Por décadas, Jair Bolsonaro se posicionou à margem da democracia brasileira. Sua trajetória, desde os tempos de um obscuro deputado do baixo clero até sua desastrosa passagem pela Presidência da República, foi marcada por uma obsessão com o autoritarismo e uma resistência visceral aos valores republicanos. Agora, após uma tentativa fracassada de golpe de Estado e diante do rigor da Justiça, Bolsonaro se vê confrontado com aquilo que sempre tentou minar: a democracia brasileira.
Desde os primeiros passos na vida pública, Bolsonaro exaltava o regime militar, guardava com orgulho fotos de ditadores como Médici e Geisel em seu gabinete e transformava a apologia ao torturador Brilhante Ustra em bandeira política. Esse culto à violência institucional e ao desprezo pela ordem democrática não era apenas retórica: revelava uma visão distorcida de poder, onde a força suplantaria o diálogo e a imposição substituiria o pacto social.
É importante lembrar que o próprio Exército enxergava em Bolsonaro um elemento desestabilizador. Expulso da corporação por planejar atos de insubordinação, foi considerado um “mau militar” pelos seus superiores. Em vez de se reabilitar pelo mérito, fez da política um palanque para rancores e ressentimentos. Sua ascensão ao Executivo, fruto de uma conjuntura de crise e polarização, revelou-se rapidamente um erro histórico e moral do Brasil.
Durante o mandato presidencial, Bolsonaro demonstrou completo despreparo para a administração pública. Não apresentou um projeto consistente de governo. Ao contrário: mergulhou o país em crises institucionais contínuas, alimentou o negacionismo durante a pandemia, sabotou políticas públicas e promoveu um entreguismo vergonhoso. Seu projeto geopolítico era um só: transformar o Brasil em satélite dos interesses norte-americanos, ignorando qualquer defesa real da soberania nacional.
Nessa lógica de subserviência, seu filho Eduardo Bolsonaro — apelidado nas redes de “Eduardo Bananinha” — tornou-se uma caricatura grotesca de diplomata informal. Em vez de defender o Brasil, ataca as instituições do próprio país no exterior, prestando um papel vexatório e subordinado, talvez o mais patético já visto por alguém em posição de relevância política no Brasil contemporâneo.
Ao tentar um golpe de Estado — um plano desorganizado, mas gravíssimo — Bolsonaro não apenas mostrou sua total incapacidade de conviver com as regras do jogo democrático, mas também revelou que seu verdadeiro projeto sempre foi destruir o Estado de Direito. Agora, sem farda, sem poder e sem imunidade, ele finalmente se depara com a força legítima das instituições democráticas. O sangue e a memória dos desaparecidos e mortos políticos durante a ditadura ganham, nesse momento, um novo reconhecimento. Sua luta não foi em vão.
O lugar de Jair Bolsonaro na História está selado: o esgoto dos autoritarismos frustrados. Mas o Brasil, este sim, tem diante de si uma oportunidade rara de se consolidar como uma referência democrática no mundo. Para isso, precisamos de união, maturidade institucional e firmeza na defesa da Constituição.
Que a nossa luta seja iluminada pela memória e pelo exemplo de verdadeiros patriotas como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Leonel Brizola, Juscelino Kubitschek, Rui Barbosa, Honestino Guimarães, Vladimir Herzog e tantos outros que defenderam com coragem o direito do povo brasileiro à liberdade e à soberania.
A democracia venceu. E continuará vencendo — desde que estejamos dispostos a defendê-la com a mesma coragem com que outros enfrentaram a escuridão do passado.
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