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Vorcaro não é de direita nem de esquerda. Ele é do lado do dinheiro


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 04/09/2026 - 11:50

Imagem: Tribuna do Planalto (Montagem realizada para fins de ilustração da coluna)

“Meu Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro…”

É difícil ouvir esse velho verso e não pensar no país que somos — e, sobretudo, no país que poderíamos ser.

O Brasil é um país de uma beleza quase insolente. Tem território, água, energia, agricultura, minerais, biodiversidade, um povo criativo, trabalhador e extraordinariamente resistente. Temos cidades vibrantes, praias, cerrado, Amazônia, Pantanal, uma das agriculturas mais competitivas do planeta e uma capacidade impressionante de produzir riqueza.

E, ainda assim, somos frequentemente obrigados a assistir à mais brasileira das tragédias: um país de mil possibilidades administrado, aparelhado e capturado por uma gente pequena demais para o tamanho do Brasil.

O Brasil é, muitas vezes, o país da piada pronta. Só que é uma piada de mau gosto — e quem paga a conta nunca acha graça.

Enquanto milhões de brasileiros acordam cedo para trabalhar, pagar impostos, enfrentar ônibus lotado, juros altos, serviços públicos deficientes e a insegurança de não saber como será o mês seguinte, uma parcela da elite política, econômica e burocrática continua brincando de poder.

E é nesse ambiente que surge Daniel Vorcaro.

Ou melhor: surge mais um Daniel Vorcaro.

Porque ele não é o primeiro. E, se o Brasil não fizer uma profunda reforma política e institucional, certamente não será o último.

O problema brasileiro não começou com Vorcaro e tampouco terminará com ele.

O caso do Banco Master, suas conexões políticas, empresariais e institucionais e as revelações produzidas pelas investigações da Polícia Federal expõem algo muito maior do que a trajetória de um banqueiro investigado: expõem a facilidade com que dinheiro, influência e poder conseguem circular pelos corredores da República.

E essa talvez seja a parte mais assustadora.

Vorcaro não parece ter perguntado a ninguém se era de direita, de esquerda ou de centro.

Para o dinheiro, aparentemente, ideologia é apenas um detalhe inconveniente.

Há referências e investigações envolvendo personagens de campos políticos completamente diferentes. O deputado Nikolas Ferreira aparece em mensagens e registros relacionados a Vorcaro; o senador Jaques Wagner foi citado em apurações envolvendo interesses ligados ao Banco Master; Flávio Bolsonaro aparece no episódio relacionado ao financiamento do projeto cinematográfico sobre seu pai; e o ministro Alexandre de Moraes passou a estar no centro de uma crise institucional depois que a Polícia Federal encontrou mensagens atribuídas a ele e Vorcaro.

E há um detalhe importante: citação, relação, encontro ou mensagem não são sinônimos de crime comprovado.

É justamente por isso que precisamos de investigação séria, independente e transparente.

Mas também seria intelectualmente desonesto fingir que nada disso importa.

Importa.

E muito.

André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal, tornou públicos elementos da investigação que estavam sob sigilo e defendeu que os novos diálogos fossem analisados pelo plenário da Corte. A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, questionou a forma como parte da investigação foi conduzida. O próprio presidente do STF, Edson Fachin, determinou esclarecimentos de autoridades envolvidas.

Ou seja: a crise deixou de ser apenas financeira.

Ela passou a ser institucional.

E quando uma crise dessa dimensão chega ao Supremo Tribunal Federal, ao Congresso Nacional, à Procuradoria-Geral da República e à Polícia Federal, não estamos mais diante de uma fofoca de Brasília.

Estamos diante de uma pergunta fundamental:

quem, afinal, controla quem neste país?

Porque a impressão que fica é que existe uma República oficial e uma República subterrânea.

Na primeira, existem Constituição, leis, eleições, instituições, discursos e solenidades.

