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Nossa Senhora Aparecida não é cabo eleitoral: a fé do Brasil não pode ser sequestrada pela polarização


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 29/09/2026 - 10:13

'Fake News' de Nossa Senhora Aparecida gerou 778 mil menções em cinco dias
Nossa Senhora Aparecida é a Padroeira do Brasil, título que simboliza a maternal proteção de Maria sobre o povo brasileiro e celebrada em 12 de outubro.

Há símbolos que pertencem a todos nós. Símbolos que atravessam gerações, classes sociais, regiões, diferenças ideológicas e até fronteiras religiosas. Nossa Senhora Aparecida é um desses símbolos. Mais do que uma referência da tradição católica, ela se tornou parte profunda do imaginário, da história e da cultura brasileira. Por isso mesmo, há algo que precisa ser dito com respeito, mas também com firmeza: Nossa Senhora Aparecida não é cabo eleitoral de ninguém. Respeitem-na.

A história que deu origem à devoção é conhecida por milhões de brasileiros. Em 1717, no Rio Paraíba do Sul, os pescadores João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia, depois de sucessivas tentativas sem conseguir peixes, encontraram nas redes primeiro o corpo de uma pequena imagem e, em seguida, sua cabeça. Ao juntarem as duas partes, continuaram a pescaria e, segundo a tradição católica, as redes se encheram de peixes. A imagem foi levada para a casa da família e, pouco a pouco, aquela devoção doméstica transformou-se em uma das maiores manifestações religiosas e culturais do Brasil.

É justamente aí que está a força de Aparecida. A história mexe com o imaginário brasileiro porque combina simplicidade, sofrimento, esperança, fé e a vida de gente comum. Não são reis ou grandes autoridades que aparecem no começo dessa história. São pescadores. Homens simples diante de um rio, de uma necessidade concreta e de uma pescaria que não estava dando certo. Talvez seja por isso que tantos brasileiros se reconheçam nessa imagem.

Nossa Senhora Aparecida entrou na vida de famílias inteiras. Está nas casas, nos altares, nas igrejas, nas estradas, nos terços, nas promessas, nas romarias e nas orações silenciosas de quem pede saúde, emprego, proteção, alimento, paz para a família ou simplesmente forças para continuar. Para quem tem fé católica, Nossa Senhora é intercessora e Mãe. Para outros brasileiros, talvez seja sobretudo uma referência cultural, histórica e afetiva. E é justamente essa dimensão que precisa ser respeitada.

Porque a grandeza de Aparecida não está em separar brasileiros. Está em aproximá-los. A fé, quando vivida em sua dimensão mais bonita, desperta aquilo que há de melhor em cada pessoa: a caridade, a generosidade, o cuidado com quem sofre, a disposição de ajudar o próximo, a esperança diante da dificuldade e a compreensão de que ninguém deveria caminhar sozinho.

É possível acreditar ou não acreditar. É possível ser católico, evangélico, espírita, judeu, praticante de religiões de matriz africana, seguir outra tradição religiosa ou não professar religião alguma. O Estado brasileiro é laico e a sociedade brasileira é plural. Mas Nossa Senhora Aparecida faz parte da história cultural do Brasil. E patrimônio cultural não pertence a uma facção política. É de todos.

O Brasil vive há anos uma polarização política profundamente radicalizada. E uma das características mais preocupantes desse ambiente é a tentativa permanente de transformar símbolos da sociedade em instrumentos de disputa eleitoral. Já vimos isso acontecer com instituições, com as Forças Armadas, com igrejas, com artistas, com universidades, com jornalistas, com símbolos nacionais e até com manifestações culturais brasileiras.

O problema não está em cidadãos, militares, religiosos, artistas ou qualquer outro grupo terem suas convicções políticas. Todos têm esse direito. O problema começa quando instituições e símbolos que deveriam possuir uma dimensão muito maior são reduzidos a ferramentas de uma estratégia eleitoral.

O Exército Brasileiro, instituição que integra a história nacional e que desperta orgulho em milhões de brasileiros, também foi colocado no centro de uma disputa política que extrapolou sua função constitucional. Episódios recentes demonstraram como instituições de Estado podem ser arrastadas para conflitos políticos quando determinados grupos tentam transformá-las em instrumentos de sua narrativa. Isso não diminui o papel das Forças Armadas. Pelo contrário: é justamente porque instituições de Estado são importantes que elas precisam ser preservadas da disputa política cotidiana.

O mesmo raciocínio vale para as igrejas evangélicas. O Brasil possui uma enorme e diversificada comunidade evangélica. São igrejas que, diariamente, acolhem pessoas vulneráveis, distribuem alimentos, ajudam famílias, oferecem assistência espiritual, recuperam dependentes, cuidam de idosos, trabalham com crianças e adolescentes e criam redes de solidariedade em comunidades onde muitas vezes o Estado não consegue chegar. Reduzir todo esse universo religioso a uma ferramenta eleitoral também é uma injustiça.

E a crítica precisa valer para todos os lados.

A polarização não captura apenas um campo político. Ela tenta capturar tudo. Até a cultura brasileira. Nossa música, nossa arte, nosso futebol, nossas festas populares, nossos artistas, nossa literatura e nossas tradições passaram, em diferentes momentos, a ser tratados como se precisassem escolher um lado político. Mas a cultura brasileira não pertence à esquerda ou à direita. Pertence ao povo brasileiro. É a nossa identidade. É patrimônio de todos.

Existe uma lógica bastante conhecida na comunicação política: quanto mais radicalizado está o ambiente, mais fácil pode ser capturar a atenção por meio de símbolos fortes, emoções intensas e conflitos simplificados. A política contemporânea descobriu que a indignação gera audiência, que o medo mobiliza, que a provocação viraliza e que, em determinadas circunstâncias, uma guerra cultural pode ser muito mais eficiente para ocupar as redes sociais do que uma discussão séria sobre orçamento público, saúde, educação, segurança, emprego, infraestrutura, desigualdade, agricultura, habitação ou desenvolvimento econômico.

É aí que mora o perigo. Porque, quando a política transforma tudo em guerra, o cidadão deixa de discutir aquilo que realmente importa. Enquanto todos brigam pelo símbolo, quase ninguém pergunta pelo resultado. Enquanto todos discutem quem representa Deus, quase ninguém pergunta quem está cuidando dos pobres. Enquanto políticos disputam quem tem a fé mais verdadeira, famílias continuam enfrentando dificuldades concretas.

E enquanto o eleitor é levado a olhar para uma batalha cultural atrás da outra, problemas reais podem desaparecer do centro da discussão pública. Não é preciso acreditar em nenhuma teoria conspiratória para compreender essa dinâmica. Basta observar como funciona uma campanha eleitoral polarizada: quanto mais emoção existe, menor tende a ser o espaço para a complexidade.

É nesse contexto que episódios como o caso Banco Master precisam continuar sendo acompanhados pela sociedade. As investigações e disputas institucionais relacionadas ao banco envolvem suspeitas, decisões judiciais, atuação de órgãos reguladores, relações entre agentes privados e figuras públicas e diferentes versões apresentadas pelos envolvidos. Há apurações sobre possíveis irregularidades e questionamentos sobre procedimentos de fiscalização, e os envolvidos citados nas reportagens negam irregularidades ou favorecimento e afirmam confiar nas investigações.

Tudo isso precisa ser investigado. Sem paixão partidária. Sem proteção para ninguém. Sem condenação antecipada. E sem esquecimento.

Porque democracia não combina com distração deliberadamente produzida. É legítimo perguntar se, em uma reta final de campanha, determinados conflitos simbólicos acabam ocupando espaço desproporcional na agenda pública enquanto problemas concretos e investigações relevantes deixam de receber a atenção necessária. Essa pergunta não significa afirmar que exista uma operação coordenada para esconder determinado escândalo. Significa defender algo muito mais simples: o eleitor tem direito à informação completa e à capacidade de olhar para todos os assuntos relevantes ao mesmo tempo.

