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Márcio Corrêa vira peça-chave na disputa entre Wilder, Daniel e o bolsonarismo em Goiás

Mesmo filiado ao PL, prefeito apoia Daniel Vilela para governador, mantém aliança com Gustavo Gayer e articula aproximação entre bolsonarismo e grupo de Caiado


Andréia Bahia Por Andréia Bahia em 26/09/2026 - 20:03

“O prefeito de Anápolis tenta operar uma aliança que atravessa partidos: Daniel para o governo, Gayer e Gracinha para o Senado.” Foto: Divulgação das campanhas

A eleição de 2026 em Goiás ganhou, na reta final, um personagem que não disputa o governo do Estado, mas que passou a ocupar um espaço importante na engrenagem da disputa: o prefeito de Anápolis, Márcio Corrêa (PL). Sua decisão de apoiar Daniel Vilela (MDB) para governador, contrariando o candidato de seu próprio partido, Wilder Morais, expôs uma fissura dentro do PL que vai muito além de uma divergência eleitoral. O episódio revela uma disputa sobre quem tem capacidade de organizar a direita goiana.

Márcio não é um prefeito qualquer dentro desse tabuleiro. É o prefeito do terceiro maior colégio eleitoral de Goiás, uma liderança que chegou ao comando de Anápolis pelo PL e que construiu uma relação próxima com setores do bolsonarismo, quando assumiu uma cadeira na Câmara Federal.

Aproximação que foi decisiva para sua filiação ao PL e para a vitória na queda de braço com os grupos de Roberto Naves e Wilder Morais, que disputavam espaço na definição do candidato à Prefeitura de Anápolis em 2024.

Ao mesmo tempo, ele mantém uma relação política anterior com Daniel Vilela e passou a defender publicamente a candidatura do emedebista ao governo. 

Em agosto, ao oficializar o apoio, justificou a escolha pelo que considera uma parceria administrativa favorável a Anápolis. A decisão não foi exatamente uma surpresa. Antes mesmo da oficialização, Márcio já havia sinalizado que sua escolha levaria em conta os interesses de Anápolis. O que mudou foi o momento em que ele deixou de trabalhar com a ambiguidade e assumiu publicamente o palanque de Daniel. 

A partir daí, a divergência, que é restrita à legenda estadual, não houve manifestação da direção nacional em relação ao apoio de Márcio a Daniel, deixou de ser apenas uma questão de preferência eleitoral e passou a ser tratada pelo PL como um problema partidário. A legenda abriu procedimento contra o prefeito, colocando sobre a mesa até mesmo a possibilidade de expulsão. 

O conflito, porém, não começou em agosto. Nos bastidores, a relação entre Márcio e Wilder já vinha marcada por desconfianças e interesses políticos distintos. A leitura de pessoas próximas ao prefeito é que Wilder nunca teria sido o principal responsável pela construção política que levou Márcio à Prefeitura de Anápolis. Ao contrário: durante a montagem da candidatura de 2024, teria havido dentro do PL uma disputa pela definição do nome que representaria o partido na sucessão municipal. Márcio acabou prevalecendo, com apoio de setores nacionais da legenda e de nomes identificados com o bolsonarismo. 

Para Márcio, a eleição de 2026 não é simplesmente uma escolha entre dois candidatos ao governo. Há uma lógica de reciprocidade política envolvida. O prefeito mantém vínculos com pessoas que considera importantes para sua trajetória e, ao mesmo tempo, procura preservar alianças que possam ser úteis para Anápolis. É nesse ponto que Daniel Vilela aparece com força.

O próprio Márcio tem apresentado sua escolha dessa maneira. Em setembro, voltou a dizer que decidiu apoiar Daniel pelo apoio recebido do governo estadual em áreas como saúde, infraestrutura, segurança, transporte, habitação e desenvolvimento econômico. Há, portanto, uma explicação administrativa para a decisão. Mas a política raramente se resume à administração.

O que torna o caso especialmente relevante é que Márcio não rompeu com o campo político de direita ao escolher Daniel, que seria de centro. Ao contrário, mantém outras alianças com nomes do bolsonarismo. É aí que surge o chamado fator Márcio.

O prefeito pode apoiar Daniel para governador e, simultaneamente, defender nomes identificados com o bolsonarismo na disputa pelo Senado. Essa combinação cria uma espécie de ponte entre grupos que, em Goiás, chegaram a caminhar para lados diferentes. A movimentação em torno de Gustavo Gayer e Gracinha Caiado é um exemplo dessa tentativa de construir uma composição que atravesse as fronteiras partidárias.

