A abertura da 79ª Assembleia Geral das Nações Unidas, realizada em Nova York, foi palco não apenas de discursos importantes sobre os desafios globais, mas também de um gesto simbólico que chamou a atenção de analistas políticos em todo o mundo: o “abraço” entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente norte-americano Donald Trump. Um momento breve, de apenas 39 segundos, segundo relatos, mas carregado de significado geopolítico e de implicações diplomáticas para o futuro das relações entre Brasil e Estados Unidos.
Por tradição histórica, o Brasil é o primeiro país a discursar na abertura da Assembleia da ONU. E Lula, em seu terceiro mandato, honrou essa tradição com um pronunciamento digno de um estadista. Com firmeza e clareza, abordou temas centrais da agenda internacional: a defesa da paz num mundo cada vez mais polarizado, o combate à fome e à insegurança alimentar, a importância do multilateralismo no enfrentamento de crises globais, a preparação da COP 30 no Brasil, e, sobretudo, a defesa intransigente da democracia e da soberania nacional. Seu discurso foi recebido com atenção e respeito, reafirmando o protagonismo do Brasil no cenário internacional.
No entanto, o que surpreendeu — e dividiu opiniões — foi a reação de Donald Trump. Apesar de suas típicas declarações polêmicas, como a negação da emergência climática (classificando-a como “questão de opinião”), o ex-presidente norte-americano elogiou publicamente o líder brasileiro. Trump afirmou ter sentido uma “química” com Lula e demonstrou interesse em se reunir com ele novamente nas próximas semanas para discutir a relação entre os dois países. Ainda que informal, esse gesto é um sinal diplomático inequívoco: os canais de diálogo entre Lula e a ala mais pragmática do trumpismo estão abertos.
Vale lembrar que essa não é a primeira vez que um presidente dos EUA elogia Lula de forma enfática. Em 2009, Barack Obama já havia dito que Lula era “o político mais popular da Terra” e declarou ser “fã” do brasileiro. Agora, é Trump quem, de maneira surpreendente, reconhece a liderança de Lula, mesmo com suas profundas diferenças ideológicas.
Quem certamente não deve ter gostado nada desse gesto foi a família Bolsonaro. Jair Bolsonaro, que declarou amor eterno a Trump com seu famoso “I love you, Trump”, pode ter sentido o gesto como uma traição. Seu filho Eduardo Bolsonaro, conhecido pelo apelido de “Bananinha”, tem feito peregrinações nos EUA em busca de apoio da extrema-direita americana, sem qualquer êxito significativo. A atenção dada por Trump a Lula representa um duro golpe à família Bolsonaro, que hoje enfrenta graves problemas legais: Jair em prisão domiciliar e Eduardo ameaçado de cassação e de processos penais no Brasil.
Esse gesto de Trump escancara um ponto importante: o trumpismo não é uma aliança ideológica incondicional. É, antes de tudo, uma plataforma pragmática. Trump, ao longo de sua trajetória, rejeita bajuladores — e os Bolsonaro cumpriram exatamente esse papel por anos. Lula, por outro lado, representou no encontro um interlocutor legítimo de um Estado soberano, um chefe de governo que atua com base em interesses nacionais, e não como extensão de uma ala política estrangeira.
É evidente, no entanto, que o governo brasileiro deve tratar esse gesto com extrema cautela. Trump é imprevisível, um verdadeiro showman da política mundial. Seus posicionamentos muitas vezes oscilam conforme os ventos da conveniência política. Porém, o simbolismo do aceno feito durante a ONU não deve ser ignorado: Trump está disposto a reabrir canais com o governo Lula. E isso não é trivial — trata-se de uma sinalização diplomática importante feita diante dos olhos do mundo.
O Brasil, com sua tradição diplomática sólida e respeitada, deve aproveitar essa janela de oportunidade para reposicionar sua relação com os Estados Unidos em bases mais maduras e equilibradas. A agenda bilateral é ampla e estratégica: vai desde o comércio e investimentos até cooperação científica, defesa, meio ambiente e segurança. Uma relação bem conduzida, com respeito mútuo, será benéfica para ambos os países.
Por fim, Trump e a inteligência geopolítica norte-americana já perceberam que a era Bolsonaro acabou. A insistência em manter relações com figuras desgastadas e politicamente tóxicas, como a família Bolsonaro, traz mais prejuízos do que benefícios à imagem americana na América Latina. Trump sabe disso e, se quiser reconquistar influência na região, será obrigado a dialogar com governos legitimamente eleitos, como o de Lula.
A diplomacia brasileira tem agora a missão de transformar esse gesto simbólico em ganhos concretos para o Brasil, sem abrir mão de sua autonomia, seus valores democráticos e sua soberania. O “abraço” entre Lula e Trump pode ter sido breve, mas, no xadrez político internacional, um movimento de segundos pode decidir o rumo de anos.