Na segunda, existem relações, favores, interesses, portas laterais, jatinhos, contratos, encontros reservados e aquela velha regra brasileira: “você conhece alguém que conhece alguém?”

É aí que a democracia começa a perder sua essência.

O cidadão vota.

Mas alguém influencia.

O cidadão paga imposto.

Mas alguém negocia.

O cidadão espera pelo Estado.

Mas alguém tenta capturá-lo.

E talvez seja por isso que a figura de Vorcaro seja tão emblemática.

Não porque ele seja um gênio.

Não porque tenha descoberto alguma fórmula extraordinária para produzir riqueza.

Mas porque sistemas frágeis produzem oportunidades extraordinárias para quem sabe explorá-los.

O verdadeiro talento de determinados operadores do poder não está necessariamente em criar riqueza.

Está em descobrir onde estão as brechas.

Onde está a porta.

Quem atende o telefone.

Quem pode ajudar.

Quem precisa de ajuda.

Quem pode abrir uma porta no Banco Central.

Quem conhece alguém no Congresso.

Quem tem acesso a um ministro.

Quem financia uma viagem.

Quem participa de um evento.

Quem pode apresentar alguém.

E, sobretudo, quem está disposto a transformar influência em negócio.

Isso não é capitalismo.

Isso não é liberalismo.

Isso não é socialismo.

Isso não é conservadorismo.

Isso não é progressismo.

Isso é patrimonialismo.

E patrimonialismo não tem ideologia.

Tem preço.

Essa talvez seja a grande lição política do episódio.

Enquanto nós, cidadãos, brigamos na internet para decidir se Lula é melhor que Bolsonaro ou se Bolsonaro é melhor que Lula, enquanto direita e esquerda se acusam mutuamente de destruir o país, enquanto milhões de brasileiros defendem seus políticos de estimação como se fossem times de futebol, existe gente muito mais pragmática fazendo negócios.

Eles não torcem.

Eles negociam.

Não têm político de estimação.

Têm agenda.

Não defendem ideologia.

Defendem interesses.

E, quando necessário, conversam com todo mundo.

É por isso que torcer por político é uma das maiores bobagens que podemos fazer.

Político não é jogador de futebol.

Não existe campeonato nacional de políticos.

O cidadão não ganha nada quando seu candidato “humilha” o adversário.

Quem precisa ganhar é o Brasil.

Essa história de escolher um lado e passar pano para tudo o que o seu grupo faz é justamente o ambiente perfeito para a corrupção prosperar.

Porque o corrupto precisa de duas coisas para sobreviver: dinheiro e torcida organizada.

A torcida serve para relativizar.

“Mas o meu lado fez por uma boa causa.”

“Mas o outro lado roubou mais.”

“Mas ele é perseguido.”

“Mas ele enfrentou o sistema.”

“Mas ele é patriota.”

“Mas ele defende a democracia.”

“Mas ele defende Deus.”

E assim seguimos.

Enquanto isso, o dinheiro continua circulando.

O trabalhador continua pagando.

E o Brasil continua atrasado.

É preciso dizer uma coisa incômoda: essa gente que captura o Estado não é apenas corrupta.

É também intelectualmente medíocre.

Porque roubar um país com 200 milhões de habitantes e centenas de milhões de potencialidades não é sinal de inteligência.

É miopia.

É burrice estratégica.

Quem transforma uma das maiores economias do planeta em balcão de negócios privados está destruindo a própria oportunidade de construir um país rico.

O corrupto pensa no próximo contrato.

O estadista pensa nas próximas gerações.

Essa é a diferença.

O corrupto quer ganhar hoje.

O estadista quer construir amanhã.

O corrupto vê orçamento.

O estadista vê desenvolvimento.

O corrupto vê cargo.

O estadista vê Estado.

O corrupto vê eleitor.

O estadista vê cidadão.

E é exatamente disso que o Brasil está precisando: estadismo.

Não precisamos de uma nova guerra entre esquerda e direita.

