção do estudante. Um Chromebook, tablet ou computador utilizado dentro de uma atividade planejada pode cumprir outra função. O problema, portanto, não está na existência da tecnologia, mas na ausência de intencionalidade sobre seu uso.

“Não estamos diante de uma contradição entre proibir o celular e investir em tecnologia. O desafio é sair do ‘celular como distração’ para a ‘tecnologia como ferramenta pedagógica’”, afirma Manoel Barbosa.

A diferença está na finalidade. Enquanto o aparelho pessoal pode disputar a atenção do estudante com notificações e redes sociais, computadores e plataformas podem ser utilizados dentro de uma proposta planejada pelo professor.

A própria pesquisa mostra que a implementação ainda não está totalmente consolidada. 45% dos gestores consideram o processo consolidado, enquanto 47% afirmam que ele ainda está em andamento.

Para Manoel, o foco da política também precisa mudar. “O principal desafio agora não é mais fazer o estudante entender que não pode usar o celular. É fazer a escola transformar o espaço que antes era ocupado pelo celular em mais aprendizagem, convivência e interação.”

Isso coloca professores, gestores e famílias no centro da próxima etapa. A escola precisa oferecer atividades capazes de manter o estudante envolvido, enquanto as famílias também precisam estabelecer limites para o uso das telas fora do ambiente escolar.

Dhayane Marques

Dhayane Marques é jornalista formada pela PUC-GO. Atualmente é Diretora de Programas da TV Pai Eterno e repórter no jornal Tribuna do Planalto e Tribuna de Anápolis, nas editorias de cidades, educação, economia, agro, diversão e arte.

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