O episódio também ajuda a compreender a dimensão do problema para Wilder. O candidato do PL tenta consolidar sua campanha como a principal alternativa da direita ao grupo governista. Em seu discurso oficial, a estratégia passa pela associação direta com Jair Bolsonaro e com Flávio Bolsonaro. 

Mas Márcio representa justamente uma situação diferente: alguém que permanece no PL, mantém relações com o bolsonarismo, mas não acompanha o candidato do partido ao governo. É uma contradição que expõe a dificuldade de transformar identidade ideológica em disciplina eleitoral.

Nos bastidores ouvidos pela reportagem, existe uma interpretação ainda mais ampla: a de que Wilder teria conseguido consolidar sua candidatura principalmente pela força da direção nacional do PL, especialmente do presidente Valdemar Costa Neto, enquanto encontrava resistências dentro de setores da direita goiana. Essa leitura não significa que o candidato não tenha apoio bolsonarista, sua própria campanha trabalha fortemente essa identificação, mas aponta para uma diferença entre o apoio formal da legenda e a construção de uma liderança capaz de reunir todos os grupos do campo conservador em torno de um mesmo projeto.

É nesse ponto que Márcio se torna um problema maior do que sua própria posição eleitoral. Ele demonstra, na prática, que a direita pode continuar politicamente fragmentada mesmo quando compartilha referências ideológicas. O eleitor que se identifica com Bolsonaro não necessariamente seguirá o mesmo candidato para todos os cargos. As alianças municipais, as relações pessoais e os interesses locais continuam pesando.

Anápolis é o laboratório mais evidente dessa realidade. A cidade tem peso eleitoral e econômico suficiente para fazer de Márcio uma liderança relevante no debate estadual. Daniel, ao conquistar o apoio do prefeito, ampliou sua presença no município e consolidou uma aliança que vai além da relação entre MDB e PL. O apoio também ajudou o governador a reunir os prefeitos dos dez maiores colégios eleitorais de Goiás.

Para Daniel, portanto, Márcio representa mais do que um voto de apoio. Representa uma porta de entrada em um eleitorado que não necessariamente se identifica naturalmente com o MDB.

Para Wilder, a situação é inversa. O prefeito do maior município administrado pelo PL em Goiás não está em seu palanque. E não se trata de uma liderança que simplesmente migrou para o grupo adversário. Márcio continua mantendo pontes com setores que Wilder também pretende representar.

Essa talvez seja a maior força política de Márcio neste momento: ele não precisa abandonar completamente um campo para dialogar com outro.

A fotografia política que começa a se formar em Anápolis é justamente essa. De um lado, Wilder procura fortalecer a identidade do PL e consolidar o apoio da família Bolsonaro. De outro, Márcio trabalha por uma composição que coloca Daniel no governo e aproxima nomes do bolsonarismo e do grupo de Caiado na disputa pelo Senado.

O prefeito de Anápolis tornou-se, involuntariamente ou não, uma espécie de teste para a capacidade da direita goiana de conviver com interesses diferentes.

Wilder representa o projeto eleitoral do PL para o governo. Daniel representa a continuidade do grupo que comandou Goiás nos últimos anos. Gayer representa uma parcela mais identificada com o bolsonarismo. Gracinha representa o grupo político de Caiado. E Márcio tenta manter canais com todos esses setores, escolhendo alianças diferentes de acordo com a disputa.

É justamente por isso que o processo de expulsão aberto pelo PL contra o prefeito pode acabar tendo um efeito político maior do que o disciplinar. Quanto mais o partido transforma Márcio em adversário interno, mais evidencia que existe dentro da própria legenda uma liderança relevante que não está seguindo a orientação da candidatura majoritária.

A questão central, portanto, não é saber apenas se Márcio Corrêa continuará no PL. A questão é saber quanto de sua força política poderá ser transferida para os projetos que ele decidiu apoiar.

Essa resposta será particularmente importante em Anápolis, mas terá reflexos também na disputa estadual. Afinal, Márcio chegou a 2026 com uma característica rara: consegue conversar com o bolsonarismo, tem relação política com Daniel e exerce influência sobre uma cidade estratégica.

O prefeito não está disputando o governo de Goiás. Mas sua posição ajuda a revelar uma das principais características desta eleição: a dificuldade de enquadrar a política goiana em uma simples divisão entre direita e esquerda ou entre partidos adversários.

E, nesse cenário, Márcio Corrêa deixou de ser apenas o prefeito de Anápolis que decidiu apoiar um candidato diferente do seu partido. Tornou-se uma peça capaz de conectar grupos que, até pouco tempo atrás, pareciam caminhar para uma disputa aberta entre si. É por isso que, na reta final, o fator Márcio talvez seja menos sobre quem ele escolheu para governador e mais sobre quem ele consegue manter sentado à mesma mesa.

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