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Quando a fé vira palanque eleitoral


Andréia Bahia Por Andréia Bahia em 26/09/2026 - 17:04

Uma coisa é levar suas convicções religiosas para a política; outra é transformar a política em uma disputa para decidir qual fé terá mais poder. Foto: Santuário de Aparecida / Congresso nacional

A religião deixou de ser um elemento periférico das campanhas eleitorais brasileiras. Em 2026, ela ocupa espaço cada vez mais evidente nos discursos, nas alianças, nas estratégias de comunicação e na tentativa dos candidatos de estabelecer uma conexão direta com determinados grupos do eleitorado. O fenômeno é especialmente visível entre os evangélicos, que ampliaram sua presença política e institucional e hoje constituem uma força organizada no Congresso Nacional.

Mas há uma questão que merece ser discutida com mais cuidado: até onde vai a legítima participação religiosa no debate público e onde começa a transformação da fé em instrumento eleitoral?

A pergunta ganhou novo combustível nesta semana, depois que circulou nas redes sociais a informação de que Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, teria a intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. A informação era falsa. O próprio candidato negou a existência de qualquer projeto com esse objetivo. O projeto que voltou a ser utilizado como referência havia sido apresentado em 2007 pelo então deputado Victório Galli e foi arquivado em 2008.

O episódio, no entanto, merece atenção justamente porque demonstra o tamanho que a religião adquiriu na disputa política. Uma informação sem comprovação foi suficiente para produzir reação, mobilização, indignação e disputa narrativa. A questão deixou de ser apenas sobre a existência ou não de um projeto legislativo e passou a funcionar como símbolo de uma suposta disputa entre católicos e evangélicos, entre diferentes visões de país e, em última instância, entre campos políticos.

É aí que está o fenômeno mais importante. A religião não está apenas sendo utilizada para pedir votos. Ela está sendo utilizada para definir quem pertence a determinado campo político.

O candidato que fala em Deus, família, valores cristãos e liberdade religiosa não está necessariamente apresentando uma proposta sobre religião. Muitas vezes, está enviando um sinal de pertencimento. Da mesma forma, o adversário que responde utilizando símbolos religiosos pode estar tentando impedir que aquele campo seja monopolizado politicamente pelo outro lado.

O problema começa quando a identidade religiosa substitui a discussão sobre o exercício do mandato. Um candidato a deputado federal de Goiás afirma, em seu horário eleitoral gratuito, que a religião precisa ser discutida no Congresso Nacional. A afirmação, em si, não deveria causar estranhamento. O Congresso legisla sobre temas que atingem diretamente a liberdade religiosa, a proteção de templos, a educação, a assistência social, a família, a liberdade de expressão e inúmeros outros assuntos que podem envolver convicções religiosas. O Congresso também é formado por cidadãos que possuem religião, ou não possuem nenhuma. Não existe incompatibilidade entre ter fé e exercer mandato político.

A questão é o que significa discutir religião no Congresso? Se significa defender a liberdade de culto, combater a discriminação religiosa e garantir que diferentes tradições tenham seus direitos protegidos, trata-se de uma discussão legítima do Estado democrático. Se significa transformar uma religião específica em critério para definir quem é um cidadão legítimo, quem merece direitos ou quem pode participar plenamente da vida pública, a discussão muda de natureza. E é justamente essa fronteira que as campanhas deveriam deixar clara.

A própria Igreja Católica oferece um exemplo interessante de como essa distinção pode ser feita. Em mensagem divulgada para as eleições de 2026, a CNBB afirmou que a Igreja não indica candidatos nem partidos, mas defendeu a participação consciente dos eleitores e a análise da trajetória dos candidatos e das consequências de seus compromissos. Para a entidade, a política pode ser compreendida pela fé cristã como serviço ao bem comum, sem que isso signifique transformar a instituição religiosa em partido político.

Em outro documento relacionado às eleições, a CNBB reforçou que a Igreja não tem partido ou ideologia e que a atividade política, em sentido estrito, cabe aos leigos. Ao mesmo tempo, sustenta que a Igreja pode oferecer critérios éticos e morais para o discernimento dos fiéis. É uma distinção importante sobre a religião, que pode participar do debate público sem necessariamente se transformar em instrumento de comando eleitoral.

