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Enquanto trabalhador espera 5×2, deputados goianos adotam “2×5” de sessões; entenda

Deputados encerraram plenário em 48 minutos, não aprovaram projetos relevantes e retiraram as quintas-feiras do calendário durante o período eleitoral


Por Carlos Nathan Sampaio em 26/08/2026 - 09:52

Veteranos largam na frente e desafiam novos nomes na Alego deputados goianos
(Foto: Reprodução)

Enquanto o Brasil discute acabar com a escala 6×1 e garantir ao trabalhador dois dias de descanso por semana, os deputados goianos da Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) resolveu avançar em ritmo próprio. Em uma sessão que durou apenas 48 minutos nesta terça-feira (25), os parlamentares aprovaram a retirada das quintas-feiras do calendário de sessões ordinárias durante o período eleitoral.

Na prática, o plenário da Alego passa a se reunir regularmente apenas às terças e quartas-feiras. É uma espécie de “escala 2×5” das sessões: dois dias previstos no plenário e outros cinco fora do calendário ordinário. A comparação é provocativa, mas expõe o contraste entre a realidade enfrentada pela maioria dos trabalhadores e a facilidade com que o Legislativo flexibiliza a própria rotina.

É necessário ponderar que o trabalho parlamentar não se restringe às sessões plenárias. Deputados também participam de comissões, apresentam projetos, atendem prefeitos e eleitores e cumprem atividades nos gabinetes. Ainda assim, as sessões ordinárias representam o principal momento público de debate, fiscalização e votação das matérias. Reduzir esse calendário justamente para acomodar campanhas eleitorais significa colocar o funcionamento institucional da Casa abaixo dos interesses políticos de seus integrantes.

A medida foi aprovada por 19 votos a quatro por meio do Requerimento nº 912/26, apresentado por Amilton Filho (MDB) e assinado por outros parlamentares. Votaram contra Antônio Gomide (PT), Bia de Lima (PT), Clécio Alves (PSDB) e Delegado Eduardo Prado (PL).

A decisão ocorre no momento em que a redução da jornada dos trabalhadores ocupa espaço central no debate nacional. A proposta aprovada pela Câmara dos Deputados prevê diminuir o limite semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, além de assegurar dois dias de repouso e substituir a escala padrão 6×1 pela 5×2. O texto ainda depende da análise do Senado. Segundo a Câmara dos Deputados, a mudança permitiria cinco dias de trabalho e dois de descanso.

Em Goiás, porém, os parlamentares conseguiram reduzir a frequência semanal das sessões sem qualquer alteração em seus salários. O contribuinte continuará bancando integralmente a remuneração e toda a estrutura da Alego, enquanto os deputados terão mais um dia livre no calendário do plenário para se dedicar às campanhas eleitorais.

A justificativa dos defensores da mudança é evitar que a disputa eleitoral comprometa o funcionamento da Assembleia. O presidente da Casa, Bruno Peixoto (União Brasil), lembrou que, na quinta-feira anterior, somente Clécio Alves compareceu presencialmente para presidir a sessão. Como não havia um secretário para auxiliá-lo, as matérias previstas não puderam ser apreciadas.

“Prefiro fazer sessões extraordinárias e ficar até as 22h e correr o risco do que aconteceu na semana passada”, declarou Bruno Peixoto.

O argumento, no entanto, revela outro problema: em vez de exigir presença e garantir o cumprimento do calendário regimental, a Alego decidiu adaptar sua rotina ao esvaziamento provocado pelas campanhas. Isso mesmo depois de a Casa ter aprovado, em 5 de agosto, a realização de sessões híbridas, permitindo que os deputados participem e votem remotamente.

Ou seja, os parlamentares já não precisavam comparecer fisicamente ao plenário. Ainda assim, consideraram necessário eliminar mais um dia de sessões ordinárias.

Antônio Gomide resumiu a crítica ao afirmar que “estar presente é o mínimo”. A declaração ganha ainda mais peso diante do que ocorreu nesta terça-feira. Mesmo com participação remota e com a concentração dos trabalhos em apenas dois dias, os deputados encerraram a sessão em menos de uma hora e não aprovaram qualquer projeto de lei ou matéria de maior relevância.

Foram votados somente requerimentos em bloco, incluindo pedidos de patrolamento da GO-433 e de instalação de um redutor de velocidade na GO-460. A única votação separada foi justamente aquela que reduziu o calendário do próprio plenário. Givago Valadares (PRTB) e Paulo Cezar Martins não justificaram as ausências.

Assim, em uma sessão de 48 minutos, a decisão mais importante tomada pelos deputados foi trabalhar menos no plenário durante a campanha. Para o trabalhador comum, a escala 5×2 ainda depende de uma longa batalha no Congresso. Para os parlamentares goianos, a “2×5” foi resolvida rapidamente, por requerimento e sem redução salarial.

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