Precisamos de uma política de propósitos.

Precisamos de uma política que seja capaz de juntar aquilo que funciona na direita com aquilo que funciona na esquerda, sem precisar carregar os fanatismos de nenhuma delas.

Precisamos de responsabilidade fiscal sem abandonar a justiça social.

Precisamos de crescimento econômico sem aceitar privilégios.

Precisamos de políticas sociais eficientes sem transformar pobreza em instrumento permanente de dependência política.

Precisamos de um Estado forte onde ele é necessário e eficiente onde precisa funcionar.

Precisamos de menos espetáculo e mais gestão.

Menos culto à personalidade.

Mais instituições.

Menos influencer político.

Mais estadista.

Menos guerra cultural.

Mais escola.

Mais ciência.

Mais infraestrutura.

Mais segurança.

Mais produtividade.

Mais oportunidades.

E, acima de tudo, mais cidadania.

Porque uma democracia não se sustenta apenas com eleições.

Sustenta-se com cidadãos capazes de compreender que político não é salvador da pátria.

E que autoridade pública não está acima da sociedade.

O caso Vorcaro deveria servir justamente para isso.

Não para alimentar mais uma guerra entre bolsonaristas e lulistas.

Não para ser utilizado como munição de uma torcida contra a outra.

Mas para fazer uma pergunta muito mais séria:

como impedir que o próximo Vorcaro encontre novamente tantas portas abertas?

Essa pergunta precisa alcançar o Executivo, o Legislativo, o Judiciário, os órgãos de controle, o sistema financeiro, os partidos políticos e a própria sociedade.

Precisamos discutir reformas.

Reforma política.

Reforma eleitoral.

Regras mais rígidas para conflitos de interesse.

Transparência real nas relações entre agentes públicos e empresas privadas.

Limites mais claros para portas giratórias entre setor público e privado.

Mais controle sobre lobby.

Mais transparência sobre contratos.

Mais rastreabilidade do dinheiro.

Mais fiscalização sobre financiamento político.

E, sobretudo, instituições que não tenham medo de investigar os poderosos.

Nem os poderosos da direita.

Nem os poderosos da esquerda.

Nem os poderosos do centro.

Nem os poderosos de toga.

Nem os poderosos de terno.

Nem os poderosos de paletó.

Nem os poderosos de camiseta.

A lei precisa ter coragem de atravessar todas as portas.

Porque, quando a Justiça seleciona quem pode ser investigado de acordo com conveniência política, ela deixa de ser Justiça para virar instrumento de disputa.

E quando o Congresso protege seus aliados, o Executivo protege seus aliados ou qualquer instituição tenta se proteger de investigações legítimas, o Estado deixa de servir ao cidadão.

Passa a servir a si mesmo.

E esse é o verdadeiro perigo.

Alguns intelectuais e analistas se assustam quando uma parcela da população, cansada de escândalos, privilégios e instituições que parecem distantes do cotidiano, decide eleger políticos radicais, outsiders ou figuras que flertam perigosamente com soluções autoritárias.

Deveriam se assustar, sim.

Mas talvez devessem perguntar também por que parte da população chegou a esse ponto.

Não se justifica golpe.

Não se justifica violência.

Não se justifica ameaça contra adversários.

Não se justifica arma contra instituições.

Mas também não se constrói democracia chamando de ignorante todo cidadão que perdeu a esperança.

A indignação popular não nasce do nada.

Ela nasce quando o cidadão percebe que trabalha, paga imposto, cumpre a lei e, ainda assim, vê gente poderosa aparentemente transitando por uma República de regras diferentes.

É assim que a democracia adoece.

Primeiro vem a descrença.

Depois vem o cinismo.

Depois vem o radicalismo.

E, finalmente, aparece alguém prometendo resolver tudo com uma bala, um decreto ou um salvador da pátria.

É exatamente esse ciclo que precisamos interromper.

