Chanceler Mauro Vieira repudia corte “ilegal” do fornecimento de energia à ilha e afirma que “a era dos protetorados já passou”; Cuba denuncia cerco energético “equivalente a um bloqueio naval”
Os governos do Brasil, México, Uruguai e Nicarágua condenaram o bloqueio econômico, financeiro e comercial imposto pelos Estados Unidos contra Cuba. A manifestação ocorreu durante a sessão plenária da 30ª Cúpula Ibero-Americana, realizada em Madri, na Espanha, nesta quinta-feira (5).
O encontro multilateral foi liderado pelo rei Filipe VI e reuniu chanceleres e representantes dos países ibero-americanos. A condenação ao bloqueio foi um dos temas centrais da agenda.
Repúdio do Brasil
O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, rejeitou a conduta de Washington de “cortar ilegalmente” o fornecimento de energia da ilha caribenha. Segundo o chanceler, a medida atinge diretamente os setores mais vulneráveis da sociedade cubana.
Vieira defendeu que as nações da região não devem ceder à pressão norte-americana e afirmou que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”. O ministro também declarou que “a era das arrogâncias unilaterais, dos protetorados e da diplomacia da força já passou”.
“Desde a comunidade ibero-americana, não podemos aceitar os retrocessos. Não podemos nos conformar com ameaças ao importante acervo de conquistas básicas de nossos países”, disse Vieira durante o discurso.
O chanceler retomou ainda a fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Assembleia Geral da ONU, em setembro, sobre a escolha entre multilateralismo e unilateralismo, democracia e extremismo, soberania e subordinação.
A posição dos demais países
Os chanceleres do México, Roberto Velasco; do Uruguai, Mario Lubetkin; e da Nicarágua, Valdrack Jaentschke Whitaker acompanharam a posição brasileira e também repudiaram o bloqueio.
O representante mexicano reiterou a “posição histórica” do país ao rejeitar o embargo e outras medidas econômicas coercitivas contra Cuba. Ele afirmou que “uma economia vale o bem-estar que distribui e não haverá prosperidade compartilhada enquanto uma parte de nossos povos ficar para trás”.
A denúncia de Cuba
No dia final da cúpula, o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez Parrilla, expôs os efeitos da política dos EUA sobre a população cubana. Ele denunciou o que classificou como um “cerco energético equivalente a um bloqueio naval”.
Rodríguez afirmou que Washington aplica “sanções secundárias a indivíduos ou entidades que estabeleçam relações comerciais com Cuba” e levou “sua guerra obsessiva de asfixia econômica a limites desumanos de castigo coletivo”. O chanceler cubano pediu que a comunidade ibero-americana atue “sem ingerências, exclusões nem pressões externas”.
O bloqueio e o cerco energético
O embargo econômico dos EUA a Cuba começou em 1962 e se aprofundou nas décadas seguintes. A lei Helms-Burton, de 1996, autoriza Washington a punir empresas estrangeiras que façam negócios com propriedades nacionalizadas na ilha. O dispositivo que permite processar essas companhias foi ativado por Donald Trump em 2019.
No mesmo ano, o Tesouro americano sancionou a estatal de petróleo Cubapetróleo e passou a mirar navios e armadores que transportavam combustível para a ilha. A medida reduziu o número de embarcações dispostas a fazer a rota e encareceu cada barril que chega a Havana.
Cuba depende de petróleo importado, sobretudo da Venezuela e da Rússia, para mover usinas e transporte. Quando Washington ameaça quem carrega ou financia esses carregamentos, o cerco alcança toda a corrente de suprimento. O efeito mais doloroso aparece na eletricidade: a escassez de petróleo e de peças de reposição já derrubou o sistema elétrico nacional em 2024, quando apagões deixaram milhões de cubanos sem energia.
LEIA MAIS:














