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A eleição chegou. O entusiasmo, não

O desânimo pode estar mudando a forma como o eleitor decide.


Por Leandro Rodrigues em 25/09/2026 - 15:10

A eleição chegou. O entusiasmo, não
A eleição chegou. O entusiasmo, não

Leandro Rodrigues

 

O desânimo também não parece restrito a quem ainda está procurando um candidato. Entre os eleitores de Lula, 57% responderam que não estão animados com a eleição; entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, o percentual chega a 59%. Entre os indecisos, são 63%. Ter uma preferência eleitoral e estar envolvido com a eleição, portanto, não parecem ser exatamente a mesma coisa. É perfeitamente possível saber em quem votar e, ao mesmo tempo, querer dedicar muito pouca atenção ao caminho até a urna.

Esse dado acrescenta uma nova peça a uma questão sobre a qual venho escrevendo nas últimas semanas. No início de setembro, outra pesquisa da Real Time Big Data mostrava que 69% dos entrevistados haviam pensado pouco ou nada sobre sua escolha para presidente. Depois, ao discutir o que chamei de eleitor tardio, procurei mostrar que as pessoas não entram na eleição ao mesmo tempo e que as preferências não amadurecem todas no mesmo ritmo. Agora surge uma pergunta um pouco diferente. Talvez não seja apenas uma questão de quando o eleitor começa a decidir, mas também de quanto esforço ele ainda está disposto a dedicar à decisão quando finalmente chega a esse ponto.

Do eleitor tardio ao eleitor cansado

Quando escrevi O calendário avançou. O eleitor, nem tanto, o ponto central era justamente o descompasso entre o calendário da política e o calendário do eleitor. A campanha já ocupava partidos, candidatos, jornalistas e quem acompanha política diariamente, mas uma parcela grande da população ainda dedicava pouca atenção à escolha presidencial. Em O eleitor tardio e a construção do voto, avancei nessa direção mostrando que a velha divisão entre “decididos” e “indecisos” simplifica demais o comportamento eleitoral. Há pessoas com preferências fortemente cristalizadas, outras com inclinações ainda pouco acessíveis e outras que deixaram determinados cargos simplesmente para depois.

O dado sobre o ânimo coloca uma hipótese nova sobre essa história. Normalmente imaginamos que o eleitor que passou boa parte da campanha prestando pouca atenção compensará o atraso na reta final. A proximidade da votação aumentaria sua busca por informações, obrigaria uma comparação mais cuidadosa das opções e finalmente produziria a decisão. Isso certamente acontece com parte do eleitorado, mas não há razão para supor que aconteça com todos. Um eleitor pode chegar tarde à eleição e já chegar cansado dela. Nesse caso, a urgência aumenta, mas sua disposição para aprofundar a busca não necessariamente aumenta na mesma proporção.

Há um indício complementar fora das tradicionais tabelas de intenção de voto. Mario Rodrigues Neto chamou a atenção recentemente para as taxas elevadas de recusa encontradas nos levantamentos eleitorais que acompanha, próximas de 60%. A recusa, por si só, não significa desinteresse e não permite inferir como aquela pessoa votaria. Mas ela aponta para uma etapa que desaparece quando vemos apenas o resultado final de uma pesquisa: antes de sabermos o que o eleitor pensa, precisamos convencê-lo a interromper sua rotina e participar daquela conversa. Quando uma parcela muito grande prefere não fazê-lo, vale ao menos perguntar se estamos diante de uma resistência crescente a mais uma solicitação de atenção relacionada à política.

Esse problema é conhecido por quem estuda pesquisas. A literatura fala em fadiga de pesquisas, ou survey fatigue, e em fadiga do respondente, ou respondent fatigue. Os termos se sobrepõem em parte, mas a distinção é útil. A primeira pode aparecer quando as pessoas são constantemente convidadas a responder questionários e passam a ignorar ou recusar novas solicitações. A segunda surge dentro da própria entrevista, quando alguém aceita participar, mas vai reduzindo o esforço à medida que a tarefa se torna longa, repetitiva ou pouco estimulante. Estudos sobre questionários extensos mostram justamente que a qualidade de algumas respostas pode se deteriorar conforme aumenta o tempo exigido do entrevistado.

A conclusão não é que pesquisas eleitorais estejam necessariamente sendo respondidas de maneira descuidada. Também não existe um ponto universal depois do qual todo entrevistado passa a responder mal. O que essa literatura mostra é algo bem mais simples e relevante para a discussão: a disposição para dedicar esforço a uma tarefa não é constante. Ela depende da dificuldade, da motivação, do cansaço e do valor que atribuímos ao resultado daquela atividade.