E não será interrompido com mais radicalismo.

Será interrompido com instituições melhores.

Com educação.

Com consciência cidadã.

Com responsabilidade.

Com transparência.

Com reformas.

Com gente preparada para compreender que democracia não é a vitória permanente do meu grupo sobre o grupo do outro.

Democracia é a construção de regras que protejam todos nós, inclusive contra aqueles que eventualmente estejam no poder.

O Brasil não pode continuar sendo governado pelos extremos das paixões e pelos centros ocultos do dinheiro.

Não podemos aceitar uma República em que o eleitor escolhe seus representantes, mas depois descobre que existem outros personagens, sem mandato, sem voto e sem responsabilidade perante a população, capazes de exercer influência desproporcional sobre as decisões do Estado.

Se as investigações confirmarem tudo aquilo que ainda está sendo apurado, o caso Vorcaro será um dos mais graves exemplos contemporâneos de como dinheiro e poder podem se aproximar perigosamente.

Se não confirmarem parte das suspeitas, ótimo.

É exatamente para isso que existem investigação, contraditório, defesa e Justiça.

Mas uma coisa não podemos fazer:

fingir que nada aconteceu.

Porque alguma coisa aconteceu.

E o Brasil precisa olhar para isso sem paixão partidária.

Sem torcida.

Sem blindagem.

Sem vingança.

Sem pré-julgamento.

Mas também sem medo.

Vorcaro pode até desaparecer das manchetes amanhã.

Outros nomes ocuparão seu lugar.

Outras empresas.

Outros bancos.

Outros operadores.

Outros políticos.

Outros escândalos.

Se não mudarmos as estruturas, mudaremos apenas os personagens.

E continuaremos assistindo ao mesmo filme.

O Brasil é muito maior que Brasília.

Muito maior que seus políticos.

Muito maior que seus partidos.

Muito maior que seus ministros.

Muito maior que seus banqueiros.

O Brasil é o agricultor que produz.

É o trabalhador que acorda cedo.

É o pequeno empresário que insiste.

É o estudante que sonha.

É o cientista que pesquisa.

É o professor que ensina.

É o médico que atende.

É o policial que protege.

É a mãe que cria seus filhos.

É o jovem que ainda acredita que pode vencer honestamente.

Esse Brasil não merece ser refém de uma elite política, econômica ou burocrática que transforma o Estado em instrumento de interesses particulares.

Nosso país tem tudo para ser uma das maiores nações do mundo.

Tem território.

Tem recursos.

Tem gente.

Tem inteligência.

Tem capacidade produtiva.

Tem cultura.

Tem democracia.

Tem instituições.

O que nos falta, talvez, seja uma coisa mais difícil de construir:
maturidade política.

Precisamos parar de procurar salvadores.

Precisamos parar de tratar políticos como santos.

Precisamos parar de achar que todo adversário é inimigo.

Precisamos parar de aceitar corrupção quando ela vem embrulhada na bandeira que
gostamos.

E precisamos começar a cobrar de todos aquilo que exigimos dos outros.

Essa é a verdadeira consciência cidadã.

Que o caso Vorcaro seja, portanto, mais do que outro escândalo.

Que seja um divisor de águas.

Que nos obrigue a perguntar quem são os verdadeiros donos do poder.

Os eleitos?

As instituições?

O dinheiro?

Os grupos de interesse?

Ou aqueles que conseguem circular silenciosamente entre todos eles?

Porque uma democracia em que o cidadão vota, mas não sabe quem realmente influencia as decisões, é uma democracia que precisa urgentemente olhar para si mesma.

Que Deus tenha piedade do Brasil.

E que nós, brasileiros, não percamos a fé na democracia, na liberdade, na justiça e na capacidade de construir um país mais próspero e socialmente justo.

Mas, para isso, teremos de fazer uma escolha.

Continuar torcendo por políticos…

ou começar, finalmente, a torcer pelo Brasil.

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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