O mesmo raciocínio precisa ser aplicado aos evangélicos. O crescimento da presença evangélica na política brasileira é um fenômeno social e político que não pode ser ignorado ou tratado como anomalia. Igrejas, lideranças e fiéis têm todo o direito de participar do debate público, apresentar propostas, defender valores e eleger representantes que considerem alinhados às suas convicções. O eleitor evangélico, porém, não é um bloco homogêneo. E o mesmo vale para o eleitor católico.

A tentativa de tratar milhões de brasileiros como uma massa eleitoral uniforme pode até funcionar como estratégia de campanha, mas não corresponde necessariamente à complexidade da sociedade brasileira. Pesquisa recente do Instituto de Estudos da Religião (Iser) em parceria com a Quaest, com 15 mil entrevistados em 412 municípios, mostra justamente uma sociedade religiosamente mais complexa do que as classificações eleitorais sugerem ( https://iser.org.br/religiaoevidapublicanobrasil/). Católicos e evangélicos representam parcelas expressivas da população, mas suas crenças e práticas não formam blocos perfeitamente uniformes.

A política, entretanto, tem interesse na simplificação. É mais fácil falar em “o eleitor evangélico” do que compreender as diferenças entre um pastor pentecostal, um fiel de uma igreja histórica, um jovem evangélico de periferia, uma mulher evangélica preocupada com segurança pública ou um empresário que frequenta uma igreja e tem prioridades econômicas muito diferentes das de seu pastor. O mesmo vale para os católicos. 

Quando a campanha transforma religião em identidade eleitoral, o risco é deslocar a pergunta fundamental: o que o candidato pretende fazer com o poder que está pedindo ao eleitor? A fé pode explicar valores. Não deveria dispensar a análise de propostas.

O candidato pode ser cristão, judeu, muçulmano, espírita, umbandista, de qualquer outra tradição religiosa ou não ter religião. Isso não responde, sozinho, como ele votará em uma reforma tributária, que política defenderá para a saúde, como tratará a segurança pública, quais prioridades terá no orçamento ou que posição adotará diante de uma crise institucional.

É justamente nesse ponto que a discussão religiosa nas eleições pode amadurecer. Não se trata de retirar a religião da política. Isso seria incompatível com uma sociedade plural, na qual cidadãos têm o direito de levar suas convicções para o espaço público. Trata-se de impedir que a religião seja utilizada como atalho para evitar o debate político.

O episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida mostra isso de maneira quase didática. Uma informação falsa sobre um suposto projeto de Flávio Bolsonaro foi suficiente para provocar uma reação política porque tocou em um símbolo religioso de enorme importância cultural e afetiva para os brasileiros. A discussão se espalhou antes que a informação fosse devidamente verificada. A fé, nesse caso, virou combustível para a política antes que os fatos fossem estabelecidos.

Esse é um dos desafios eleitorais de 2026. Em vez de perguntar apenas qual candidato “defende Deus”, “defende a família” ou “defende os valores cristãos”, o eleitor pode perguntar o que cada candidato entende por esses conceitos e como pretende transformá-los em políticas públicas. Porque Deus não vota. Quem vota é o cidadão.

E o cidadão, religioso ou não, precisa escolher representantes que serão responsáveis por administrar recursos públicos, elaborar leis, fiscalizar governos e tomar decisões que afetarão toda a sociedade, inclusive pessoas que não compartilham de sua fé.

A religião tem lugar na política porque os religiosos têm lugar na democracia. Mas o Estado tem de continuar pertencendo a todos. Essa talvez seja a fronteira mais importante a ser preservada em uma eleição em que a fé aparece cada vez mais como linguagem de campanha. Uma coisa é levar suas convicções religiosas para a política; outra é transformar a política em uma disputa para decidir qual fé terá mais poder.

No primeiro caso, estamos diante do exercício legítimo da cidadania. No segundo, a religião deixa de ser apenas uma convicção e passa a funcionar como palanque. E quando a fé vira palanque, o debate sobre propostas corre o risco de ficar em segundo plano.

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