Quando a própria política passa a exigir esforço demais

Um trabalho recente do cientista político Ian Anson oferece uma pista particularmente interessante. Em dois experimentos realizados nos Estados Unidos em 2024, ele comparou entrevistados expostos a baterias de perguntas sobre política com outros submetidos a conteúdos não políticos de estrutura semelhante. O estudo encontrou um aumento pequeno, mas detectável, de comportamentos associados a respostas de menor esforço depois da exposição ao conteúdo político. O próprio resultado precisa ser tratado com cautela: o efeito médio foi modesto, o estudo foi realizado em outro contexto e o trabalho circula como preprint. Ainda assim, a pergunta colocada por Anson é muito pertinente para 2026: o conteúdo político pode, ele próprio, cobrar um preço de atenção.

Traduzido para fora do laboratório, o ponto é bastante intuitivo. Política também exige esforço. É preciso acompanhar acontecimentos, organizar informações contraditórias, interpretar declarações, lidar com conflitos e revisar impressões anteriores. E esse esforço não começa quando um instituto de pesquisa telefona. No Brasil de 2026, a política já chegou antes pelo WhatsApp, Instagram, televisão, YouTube, propaganda eleitoral, conversas cotidianas e pelas pesquisas divulgadas quase diariamente.

Para quem trabalha com política ou acompanha o tema por interesse, esse fluxo pode parecer natural. Sempre existe mais uma pesquisa para analisar, mais uma entrevista para assistir, mais um movimento de campanha a interpretar. Mas o cidadão comum não dispõe de uma reserva especial de atenção destinada à política. Ela compete com trabalho, família, renda, lazer, problemas pessoais, redes sociais e dezenas de outras demandas que disputam as mesmas horas do dia.

Talvez seja justamente por isso que o dado dos 55% seja tão interessante. A Real Time Big Data não nos diz por que essas pessoas não estão animadas, e seria um erro transformar fadiga numa explicação já comprovada. Mas o resultado aparece ao lado de outros sinais: no início do mês, uma parcela muito grande do eleitorado dizia ter pensado pouco sobre a escolha presidencial; decisões continuaram sendo formadas tardiamente; pesquisadores enfrentam taxas elevadas de recusa; e agora a maioria dos entrevistados diz não estar animada com a eleição.

Nenhum desses elementos, isoladamente, demonstra que o eleitor esteja “cansado da política”. Mas juntos eles permitem levantar uma hipótese mais cuidadosa: talvez parte do eleitorado esteja disposta a dedicar cada vez menos esforço adicional a uma eleição que já ocupou muito espaço sem necessariamente produzir maior envolvimento.

Quando “já pensei o suficiente” passa a ser uma resposta

É nesse ponto que aparece um conceito que merece uma discussão própria: satisficing. Em termos simples, trata-se de interromper a busca quando encontramos uma alternativa que consideramos boa o bastante, em vez de continuar procurando pela melhor possível. A ideia vem de Herbert Simon e foi levada por Jon Krosnick para o estudo das respostas em pesquisas. Krosnick mostrou que, quando uma tarefa exige muito esforço e a motivação é limitada, as pessoas podem abreviar parte do processamento necessário para chegar a uma resposta, sem simplesmente abandonar a tarefa.

O conceito é interessante para pensar o eleitor, mas exige cuidado. Responder a uma pesquisa e escolher um presidente não são a mesma atividade. Não podemos assumir que um comportamento observado dentro de um questionário seja automaticamente reproduzido na urna. Ainda assim, a comparação produz uma pergunta muito útil: o que acontece quando o eleitor tardio chega à reta final com pouco tempo e pouca disposição para continuar procurando?

Talvez ele não tente reconstruir toda a campanha que não acompanhou. Talvez use as informações que já possui, as rejeições acumuladas, alguma identificação política, a opinião de pessoas em quem confia ou os sinais mais facilmente disponíveis naquele momento. Isso não torna necessariamente sua escolha irracional. Todos nós fazemos algo semelhante diariamente. Há um ponto em que continuar procurando custa mais do que acreditamos poder ganhar encontrando uma alternativa ligeiramente melhor.

A questão interessante para 2026 é saber se esse ponto está sendo alcançado mais cedo. Ou, dito de outra maneira, se o eleitor cansado está reduzindo a quantidade de reflexão que considera necessária antes de concluir que já sabe o suficiente para votar.

A pesquisa da Real Time Big Data não responde a isso. Mas os 55% que dizem não estar animados ajudam a formular a pergunta. Até aqui, eu vinha tentando compreender por que parte do eleitorado demorava tanto para entrar na eleição. Talvez seja necessário acrescentar outra dimensão:

quando finalmente entra, esse eleitor pode não estar disposto a permanecer muito tempo nela.

O eleitor tardio, nesse caso, seria também um eleitor com pressa de terminar. E isso nos leva diretamente à próxima pergunta: quando estamos cansados de decidir, o que faz uma escolha parecer boa o bastante?

Redação Tribuna do Planalto

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