Nenhuma disputa religiosa deveria servir para apagar o debate sobre corrupção, fiscalização, responsabilidade pública, economia, saúde, educação ou qualquer outro problema nacional.

É por isso que causa tristeza ver Nossa Senhora Aparecida sendo arrastada para uma disputa política. Nossa Senhora não precisa de palanque, não precisa de candidato, não precisa de partido, não precisa de número eleitoral, não precisa de campanha e, principalmente, não precisa que políticos falem em seu nome para tentar transformar fé em voto.

A fé é maior do que isso. A imagem encontrada por três pescadores em 1717 atravessou mais de três séculos. Sobreviveu a mudanças políticas, governos, crises econômicas, guerras, transformações culturais e gerações inteiras de brasileiros. Ela continuará existindo depois que todos os candidatos de hoje forem apenas páginas nos livros de história.

Essa é a perspectiva que a política deveria ter. O poder passa. A República permanece. Os governos passam. O povo permanece. As eleições passam. Os símbolos de uma nação permanecem. E Nossa Senhora Aparecida permanecerá na memória religiosa e cultural de milhões de brasileiros.

Talvez a grande mensagem que a política brasileira pudesse extrair da tradição cristã seja justamente aquela ensinada por Jesus no Evangelho de Marcos: “Quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos.”

Que frase extraordinariamente atual.

Governar deveria significar servir. Mandato deveria significar responsabilidade. Poder deveria significar compromisso. Cargo público deveria significar renúncia pessoal em favor do interesse coletivo. Talvez seja exatamente aí que esteja a distância entre uma política verdadeiramente republicana e a política do poder pelo poder.

O Brasil não precisa de políticos que se sintam donos da verdade. Precisa de homens e mulheres públicos capazes de ouvir. Não precisa de líderes interessados apenas em vencer a próxima eleição. Precisa de pessoas dispostas a pensar nas próximas gerações. Não precisa de quem use a fé para dividir. Precisa de quem compreenda que a fé pode inspirar solidariedade, respeito, responsabilidade e cuidado com o próximo.

O Brasil é um país de fé. É um país de gente trabalhadora. É um país de gente que acorda cedo, pega ônibus, abre a loja, vai para a roça, entra na fábrica, cuida dos filhos, enfrenta hospitais, paga impostos, empreende, estuda e segue em frente mesmo quando a vida aperta. É um país de gente boa. E talvez essa gente mereça uma política que esteja à altura de sua esperança.

Por isso, nesta eleição e em todas as outras, que a sociedade possa olhar para os candidatos, partidos e projetos com serenidade, memória e espírito crítico. Que cada cidadão faça sua escolha livremente, sem que sua fé seja usada como instrumento de pressão ou manipulação.

Que ninguém transforme Nossa Senhora Aparecida em cabo eleitoral. Que ninguém transforme Jesus em garoto-propaganda de projeto de poder. Que ninguém transforme igreja em comitê. Que ninguém transforme instituição de Estado em instrumento partidário. E que ninguém transforme o Brasil em inimigo de si mesmo.

Nossa Senhora Aparecida é a Padroeira do Brasil. É referência de fé para milhões. É símbolo cultural de uma nação plural. E merece o respeito de todos — católicos, evangélicos, espíritas, praticantes das religiões de matriz africana, judeus, pessoas de outras tradições religiosas e também daqueles que não professam nenhuma fé.

Que a Mãe Aparecida proteja o Brasil. Que a democracia seja preservada. Que a solidariedade vença a intolerância. Que o serviço público volte a significar, antes de tudo, serviço ao público. E que o povo brasileiro possa caminhar com liberdade, consciência e esperança.

Viva Nossa Senhora Aparecida!

Que Deus abençoe o Brasil.

Amém. Axé. Shalom. Que a paz esteja entre nós. Que assim seja.

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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